Os caminhos para reindustrializar Portugal

A Europa vê a reindustrialização como uma das suas prioridades e em Portugal existe vontade em avançar para uma efetiva aposta na indústria. O que falta então para a concretização de uma «revolução reindustrial»? A Executive Digest ouviu empresas e analistas que traçam o caminho a seguir.

Filipe Gil
Janeiro 7, 2026
11:44

Pode Portugal ambicionar a ter uma indústria forte, alavancada na tecnologia e inovação? Pode o país ser atrativo para a relocalização de indústrias de outras geografias? Há vontade governamental para apoiar essa estratégia? A segurança, o preço da energia e da mão de obra fazem do país um dos mais promissores na Europa para a aposta no setor transformador. No entanto, também existem entraves e desafios importantes a superar. Segundo dados da Confederação Empresarial de Portugal (CIP), em 2023, a indústria empregava 600 mil pessoas, valendo mais de 100 mil milhões de euros – bem distante do que o setor terciário, alavancado no turismo, representa.

Mas são cada vez mais as vozes que alertam para o perigo da economia portuguesa depender em demasia dos serviços, enquanto pedem um maior investimento na indústria ou uma estratégia para uma verdadeira reindustrialização do país.

De acordo com dados divulgados pelo Instituto Nacio­nal de Estatística (INE) no início de outubro, o Índice de Volume de Negócios na Indústria registou um crescimento homólogo nominal de 0,7% (2,0% em julho). Os índices relativos ao mercado nacional e ao mercado externo apresentaram variações de 2,1% e -1,5% (2,6% e 0,8% em julho), respetivamente. Mas será uma tendência? Este ano, o ministério da Economia lançou o programa “Acelerar a Economia” com o objetivo de potenciar a indústria através da criação de hubs, assim como a definição da estratégia Indústria 2045. Sobretudo focado na definição de uma linha nacional para a reindustrialização sustentável, o programa prevê construir um plano de ação da política industrial nacional para os próximos 20 anos, que «posi­cione o país por forma a aproveitar o movimento global de reorganização das cadeias de valor, com reforço do papel de Portugal como agente ativo na política industrial euro­peia, e da participação em mecanismos associados». Essa reindustrialização permitirá «consolidar a espinha dorsal da economia portuguesa, tornando-a mais competitiva e ativa no esforço de autonomia estratégica da Europa, substituindo importações e acoplando ainda uma série de serviços agregados de alto valor acrescentado», indica o documento “Acelerar a Economia”.

NO INÍCIO DE OUTUBRO, O ÍNDICE DE VOLUME DE NEGÓCIOS NA INDÚSTRIA REGISTOU UM CRESCIMENTO HOMÓLOGO NOMINAL DE 0,7% (2,0% EM JULHO)

É sabido que o atual Governo quer desenvolver um ecossistema industrial através de um programa para capacitar a indústria nacional para o desenvolvimento e fornecimento de equipamentos de alta intensidade tec­nológica a infraestruturas científicas internacionais, como forma alternativa de assegurar o acesso do país a equipa­mentos científicos relevantes. Esse apoio será feito através do financiamento de entidades quer para a construção de equipamentos e infraestruturas científicas de investigação e desenvolvimento, quer no apoio a projetos alinhados com a indústria de “Big Science”, que englobem «projetos científicos com níveis elevados de ambição e desafio tecnológico». E, mais recentemente, tivemos o lançamento da Linha Rein­dustrializar, financiada pelo PRR e pelo Banco de Fomento, com uma dotação de 150 milhões de euros a afetar a projetos candidatados até ao final de 2025. Temos assim um conjunto de iniciativas que sublinham o papel fundamental e a impor­tância da indústria para a economia. No entanto, os países desenvolvidos, incluindo Portugal, passaram por processos mais ou menos intensos de desindustrialização nas últimas décadas do século XX. À Executive Digest, Hermano Rodri­gues, Principal da EY-Parthenon (ver entrevista) explica que esse foi um processo normal de desenvolvimento tendo-se «materializado numa transição de atividade económica e emprego do setor primário para o secundário e, depois, para o setor terciário, mas também da globalização das cadeias de valor». A isso, acresceu a forte deslocalização da indústria do mundo ocidental para o oriente, nomeadamente para a Chi­na. Contudo, o atual quadro geoestratégico é instável – com múltiplos conflitos armados quer no Médio Oriente, quer na Ucrânia –, além do avanço acelerado das tecnologias digitais e aditivas, as cadeias de valor industriais estão a encurtar-se, estruturando-se crescentemente dentro dos vários blocos re­gionais do globo. Segundo o consultor, «os países e os blocos mundiais estão a adotar políticas industriais promotoras de “autonomia estratégica” e “soberania tecnológica”, dirigidas especialmente a setores como a defesa, os semicondutores, a energia, a farmacêutica e as matérias-primas críticas, que estimulam a reindustrialização».

