Com um percurso de 26 anos na SAP, onde desempenhou diferentes cargos de direcção, a italiana Augusta Spinelli assumiu, em agosto, o cargo de presidente da região EMEA da gigante alemã. Em entrevista à Executive Digest, falou da importância dos serviços cloud na evolução das empresas.
Quais são os destaques da Connect 2025?
Esta foi a primeira edição onde reunimos todas as nossas áreas de negócio. O objetivo é que, no final destes três dias de evento, todos os participantes — quatro mil em Las Vegas e mais dez mil remotamente – percebam que cada área de negócio enfrenta os seus desafios e especificidades. E o verdadeiro sucesso — tanto dos clientes, como da própria SAP — depende da capacidade de eliminar barreiras internas. A estratégia da empresa já tinha sido apresentada em maio, com uma clara prioridade na integração da Inteligência Artificial (IA) no suite. O foco está em unir todo o processo empresarial de ponta a ponta, de forma coesa e contínua. Esperamos que todos aqueles que participaram neste evento em Las Vegas percebam a dimensão da inovação que apresentámos, tanto ao nível das aplicações como nos dados. Gostaria também de salientar o poder do Joule, o nosso assistente virtual, um elemento central na inovação da SAP. No fundo, são três pilares: as novas aplicações, a inovação no business data cloud — incluindo a parceria com a Google e a Databricks — e o assistente de IA.
Como está a evoluir o negócio na região EMEA – onde Portugal está incluído?
A região EMEA é uma designação geográfica que engloba a Europa, o Médio Oriente e África. Sou responsável por esta área, não apenas em termos de crescimento do negócio, mas, sobretudo, pelo sucesso dos clientes. Naturalmente, o negócio é importante, mas só será sustentável se conseguirmos que os nossos clientes prosperem nas suas atividades, caso contrário, o crescimento será apenas de curto prazo. Quando se observa o mapa das regiões da EMEA apercebemo-nos da enorme diversidade que existe. As condições económicas, sociais e geopolíticas variam profundamente entre países como a Finlândia, Portugal, a Nigéria, a Arábia Saudita ou o Qatar. Ainda assim, há um denominador comum. Todos os clientes procuram-nos com as mesmas necessidades: tornarem-se mais resilientes e ágeis, uma exigência que surge transversalmente, de todos os setores. A necessidade de maior agilidade, perante o ritmo acelerado da mudança, e de maior resiliência perante as instabilidades e incertezas do contexto global, aplicam-se tanto às grandes empresas como às pequenas e médias empresas (PME). Embora a Europa se distinga de África e do Médio Oriente também no plano regulatório, é evidente que em todos os países europeus — incluindo Portugal — existe uma notória e forte vontade de transformação e de aproveitamento do potencial que a tecnologia oferece. No fundo, todos querem ver benefícios concretos para o seu negócio. Ninguém quer apostar na transformação ou na inovação apenas por causa da IA. Cada empresa precisa de compreender qual é o verdadeiro benefício para o seu negócio com a inovação que propomos. Por isso, estamos envolvidos de diferentes formas com cada cliente, para demonstrar os ganhos concretos que podem alcançar, começando, desde logo, pela migração para a cloud. O futuro é a cloud. Não há alternativa! Aliás, o presente já é cloud.
Considera que as empresas europeias conseguem tirar partido da tecnologia — ou atingir o mesmo nível tecnológico — que vemos nos Estados Unidos ou na China?
A inovação que desenvolvemos e incorporamos nas nossas soluções é universal. Aquilo que produzimos no nosso centro de inovação e desenvolvimento destina-se a todos os clientes, independentemente da geografia. Paralelamente, a SAP está ativa na Europa, partilhando o seu ponto de vista sobre regulamentação e procurando assumir um papel mais relevante. Um exemplo é o nosso envolvimento atual no conceito de «sovereign cloud» na Europa [infraestrutura de cloud que garante que os dados europeus permanecem sob leis europeias]. Além disso, contribuímos para o debate europeu sobre níveis adequados de regulamentação, de forma a não criar desvantagens competitivas em relação a outras regiões. Respeitamos todas as normas, mas também acreditamos que há áreas onde é necessário desburocratizar, sem gerar legados desnecessários ou obstáculos à inovação. Iniciativas como o «sovereign cloud» podem trazer grandes benefícios à Europa, e a SAP também está empenhada em trabalhar na implementação prática da regulamentação europeia em setores específicos, ajudando as empresas a cumprir as regras sem comprometer a sua competitividade tecnológica.
Já referiu que as empresas, em todo o mundo, estão pressionadas pela instabilidade geopolítica que estamos a viver. Tem notado, no contexto empresarial, se as empresas estão com menos esperança no futuro dos seus negócios?
