O problema já não é comprar casa. É conseguir viver onde se trabalha.

Opinião de António Falé, CEO da RE/MAX Portugal

António Falé
António FaléCEO da RE/MAX PortugalOutubro 12, 2026 12:58

Durante muitos anos, a principal dificuldade de quem procurava casa era conseguir reunir as condições necessárias para comprar: ter poupanças para a entrada, obter financiamento e encontrar um imóvel adequado ao orçamento familiar. Esses obstáculos não desapareceram. Mas, para um número crescente de portugueses, o problema tornou-se ainda mais complexo. Já não se trata apenas de conseguir comprar casa. Trata-se de conseguir viver perto do local onde se trabalha.

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Nos principais centros urbanos, onde se concentra uma parte significativa do emprego, a oferta de habitação continua a ser insuficiente para responder à procura. Os preços de compra e de arrendamento afastaram muitas famílias para zonas cada vez mais distantes, obrigando-as a escolher entre suportar um esforço financeiro excessivo ou aceitar deslocações diárias mais longas.

Esta realidade criou uma nova desigualdade. Duas pessoas com rendimentos semelhantes podem ter condições de vida muito diferentes consoante a localização do seu emprego, a rede de transportes disponível e o tempo que necessitam de dedicar às deslocações. A acessibilidade à habitação já não pode, por isso, ser analisada apenas através do preço por metro quadrado ou da prestação mensal. Deve incluir também o custo financeiro, pessoal e familiar de viver longe do trabalho.

Uma casa aparentemente mais acessível pode deixar de o ser quando acrescentamos combustível, portagens, passes, manutenção do automóvel ou a necessidade de uma segunda viatura. E há um custo que não surge em nenhuma simulação bancária: o tempo. Duas ou três horas diárias em deslocações representam menos disponibilidade para a família, para o descanso, para a formação e para a vida em comunidade.

O problema é particularmente evidente para profissionais cuja presença física é indispensável. Professores, profissionais de saúde, trabalhadores do comércio, da restauração, dos transportes, da segurança ou dos serviços urbanos não podem desempenhar as suas funções à distância. Quando estas pessoas deixam de conseguir viver nas cidades onde trabalham, o problema habitacional transforma-se também num problema económico e social.

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Uma cidade pode criar emprego e atrair investimento, mas terá dificuldade em funcionar se não conseguir alojar os trabalhadores de que depende. A falta de habitação acessível junto dos principais polos de emprego afeta a capacidade das empresas para recrutar e reter profissionais, aumenta a rotatividade e agrava as dificuldades de setores que já enfrentam escassez de mão de obra.

A resposta não pode passar por dizer às famílias que devem simplesmente procurar casa mais longe. Essa deslocação já está a acontecer. A questão é saber se os territórios que recebem essa procura dispõem de transportes, escolas, serviços de saúde, comércio e equipamentos públicos capazes de acompanhar o crescimento da população.

Também não basta construir mais habitação sem considerar onde ela é construída e de que forma se liga aos locais de emprego. Precisamos de aumentar a oferta nos centros urbanos, reabilitar imóveis devolutos e utilizar de forma mais eficiente os edifícios existentes. Mas precisamos igualmente de criar novas centralidades, distribuir melhor a atividade económica pelo território e garantir ligações de transporte rápidas e fiáveis entre os municípios.

O planeamento da habitação, da mobilidade e do emprego não pode continuar a ser feito de forma separada. Uma política habitacional que ignore os transportes pode criar casas que não respondem às necessidades reais das famílias. Da mesma forma, uma estratégia de desenvolvimento económico que concentre emprego sem garantir habitação acessível nas proximidades acaba por transferir o custo dessa concentração para os trabalhadores.

O setor imobiliário acompanha diariamente estas decisões. Vemos famílias que começam por procurar casa perto do emprego e que, perante a escassez de oferta ou os preços praticados, alargam progressivamente o raio de pesquisa. Muitas encontram soluções adequadas noutros municípios. Outras acabam por aceitar compromissos significativos no espaço, na localização ou no tempo de deslocação.

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O papel dos profissionais da mediação é ajudar cada família a compreender esses compromissos e a tomar uma decisão informada. Mas a mediação não consegue resolver, por si só, um desequilíbrio estrutural entre os locais onde se concentra o emprego e aqueles onde ainda é possível encontrar habitação.

Portugal precisa de mais casas, mas precisa também de aproximar a habitação das oportunidades. Isso exige maior rapidez no licenciamento, estabilidade para quem investe, melhores transportes públicos e uma visão territorial capaz de articular municípios, empresas e comunidades.

 

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