O MINISTÉRIO DA ECONOMIA LANÇOU O PROGRAMA “ACELERAR A ECONOMIA” COM O OBJETIVO DE POTENCIAR A INDÚSTRIA, ASSIM COMO A DEFINIÇÃO DA ESTRATÉGIA INDÚSTRIA 2045

O papel das empresas na reindustrialização

«Portugal apresenta inúmeros fatores que podem garan­tir um lugar cimeiro na reindustrialização da Europa, nomeadamente a sua localização privilegiada, os riscos geoestratégicos e de segurança reduzidos, a liderança na produção de energia renovável – um fator absolutamente crucial –, e a qualidade do ensino, patente não só nas uni­versidades de renome mundial, mas também no valioso trabalho das instituições de ensino técnico e profissional», indica à Executive Digest, Sofia Tenreiro, CEO da Siemens Portugal. A responsável sublinha a grande importância do papel da reindustrialização para o espaço europeu. Aliás, foi o tema que apresentou na XXIX Conferência Executive Digest que decorreu a 4 de novembro, na Culturgest, em Lisboa (a reportagem completa do evento será publicada na edição de dezembro). Sofia Tenreiro acredita que o potencial existe, «todos os dias [na Siemens] somos confrontados com a qualidade e o talento que existem em Portugal».

A Renova é outra das empresas que acredita que o país poderá assumir um papel importante no processo da reindustrialização: «Portugal pode ter um papel central nesta mudança. Os portugueses são criativos, qualificados e capazes de se reinventar, reunindo condições para im­pulsionar uma indústria inovadora e sustentável. Também graças à nossa localização geográfica, favorável à transição energética, o país tem potencial para criar marcas e produtos de valor acrescentado, retendo riqueza e conhecimento em Portugal», indica fonte oficial da empresa.

Por sua vez, Américo Pinheiro, CEO da Ferreira de Sá, empresa fundada em 1946 em Espinho e que fabrica tapetes premium de acordo com a tradição da tapeçaria portuguesa, diz que Portugal «necessita de uma indústria de alto valor acrescentado, aliando o saber-fazer a marcas que abram mercados externos e criem valor no seu país de origem».

«PORTUGAL APRESENTA INÚMEROS FATORES QUE PODEM GARANTIR UM LUGAR CIMEIRO NA REINDUSTRIALIZAÇÃO DA EUROPA»

Inspirado no modelo norte-americano, João Figueiredo, CEO da Carmo Form, empresa dedicada à transformação de madeira do grupo Carmo Wood, acredita que «Portugal pode ser o Silicon Valley da indústria sustentável europeia, se tiver coragem para isso. Estamos no ponto certo do mapa, com o talento certo e os recursos certos. A Europa precisa de relocalizar a sua produção, e Portugal tem a dimensão ideal para testar novos modelos industriais: mais limpos, mais rápidos e mais inteligentes. O país pode tornar-se o exemplo europeu de uma indústria que produz sem destruir, que cresce sem desperdiçar e que exporta sem se desuma­nizar», acrescenta