Não penso que as empresas estejam mais pessimistas. É verdade que existem mais preocupações, mas quando os clientes falam connosco, isso traduz-se num pedido muito claro: mais resiliência e agilidade. Por exemplo, na gestão das cadeias de abastecimento ou nas operações comerciais. As empresas querem compreender melhor como as alterações das tarifas comerciais podem afetar o seu negócio, ou como o aumento dos custos da energia e do petróleo pode impactar a cadeia de fornecimento, e procuram simular diferentes cenários para antecipar decisões. Há, portanto, uma maior inquietação — uma vontade de agir mais depressa e de tirar melhor partido dos dados que já possuem nas suas próprias infraestruturas, de forma mais inteligente e eficaz. O sistema está sob mais pressão, mas não vejo menos esperança — vejo antes essa preocupação transformar-se num impulso para serem mais ágeis, mais resilientes e mais inteligentes na utilização dos dados.
E a nível da segurança, a preocupação é crescente.
Sim, a segurança é, naturalmente, uma das principais preocupações. Aliás, nos últimos anos, essa tem sido uma das razões — não a única, mas uma das mais relevantes —para muitas empresas migrarem para a cloud. A cibersegurança é um tema central talvez menos falado e menos apelativo do que a IA ou a transformação digital. No entanto, não é menos importante. Na SAP temos feito um esforço contínuo para reforçar a segurança dos nossos serviços e proteger os clientes contra riscos cibernéticos. É, sem dúvida, um tema prioritário.
Com todas as ferramentas e soluções que disponibilizam a um conjunto tão vasto de indústrias, identifica setores que se destacam pelo dinamismo na adaptação das novas tecnologias?
Em primeiro lugar, quando olhamos para a região EMEA, esta é tão extensa que cada país acaba por ter uma indústria dominante. Por exemplo, no Médio Oriente, o setor do petróleo e gás é claramente preponderante. Já noutros países, destaca-se a indústria farmacêutica, ou os setores aeroespacial e de defesa. Portanto, não podemos indicar uma ou duas indústrias que se destaquem claramente das restantes. Cada setor enfrenta desafios distintos — sejam eles no automóvel, no petróleo e gás, ou no aeroespacial e defesa — e níveis diferentes de capacidade de investimento. As motivações para investir também variam: em alguns casos, o foco está em reduzir custos; noutros, em acelerar a inovação. Mas, na maioria das vezes, trata-se de uma combinação de ambos os objetivos.
E como classifica o mercado português, que é pequeno comparado com outros da região que administra?
Portugal é um país pequeno, mas muito interessante, energético e dinâmico. Aliás, a SAP conta com excelentes clientes em Portugal, tanto no setor privado como no público. Além disso, observamos um ecossistema de startups muito vibrante. Portugal é igualmente um país de talentos. Em funções anteriores — antes de assumir a presidência da região da EMEA — fui responsável pela entrega de serviços da SAP a nível global. E, em Portugal, existe um grande grupo de consultores a trabalhar para a Europa, Norte de África e outras regiões, formando uma equipa considerável, de 600 pessoas, o que não é uma estrutura pequena. Mas, para além da quantidade, importa destacar a qualidade das pessoas, e como estão a levar soluções de IA aos nossos clientes.
Soube-se, recentemente, que a Comissão Europeia (CE) está a investigar algumas políticas da SAP por alegadas práticas antitrust. Há novos desenvolvimentos sobre o assunto?
Sim, estamos a colaborar para explicar, fornecer informações e partilhar dados sobre as preocupações da CE, especialmente no que toca à concorrência. O nosso objetivo é garantir uma concorrência justa no mercado. Nesse sentido, estamos a trabalhar lado a lado com a CE para esclarecer a nossa política e assegurar que implementámos todas as ações para prevenir práticas de concorrência desleal. O processo deverá prolongar-se, provavelmente, por algumas semanas ou meses, até que todas as questões sejam devidamente avaliadas e esclarecidas.
Mas é algo que a preocupa?
Não. Valorizamos que a União Europeia queira validar, verificar. É o seu dever. Mas estamos bastante confiantes de que, com a informação que estamos a fornecer e com as ações de mitigação que temos implementadas, as preocupações serão resolvidas. Portanto, respeitamos isso.
Está neste cargo desde agosto deste ano. Quais são os seus principais desafios para os próximos anos?
O maior desafio é, provavelmente, a gestão do tempo. Porque a EMEA é uma região muito grande. Gostaria de estar no mesmo dia em três lugares diferentes, a fazer três coisas diferentes, mas isso não é possível. A EMEA é uma região fantástica e vivemos tempos empolgantes para a SAP e para esta indústria. Simplesmente, gostava que o dia tivesse 48 horas (risos).
* O Jornalista viajou a convite da SAP








