Quando Christopher Nolan decidiu filmar “Odisseia” inteiramente em película IMAX, criou também um problema para quem só vai ver o filme num ecrã normal. A imagem captada por estas câmaras mostra mais do que cabe num ecrã habitual, mais espaço por cima e por baixo da ação principal. Nos ecrãs tradicionais ou de formato mais estreito, essa fatia da imagem simplesmente desaparece. O que está a acontecer ao fundo da cena, o céu e o chão, ficam fora do enquadramento. A produção chegou a disponibilizar uma comparação lado a lado dos dois formatos, e a diferença só se percebe mesmo a ver as duas versões colocadas lado a lado.
O reporte de sustentabilidade tem andado a ser feito no ecrã errado.
Um conjunto de números de emissões, uma frase sobre compromisso com o planeta e uma foto de painéis solares na capa preenchem perfeitamente o enquadramento que sempre se usou. A imagem parece completa porque esse enquadramento foi desenhado para mostrar o que é confortável, não o que é relevante.
A dupla materialidade pede o mesmo tipo de alargamento de ecrã que Nolan foi buscar ao IMAX. Já não basta perguntar como é que a sustentabilidade afeta a empresa. Falta também perguntar como é que a empresa afeta tudo o que está à sua volta, da cadeia de valor às comunidades e aos ecossistemas onde opera, aquela paisagem inteira que ficava fora do enquadramento quando o relatório só olhava para o próprio negócio a partir de dentro.
Alargar o enquadramento dá mais trabalho. É mais simples continuar a reportar o que já se mede há anos do que ir atrás de dados que nunca existiram, e é mais confortável apresentar os números que ficam bem do que preparar a explicação para os que pedem mais contexto numa reunião de conselho. Abrir o ecrã todo implica rever processos de recolha de dados e, muitas vezes, a própria forma como a empresa entende o seu impacto.
Mas o público também quer comprar bilhetes para a sala grande. Investidores, reguladores, clientes e a próxima geração de trabalhadores querem esse enquadramento mais amplo, com o contexto todo.
Passar para IMAX não significa mostrar tudo sobre tudo. Significa ter a honestidade de perguntar o que está mesmo a acontecer fora do enquadramento habitual, e o critério para decidir o que é material o suficiente para entrar em cena.
Antes do próximo relatório, vale a pena fazer essa pergunta: o que está a acontecer nas margens do ecrã que ainda não foi mostrado?





