Transição energética: Ponto da situação

Opinião de Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

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Agosto 29, 2025
12:44

Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros

Sabe-se, de acordo com sondagens, que os cidadãos nacionais, de um modo geral, se preocupam com as alterações climáticas, apoiam a transição energética e reconhecem a oportunidade económica. Esta vantagem competitiva carece, no entanto, de uma contínua promoção da literacia neste domínio.

Tomando como referencial um trabalho recentemente apresentado, da autoria de especialistas nacionais e espanhóis, vou resumir aqui, de forma expedita, a situação existente a nível nacional em termos de transição energética:

 

– Devido à existência de terminais de gás natural liquefeito (GNL) e com regaseificação competitiva, foi possível, durante a crise energética provocada pela invasão da Ucrânia pela Rússia, importar GNL dos EUA e Nigéria o que permitiu segurança energética;

– A guerra na Ucrânia coincidiu com o encerramento do gasoduto Magrebe-Europa, em 2021, que fornecia 12 mil milhões de m3 de gás da Argélia;

– Em 2021 o petróleo, o gás natural e o carvão representavam em Portugal 67% (ligeiramente abaixo da média da UE) do cabaz energético, sendo que a maior dependência era do petróleo;

– Em 2020 apenas 5% da energia bruta disponível em Portugal dependia da Rússia (24% para o conjunto dos países da UE); no entanto, devido à integração dos vários mercados energéticos, esta menor dependência da Rússia não nos tornou imunes ao aumento dos custos da energia;

– O plano europeu REPowerEU (2022) deu prioridade à poupança da energia, à diversificação dos fornecedores e à aceleração da transição energética (financiamento através do Mecanismo de Recuperação e Resiliência);

– Em termos de GNL o maior fornecedor nos últimos anos tem sido a Nigéria (quota >50%) e a seguir os EUA (quota >40%) que tiveram o maior crescimento de quota;

– Entre 2019 e 2023 (com uma pandemia pelo meio) o consumo de energia primária em Portugal diminuiu 8%, com reduções de 28% e 10% no gás natural e petróleo e um aumento de 20% a nível das energias renováveis;

– Entre 2021 e 2024, a capacidade instalada a nível das energias renováveis aumentou >30%, passando de 15,5 GW para 20,4 GW, movimento liderado pela tecnologia fotovoltaica;

– o Plano Nacional Energia e Clima 2021-2030 (PNEC 2030), foi recentemente revisto e reforçou os objetivos no domínio da capacidade das energias renováveis, armazenamento e eficiência energética;

– O PNEC 2030 prevê um aumento da procura de eletricidade de 50 TWh para 90 TWh (em 2030), assente na eletrificação da economia, prevendo uma quota de eletricidade renovável em 2030 de 97%, com o correspondente aumento da capacidade instalada renovável de cerca de 15GW em 2020 para 44 GW em 2030 e 2 GW de armazenamento; e prevê ainda o aumento da capacidade de eletrólise (hidrogénio verde) de 2,5 GW para 3 GW;

– Para cumprir estes objetivos o referido trabalho menciona que é necessário acelerar o desenvolvimento/expansão da rede, aumentar as interligações transfronteiriças, nomeadamente para fora da Península Ibérica (insuficientes), incrementar a capacidade de armazenamento, melhorar a flexibilidade da procura, entre outras medidas;

– Várias interligações (eletricidade) têm sido faladas/planeadas: interligação submarina via Golfo da Biscaia, interligação Minho-Galiza, interligação Portugal-Marrocos;

– Portugal, Espanha e França, concordaram em 2022 desenvolver novas interligações para o hidrogénio (gasoduto H2Med), com uma parte Celorico da Beira-Zamora, mas prevendo-se atrasos, pois existe o dilema: exportar o hidrogénio ou utilizá-lo para promover a modernização/descarbonização da economia nacional, nomeadamente em setores eletrointensivos ou difíceis de descarbonizar?;

– É também referido que o Porto de Sines está a desenvolver um projeto para exportação de derivados do hidrogénio verde (amoníaco, metanol, e-fuels);

– A produção de energia renovável a preço competitivo (que está a ocorrer) pode atrair indústrias do exterior mas pode limitar mais investimento; prevê-se que o mercado ibérico de eletricidade seja um dos mais económicos a nível europeu, sendo que também apresenta estabilidade de fornecimento (se foram tomadas as medidas antiapagão preconizadas) dada a complementaridade das fontes renováveis (solar, eólica, hídrica);

– Existe a possibilidade de apostar em cadeias de valor de certas tecnologias energéticas, por exemplo, a exploração das reservas de lítio, a refinação, a produção de baterias e a sua reciclagem, sendo que haverá outras, que garantam benefícios para as comunidades onde se situam;

– Esta aposta enquadra também com a possibilidade do aproveitamento da mão de obra altamente qualificada existente (Portugal tem uma das percentagens mais elevadas de pessoas qualificadas em ciência, tecnologia, engenharia e matemática da OCDE e parceiros).

 

Este ponto da situação, numa altura de férias, permite assim um relembrar rápido e sucinto das questões energéticas nacionais, com o mundo a rolar, mesmo em período de descanso…

Retemperemos as forças e armazenemos energia para mais um ano. Boas férias!

 

 

 

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