O que muda na era das “empresas agênticas”?

Opinião de Sofia Marta, Country Manager Google Cloud Portugal e membro do conselho executivo do Portugal Digital Summit

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Sofia Marta
Sofia MartaCountry Manager Google Cloud Portugal e membro do conselho executivo do Portugal Digital SummitOutubro 16, 2026 10:15

Nas conversas que tenho com líderes e decisores empresariais de norte a sul do país, oiço frequentemente a mesma confissão velada por detrás do entusiasmo com a Inteligência Artificial (IA): “Colocámos IA generativa a redigir e-mails, a resumir documentos e a gerar relatórios. Mas onde está o verdadeiro salto de produtividade e valor económico?”

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Passámos os últimos tempos fascinados apenas com a ponta do icebergue desta que é uma das maiores transformações dos últimos tempos.

Concentrámo-nos em usar modelos de linguagem como meros assistentes de secretária — estagiários brilhantes a quem pedimos para rever um parágrafo ou acelerar um código. Isso foi apenas o prólogo. A verdadeira revolução que vai definir a liderança e a competitividade nesta década não passa por falar com máquinas através de caixas de chat. Passa pela transição para as empresas agênticas.

Um agente inteligente não se limita a prever a próxima palavra ou a responder a perguntas passivas num ecrã. Ele raciocina sobre objetivos, traça planos, conecta-se a sistemas transacionais, colabora com outros agentes e executa ações no mundo real com autonomia supervisionada.

Na prática, isto significa transformar a forma como uma organização opera. Deixa de ser o operador logístico a consultar cinco painéis para antecipar uma rutura de stock e passa a ser uma rede de agentes autónomos que detecta a anomalia em tempo real, avalia alternativas com base no clima ou custos de transporte, reconfigura o fornecimento e notifica a equipa para validação.

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Não estamos a falar de ficção científica, nem de horizontes longínquos. É uma realidade que já estamos a construir hoje na Google Cloud com diversas organizações, e que tem um potencial extraordinário para transformar a economia portuguesa. Estudos recentes indicam que a aceleração da IA pode acrescentar até 8% ao PIB nacional, o equivalente a cerca de 20 mil milhões de euros adicionais de valor para o país, com a esmagadora maioria desse impacto concentrado nos setores de serviços, retalho, banca e administração pública. Precisamente as áreas onde a carga cognitiva e os silos operacionais mais asfixiam o talento humano.

O verdadeiro teste, por isso, não é tecnológico. É, sobretudo, de liderança e cultura.

Ao longo do meu percurso profissional, aprendi que as tecnologias disruptivas raramente falham por limitações técnicas. Quando tal acontece, deve-se muitas vezes à incapacidade de reinventar a cultura e os modelos de decisão.

Nas empresas agênticas, o organigrama tradicional perde sentido e a pergunta que cada líder tem de responder já não é “quantas pessoas tenho na minha equipa?”, mas sim “como é que as minhas equipas humanas orquestram ecossistemas de agentes autónomos para atingir resultados até aqui impossíveis?”.

Delegar a execução e o trabalho repetitivo a agentes não desumaniza as organizações; pelo contrário. Liberta o talento para o que as máquinas nunca terão: discernimento ético, empatia no relacionamento com o cliente, pensamento crítico e ousadia estratégica.

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No entanto, a autonomia delegada aos agentes exige novas barreiras de segurança, privacidade de dados e conformidade rigorosa. Criar sistemas agênticos responsáveis não é um travão à inovação — é a única base viável sobre a qual a inovação em escala pode acontecer.

Temos, em Portugal, uma oportunidade histórica. Não para competir em escala com os gigantes industriais mundiais, mas antes para trazer algo muito mais valioso nesta nova era, nomeadamente agilidade, capacidade de engenharia de topo e um ecossistema com enorme vontade de afirmação global.

Continuar a tratar a Inteligência Artificial como um projeto-piloto de automatização periférica é uma escolha perigosa que condena qualquer organização à irrelevância. Por isso, o desafio que deixo a todos os decisores é outro: deixar de perguntar apenas aos vossos colaboradores como podem usar IA para trabalhar um pouco mais rápido e começar a questionar o que poderiam fazer de forma diferente se esta tecnologia passasse a estar verdadeiramente integrada no negócio.

Em outubro, o Portugal Digital Summit vai colocar em debate o papel que empresas e líderes podem e devem assumir nesta nova era de organizações agênticas. Mais do que discutir o potencial dos agentes de IA de forma isolada, importa pensar como podemos redesenhar os negócios para responder às questões que vão definir o futuro.

Mas este debate não pode ficar circunscrito a um evento pontual.

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E talvez a melhor forma de começar seja com uma pergunta simples: se tivéssemos hoje uma força de trabalho infinita de agentes autónomos ao nosso dispor, que novos mercados ou soluções revolucionárias estaríamos a construir amanhã?

O futuro não espera por quem se contenta em acelerar a rotina. É hora de arriscar, desbravar caminho e liderar.

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