Em 2025, o ecossistema tecnológico europeu encontra-se numa encruzilhada histórica. O continente conta com quase 40 mil empresas financiadas, um valor de mercado próximo dos 4 mil milhões de dólares e níveis de otimismo que não se viam há uma década.
Mas, como alertam Tom Wehmeier e Sarah Guemourio, autores do relatório The State of European Tech da Atomico, o potencial por si só não basta: “Ou criamos condições para transformar esta base sólida em liderança real, ou veremos este potencial não se concretizar”.
Em entrevista à Executive Digest, os especialistas analisam os riscos, os obstáculos e as oportunidades que definem o futuro tecnológico da Europa — e de Portugal — nos próximos anos.
Porque afirmam que a Europa está numa “encruzilhada”? Qual é exatamente o ponto de viragem que distingue 2025 das últimas décadas?
O ecossistema tecnológico europeu atingiu um nível de maturidade que o coloca perante uma escolha decisiva: transformar o seu potencial em liderança real. O ecossistema vale quase 4 mil milhões de dólares e conta com quase 40 mil empresas tecnológicas financiadas, face às 13 mil em 2016, enquanto o otimismo se encontra nos níveis mais elevados da última década. Estamos num ponto de viragem: ou criamos condições para construir sobre esta base sólida, ou falhamos na remoção das barreiras estruturais que travam o ecossistema e veremos esse potencial não se concretizar. O continente tem tudo o que é necessário para liderar, a escolha é agir ou não agir.
Quais são os riscos concretos de a Europa não agir agora? O que é que o continente perde se falhar esta janela de oportunidade?
O risco é o de um desempenho abaixo do potencial da própria Europa e não de um fracasso completo, sendo um risco que se agrava com o tempo.
O custo de oportunidade é significativo. Cerca de 18% das empresas europeias na fase de arranque estão sediadas fora do continente, um valor que sobe para 30% na fase de série C. Milhares de milhões de euros de valor poderiam regressar ao ecossistema se mais empresas optassem por crescer e cotar-se na Europa. Da mesma forma, se os fundos de pensões europeus igualassem os níveis de alocação dos EUA, mais 210 mil milhões de dólares poderiam fluir para o capital de risco europeu na próxima década.
No que se refere à contratação pública, a Europa investe 9%, ao passo que os EUA investem 20%, mesmo uma subida de um ponto percentual poderia aumentar o PIB per capita em 15%. A questão é se o continente consegue capturar todo o valor que está a criar.
Portugal deverá captar 230 milhões de dólares em 2025 — uma descida face ao ano anterior. Que fatores explicam esta perda de dinamismo?
A trajetória de Portugal mostra um progresso real neste período de dez anos, com um aumento superior a sete vezes desde 2016. Atualmente, o país conta com três empresas avaliadas em mil milhões de dólares, sendo que a Tekever deverá alcançar este estatuto em 2025. No mesmo ano, surgiram novos unicórnios em 11 países diferentes da Europa.
Portugal deverá captar ligeiramente menos do que em 2024, com 233 milhões de dólares investidos, o que representa uma diminuição de 7% em termos anuais. Esta modesta variação reflete a forma como as megarrondas moldam os rankings dos países. Enquanto os cinco maiores negócios no Reino Unido representam apenas 25% do financiamento total, noutros mercados a concentração é muito maior, o que significa que um pequeno número de empresas em forte crescimento pode alterar significativamente as tendências. 76% dos países fora dos 10 principais da Europa viram os níveis de financiamento diminuírem em 2025, o que sugere dinâmicas de mercado mais amplas em vez de fragilidades específicas.
A oportunidade reside na mobilização da infraestrutura de capital, dado que os fundos de pensões do sul da Europa apenas alocam 0,022% dos seus ativos sob gestão ao capital de risco. Se os fundos de pensões europeus igualassem os níveis dos principais investidores norte-americanos, mais 210 mil milhões de dólares poderiam fluir para o capital de risco europeu na próxima década.
Portugal ocupa a 14.ª posição em capital investido. Vendo o ecossistema português de perto, quais são os 2–3 obstáculos mais fáceis e rápidos de resolver?
Os obstáculos são europeus, não sendo específicos de Portugal, o que significa que as soluções podem ser aplicadas além-fronteiras.
