Por Alfredo Valente, CEO da iad Portugal
O setor imobiliário vive uma revolução silenciosa, mas implacável. Aquela imagem do agente que mostra casas ao fim de semana e faz telefonemas intermináveis está em vias de extinção. Hoje, quem quer vingar na mediação imobiliária precisa de deixar para trás o papel de simples intermediário e assumir-se como estratega. Não é uma questão de escolha, mas sim de sobrevivência.
A transformação é impulsionada por dois motores poderosos: tecnologia e exigência do consumidor. A inteligência artificial já não é uma promessa futurista — é uma ferramenta diária. Desde algoritmos que antecipam a valorização de imóveis, até plataformas que “adivinham” o comportamento dos compradores com base em cliques e preferências, o agente imobiliário deixou de ser apenas uma ponte entre quem vende e quem compra. Passou a ser um verdadeiro intérprete de dados, um conselheiro de confiança, alguém capaz de transformar informação em decisões estratégicas.
Mas este salto qualitativo não se faz sem dor. A velocidade da transformação do setor obriga os profissionais a evoluírem mais depressa do que o próprio mercado. E isso exige coragem, investimento pessoal e uma vontade imensa de sair da zona de conforto. A formação contínua, a familiaridade com ferramentas tecnológicas e uma nova mentalidade orientada por dados e não apenas por instinto são agora atributos obrigatórios e não diferenciais.
Num cenário onde o acesso à informação é praticamente ilimitado, o que realmente diferencia um bom consultor é a capacidade de interpretar, contextualizar e traduzir essa informação em valor concreto para o cliente. Isto aplica-se tanto na compra como na venda: um proprietário pode querer vender o seu imóvel por um valor irrealista, ou um comprador pode ser seduzido por métricas erradas. Cabe ao profissional desmontar perceções, apresentar dados fiáveis e construir uma narrativa sustentada.
A automação também está a libertar tempo e energia para aquilo que realmente importa: o lado humano da mediação. Quando tarefas como gerar descrições, responder a perguntas frequentes ou gerir leads são tratadas por sistemas inteligentes, o consultor pode focar-se no que o torna insubstituível — a empatia, o julgamento crítico, a escuta ativa. A IA, quando bem utilizada, não substitui o profissional: potencia-o.
Se há alguns anos o sucesso dependia sobretudo da rede de contactos e do jeito para vender, hoje exige-se mais. Muito mais. Exige-se literacia digital, pensamento estratégico, leitura de mercado e sensibilidade humana. O novo agente imobiliário é, em simultâneo, analista, conselheiro e negociador. E aqueles que resistirem a esta transformação correm o risco de se tornar irrelevantes.
Para os que abraçam esta mudança, o potencial é enorme. A tecnologia permite escalar resultados, criar experiências mais personalizadas para os clientes e atuar com base em dados concretos, em vez de suposições. Em vez de ser um “vendedor de casas”, o profissional moderno torna-se um parceiro de longo prazo, que acompanha o ciclo de vida dos ativos imobiliários com visão e proatividade.
O futuro da mediação imobiliária já começou e não espera por ninguém. Adaptar-se não é apenas evoluir: é garantir um lugar num mercado cada vez mais exigente, inteligente e competitivo. E para isso, não basta mudar ferramentas. É preciso mudar de mentalidade.