Resiliência económica

A aposta na indústria não é vista como uma moda ou uma tendência, mas sim como uma «questão de sobrevivência eco­nómica», indica João Figueiredo, da Carmo Form. «Portugal precisa de deixar de ser o país que serve cafés ao turismo eu­ropeu e passar a ser o país que constrói soluções para o futuro da Europa. Uma maior industrialização traria diversidade económica, melhores salários e maior independência estraté­gica. Mas atenção: não falo em mais fábricas, falo em melhores fábricas, com tecnologia, automação e inteligência», sublinha.

A Siemens Portugal apresentou recentemente o relatório “Visões de Futuro – Setores estratégicos que impulsionam Portugal” para o qual convidou 12 associações empresariais a refletirem sobre o futuro e a partilharem as suas perspetivas. Sofia Tenreiro indica que o resultado foi muito interessante e «reforçou, uma vez mais, o significativo potencial que estas áreas representam para Portugal. Mas, para que este potencial se concretize, é essencial agir. A tecnologia pode ser o verdadeiro “superpoder” da Europa e de Portugal.»

O papel dos Estados e dos privados

«Sinto que Portugal é um país de serviços, faltam-nos mui­tos passos até vermos algum tipo de reindustrialização. Não estou seguro de que tenhamos claramente definido o tipo de indústria que queremos ser como país», indica Américo Pinheiro. Para contornar essa situação, o CEO da Ferreira de Sá considera «essencial uma aposta mais forte na formação e retenção de talento, sobretudo nas indústrias criativas e nas áreas de saber tradicional». Para acelerar e facilitar a reindustrialização, Pinheiro vê o Estado a atuar sobretudo na desburocratização e na «redefinição da regulação do sector de energia, do mercado de trabalho, das áreas de concorrência ilegal, do setor bancário e na diminuição de impostos».

Para a Carmo Form, o Estado devia fazer o que ainda não fez: confiar. Confiar nos empresários que criam emprego, in­vestir na formação técnica em vez de multiplicar burocracias e perceber que a economia não se transforma por decreto, mas por visão. «Não precisamos de mais incentivos, precisamos de menos barreiras. Cada formulário desnecessário é uma fábrica que não nasce. Cada atraso numa licença é um investimento que muda de país. Se o Estado se quiser reindustrializar, tem de começar por digitalizar-se.»

Sofia Tenreiro, CEO da Siemens Portugal, indica que estamos a assistir a um movimento e a um reconheci­mento crescente da importância da reindustrialização, e têm sido dados passos significativos nesse sentido. «Vemos isso em programas de financiamento e polí­ticas que visam a transição verde, a digitalização e o reforço da autonomia estratégica. Contudo, continua a ser crucial investir em áreas estratégicas para o desen­volvimento, promover a inovação, apostar em tecnologia com propósito, criar mais e melhor emprego e investir em formação – atra-vés da criação de mecanismos de formação focada e rápida e da abertura de mais vagas de formação superior e técnico-profissional nas áreas CTEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) –, assim como reforçar a celeridade dos processos, dos licenciamentos e da justiça».