A alocação dos fundos de pensões representa a oportunidade mais clara. Os fundos de pensões do sul da Europa investem 0,022% dos ativos em capital de risco, o segundo valor mais alto na Europa, depois de França e dos países do Benelux. No entanto, há ainda margem para crescer. Apoiar reformas regulatórias pan-europeias, como a EU Inc., beneficiaria igualmente os fundadores portugueses, sem ser necessário efetuar mudanças políticas específicas no país. À medida que o acesso ao capital de crescimento melhora a nível continental, através do aumento das alocações dos fundos de pensões, as empresas de toda a região beneficiam diretamente.
Que políticas de mobilidade e vistos seriam necessárias para a Europa se tornar “o destino de eleição” para talento global?
A Europa precisa de acompanhar a dimensão dos programas concorrentes. Os EUA emitem 400 mil vistos H-1B por ano, o Reino Unido emite 255 mil vistos para trabalhadores qualificados, enquanto a Europa emitiu apenas 90 mil Cartões Azuis — embora este número tenha aumentado 4,2 vezes desde 2016, há ainda margem para progresso.
A introdução de uma taxa de 100 mil dólares para as candidaturas H-1B nos EUA cria uma oportunidade clara. O visto de nómada digital de Portugal mostra o que é possível quando a Europa age rapidamente para atrair talento. O que é necessário é um quadro único de vistos acelerados que facilite a relocalização de fundadores e operadores, juntamente com regras harmonizadas de fiscalidade e de segurança social, de modo a desbloquear a mobilidade dentro do continente.
O relatório mostra que o capital de risco europeu supera os retornos dos EUA a 10 anos. Porque é que esta mensagem continua a não ser entendida pelos decisores políticos?
Num horizonte temporal de 10 anos, o capital de risco (VC) europeu gerou retornos de 17,2%, contra 13,1% do capital de risco (VC) norte-americano. O Fundo Europeu de Investimento confirma que a maioria das “vintages” desde 2008 gerou retornos positivos.
A perceção errada deve-se ao facto de os retornos demorarem mais de 10 anos a materializar-se e de o DPI (Distributed to Paid-In Capital) ter abrandado globalmente desde 2021. O apetite dos LPs está agora a aumentar, o que serve de indicador antecipado para futuros levantamentos de fundos. A narrativa está a mudar, mas precisa de mais saídas visíveis para ganhar tração entre os decisores políticos.
A tecnologia em defesa está a atrair muito capital. Esta mudança é conjuntural ou representa uma verdadeira reconfiguração industrial da Europa?
Isto é reconfiguração industrial. O financiamento em tecnologia de defesa aumentou 55% de ano para ano, atingindo os 1,6 mil milhões de dólares em 2025, com os governos da UE a comprometerem-se com mais 800 mil milhões de euros em investimento na área da defesa até 2030.
Em 2025, as empresas de defesa que utilizam a IA como tecnologia central representarão 41% de todo o investimento, contra apenas 4% em 2016. Empresas como a Helsing, a Tekever e a Quantum Systems ultrapassaram a fasquia de mil milhões de dólares em termos de valorização, enquanto investidores especializados, como a Keen Ventures, estão a angariar fundos dedicados. Tal indica um compromisso de longo prazo, impulsionado tanto pela necessidade geopolítica como pela oportunidade tecnológica.
A Europa investe apenas 9% da despesa pública em inovação, metade dos EUA. O que falta para desbloquear esta mudança cultural?
A Europa estabeleceu 20% como meta em 2014 e o desafio atual consiste em transformar esta ambição em ação, encarando o risco como um motor de crescimento e não como uma ameaça a gerir. A oportunidade económica é significativa: um aumento de cinco pontos percentuais poderia duplicar o PIB per capita.
Alterar a cultura da contratação pública significa apoiar empresas emergentes ao mesmo nível das já estabelecidas. A modernização dos quadros de contratação com orçamentos dedicados e metas claras para a participação de “startups” teria um impacto significativo. A contratação pública não só fornece financiamento, como também valida as empresas que provam o seu valor junto dos compradores europeus, ajudando-as a competir de forma mais eficaz a nível global. Com 42% dos inquiridos a considerarem difícil vender a grandes empresas e 25% a considerarem difícil vender ao setor público, ultrapassar essa barreira poderia desencadear um crescimento económico substancial.














