Porque continua Portugal a guardar toneladas de ouro em plena era digital?

País detém 382,66 toneladas do metal precioso, guardadas entre o Carregado e Londres, numa estratégia que visa proteger a economia nacional contra crises económicas, choques geopolíticos e instabilidade monetária

Francisco Laranjeira
Janeiro 21, 2026
17:52

Em plena era digital, Portugal continua a confiar no ouro como um dos principais pilares da sua segurança financeira. O país detém 382,66 toneladas do metal precioso, guardadas entre o Carregado e Londres, numa estratégia que visa proteger a economia nacional contra crises económicas, choques geopolíticos e instabilidade monetária, segundo dados divulgados pela ‘Euronews’.

Num contexto em que os pagamentos eletrónicos dominam e as transferências financeiras são feitas à distância de um clique, a manutenção de grandes quantidades de ouro físico continua a fazer sentido para os bancos centrais. De acordo com a ‘Euronews’, o ouro mantém-se como um ativo isento de risco de crédito, independente das decisões de política monetária de outros países e particularmente resistente a crises financeiras.

Nos últimos meses, o preço do ouro registou valorizações históricas. Em dezembro, a cotação da onça atingiu um máximo histórico de cerca de 3.756 euros, impulsionada por tensões geopolíticas, com a situação na Venezuela no centro das preocupações dos mercados. Esse valor foi entretanto superado no início de janeiro e, esta quarta-feira, a onça de ouro era negociada a cerca de 4.151 euros.

Esta subida traduziu-se em ganhos diretos para Portugal. Segundo os dados mais recentes do ‘World Gold Council’, as reservas de ouro do Banco de Portugal atingem atualmente um valor estimado de 47 mil milhões de euros. Cerca de metade do metal precioso está armazenada num edifício de alta segurança no Carregado, a norte de Lisboa, propriedade do banco central, enquanto a restante parte se encontra depositada em Londres.

A valorização do ouro tem sido sustentada por vários fatores, incluindo a procura por ativos considerados seguros, as expetativas de cortes nas taxas de juro e as compras regulares realizadas por bancos centrais em todo o mundo. Como resultado, o valor global das reservas de ouro subiu para cerca de 4 biliões de euros.

Para os investidores, as reservas de ouro são um indicador-chave da credibilidade financeira de um país. O volume de ouro detido pelo Estado é tido em conta na avaliação do risco soberano, na análise da solidez da moeda e na antecipação de riscos políticos. Neste contexto, Portugal ocupa uma posição de relevo, com a 14ª maior reserva de ouro do mundo e a sétima maior da Europa Ocidental, sendo superado apenas por países como Alemanha, Itália, França, Suíça, Países Baixos e Polónia.

O ouro desempenha ainda um papel essencial como mecanismo de proteção em cenários de crise monetária ou cambial. Em situações extremas, como um colapso do euro ou a interrupção do acesso à liquidez internacional, os bancos centrais podem converter ouro em moeda forte ou utilizá-lo como garantia para obter financiamento. Portugal recorreu a este instrumento durante as três intervenções do Fundo Monetário Internacional, em 1977, 1983 e 2011.

Para além da função estratégica, o ouro tem também um peso contabilístico relevante. O seu valor integra o balanço do banco central e contribui para a sua solvência financeira, reforçando a confiança e a estabilidade do sistema financeiro sob sua supervisão.

De acordo com o Conselho Mundial do Ouro, vários bancos centrais têm vindo a reforçar as suas reservas para reduzir a exposição ao dólar americano. A procura tem sido particularmente intensa na China, embora tenha sido a Polónia o país mais ativo no último ano, ao acrescentar 82,67 toneladas às suas reservas, que totalizavam 530,9 toneladas em dezembro.

Também o Cazaquistão, o Brasil e a Turquia aumentaram significativamente as suas reservas, enquanto Singapura, Usbequistão, Rússia e Alemanha figuram entre os principais vendedores de ouro no mesmo período.

Portugal atingiu o máximo histórico das suas reservas em 1974, com mais de 800 toneladas. A acumulação de ouro ao longo do século XX resultou, em grande medida, da história económica do país, incluindo as trocas comerciais durante o Estado Novo. Uma parte significativa dessas reservas teve origem em pagamentos em ouro feitos pela Alemanha nazi durante a II Guerra Mundial, no âmbito da exportação de volfrâmio, um metal estratégico para a indústria de armamento.

Segundo dados da Secretaria-Geral do Ministério das Finanças, as reservas de ouro do Banco de Portugal passaram de 65 toneladas em 1939 para 306 toneladas em 1945, atingindo 866 toneladas aquando da Revolução de 1974. Desde então, o país foi reduzindo gradualmente o volume de ouro, sobretudo após o metal ter perdido o seu papel central no sistema monetário internacional em 1971. No início deste século, Portugal ainda detinha cerca de 600 toneladas, parte das quais foi vendida durante o mandato de Vítor Constâncio como governador do Banco de Portugal, antes das sucessivas crises financeiras e geopolíticas que marcariam as décadas seguintes.

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