A importância da IA para a Indústria 4.0

A Inteligência Artificial (IA) é vista como um dos prin­cipais motores para que a reindustrialização aconteça. A Renova faz o paralelismo com a introdução da máquina a vapor na primeira revolução industrial, que permitiu «substituir o esforço físico humano em trabalhos árduos. Hoje, a IA promete libertar a nossa mente, eliminando atividades rotineiras e aumentando a produtividade das pessoas. Não se trata de uma “moda”, mas sim de mais uma camada de valor sobre a automação e a análise de dados. A Renova está a abraçar esta nova tecnologia com grande ambição e já tem em curso diversos projetos, in­cluindo a criação de agentes de IA que agilizem e tornem os processos mais inteligentes». A Carmo Form partilha a mesma opinião e acredita que é esta nova ferramenta que separa quem vai liderar daquilo que vai desaparecer. «Usamos [a IA] para prever consumos, otimizar planea­mentos, ajustar orçamentos e melhorar margens em tempo real. O objetivo não é substituir pessoas, é libertá-las do trivial para que possam pensar. A IA permite-nos dese­nhar mais rápido, produzir com mais precisão e decidir com mais lucidez. A madeira continua a ser o material, mas a inteligência passou a ser o motor». Mais contida no entusiamo, a Ferreira de Sá indica estar a começar a implementar projetos de Inteligência Artificial na área fabril, que serão estendidos a outras áreas da empresa durante 2026. A Siemens Portugal acredita que a IA irá permitir otimizar sistemas críticos que não se podem dar ao luxo de falhar, aumentar a eficiência e a flexibilidade na indústria ou até prever padrões de consumo e gerir recursos de forma inteligente – algo vital no caso das in­dústrias eletrointensivas. Contudo, Sofia Tenreiro alerta que para que tudo seja plenamente concretizado, há que estar assente em quatro pilares fundamentais: «políticas de dados robustas, talento capacitado, processos otimiza­dos e ecossistemas fortes». E exemplifica com o chamado metaverso industrial ou os gémeos digitais. Esta tecnologia permite simular e replicar ambientes complexos, como fábricas ou cidades, em ambientes virtuais. «Os ganhos são imensos e nós, na Siemens Portugal, já os estamos a testemunhar nos diferentes projetos que desenvolvemos. Um exemplo recente reside num projeto que estamos a executar em Singapura, que consiste na simulação de processos de uma fábrica em ambiente virtual».

Tarifas, Guerras e Mudança: a influência da geopolítica

Com presença direta em 60 mercados de três continentes (Europa, Estados Unidos e Ásia), a Ferreira de Sá olha para as alterações geopolíticas como um momento de mudança e na adaptação aos novos cenários com resiliência e visão global. «Estamos confiantes no nosso saber-fazer, na nossa estratégia de longo prazo, e na qualidade da nossa inovação e das nossas pessoas».

Outra empresa portuguesa presente em várias geografias é a Renova, que afirma que as tarifas da Administração Trump não tiveram um impacto significativo nas exportações, uma vez que não depende do mercado norte-americano, nem em matéria de vendas, nem de matérias-primas. No entanto, indica o conflito da Ucrânia como gerador de forte volatilidade nos preços na Europa. «Para reduzir a nossa dependência energética externa, a Renova implementou uma central de biomassa, permitindo substituir em larga escala os combustíveis fósseis por recursos renováveis locais.»

«A reindustrialização deve ser uma bandeira de todos. Numa altura marcada por diferentes pressões, geopolíticas e económicas, é crucial garantir a soberania e indepen­dência da Europa», indica Sofia Tenreiro, que acrescenta: «a Siemens acredita firmemente no futuro promissor da indústria europeia, sendo a contínua aposta em território europeu reflexo dessa confiança. A Siemens faz, aliás, parte da iniciativa “Made for Germany”, que reúne mais de 60 grandes empresas alemãs com o objetivo de reforçar a atratividade e a competitividade da Alemanha. Esta é também uma grande oportunidade para Portugal, porque temos a capacidade de competir com os melhores. Criar, posicionar e reforçar a marca Portugal é uma missão que abraçamos e, por isso, estamos comprometidos em con­tinuar a impulsionar a reindustrialização sustentável do país, contribuindo para a construção de um futuro melhor – através de soluções inovadoras, da criação de emprego qualificado e do desenvolvimento de novas competências.»

A análise está feita e a maioria das empresas tem identificado o que é necessário para a nova industria­lização começar. E o país tem tudo o que é necessário para vingar, agora basta apenas começar o «movimento” da reindustrialização.

Artigo publicado na Revista Executive Digest n.º 236 de Novembro de 2025

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