Sediada em Lisboa desde julho de 2024, a Medana é uma «health-tech» com soluções de medicina baseada em risco. Ou seja, a sua estratégia passa por integrar dados clínicos, genéticos e comportamentais numa medicina focada na personalização e na prevenção. Recentemente, assegurou dois milhões de euros de um investidor, a israelita Maccabi Foundation, que contribuirá para a criação de um centro de gestão e inovação em Portugal – e demais postos de trabalho. A estratégia de negócio está focada em garantir investimentos de empresas de capital de risco, subvenções governamentais e da União Europeia, além de investidores privados. Antes de explicar o negócio, a CEO da Medana, Tal Patalon, conta como quer mudar a medicina mundial, a partir de Lisboa.
O propósito da Medana é transformar o panorama da saúde. Como o vai fazer?
Sim. A melhor maneira de o explicar é com um exemplo prático. Se uma pessoa fizer análises de sangue e o seu resultado de hemoglobina glicada – a média dos níveis de açúcar no sangue nos últimos três meses – for de 6,5, considera-se que tem diabetes. Se o resultado for de 6,2 é considerado pré-diabetes. Valores abaixo de 5,7 são considerados normais. Agora, se compararmos dois pacientes: um com antecedentes familiares de diabetes, excesso de peso, hipercolesterolemia; e outro em boa forma, sem antecedentes familiares, que pratica exercício físico e não apresenta queixas. Contudo, a medicina tende a tratá-los apenas quando atingirem os tais valores de 6,5 e quando forem considerados diabéticos. A diferença entre um bom médico e qualquer outro está em reconhecer que aquele valor de 6,2, somado aos vários fatores já indicam um quadro de diabetes. Ou seja, mesmo sem ter atingido os 6,5, esse doente deveria começar logo tratamento. Na Medana quero trazer o conhecimento do médico de excelência e mudar a medicina do modelo baseado em limiares (modelo estatístico) para um modelo baseado no risco. Trato os pacientes segundo o risco que apresentam e não apenas conforme um valor de referência fixo – essa é a grande diferença.
E como calculam esse risco?
Desenvolvi um algoritmo baseado em dados do mundo real. Recolhemos todos os dados disponíveis do paciente e modelamos a sua trajetória clínica. Depois, aplicamos os modelos aos dados de cada paciente. Assim, podemos dizer que um paciente com valores 6,2 de hemoglobina glicada, antecedentes familiares, excesso de peso, colesterol elevado e queixas urinárias tem 99% de probabilidade, ou risco, de vir a desenvolver diabetes no próximo ano ou até em seis meses.
A vantagem é usar os dados genéticos para criar uma medicina «personalizada»?
Devemos olhar para a pessoa de forma holística. A partir de uma população criamos subclasses, construímos os algoritmos e fazemos avaliações de risco diferentes tratando os pacientes conforme o que for identificado. Para isso, recorremos também a dados genéticos, e é aqui que a coisa se torna interessante. Estamos a fazer sequenciação do ADN. Já é possível fazer o sequenciamento do genoma completo. O custo médio ronda os 800 dólares (cerca de 682 euros) e os preços estão a cair muito rapidamente. Por isso, acredito que nos próximos cinco anos o preço ficará na ordem dos 100 dólares (85 euros) ou menos por teste e será um exame acessível à pessoa comum e as seguradoras certamente que irão incluir este tipo de exame nos seus planos. Assim, depois de fazer o teste genético, o sequenciamento completo do genoma, será possível calcular, a partir da informação genética, o risco de desenvolvimento de uma doença. A isto chama-se “pontuação de risco poligénico”. Ou seja, se identificarmos, por exemplo, 300 ou 400 mutações distintas na sequência do ADN, podemos concluir que essa pessoa tem um risco elevado de desenvolver diabetes – um risco maior do que outra pessoa sem essas mutações. O facto de ter um risco genético não significa que vá necessariamente desenvolver a doença, mas indica que tem uma probabilidade mais elevada de a vir a desenvolver.
É isso que espoleta a prevenção?
Se eu souber que tenho um risco mais alto para diabetes e perceber que começo a ganhar peso ou ter outras queixas, consigo diagnosticar a doença mais cedo e prevenir as complicações. Um terço dos doentes diabéticos a nível mundial já é diagnosticado quando apresenta complicações. Isto é um desastre, não deveria ser assim. O ideal seria diagnosticar a pessoa antes de surgirem complicações. Na Medana conseguimos indicar quem deve ser acompanhado de perto – graças à avaliação de risco. É preciso dizer também quando deve ser feito o rastreio e qual é o momento certo para avaliar e não apenas seguir os limiares das diretrizes.
Escolheu sediar a empresa em Lisboa!
Não foi por razões fiscais, porque há países com melhores condições fiscais que Portugal. Sobretudo, queria estar na Europa. Acredito no mercado europeu e Portugal tem uma iniciativa de Inteligência Artificial para 2030 (INCoDe 2030), ou seja, aqui existe a declaração clara de que se quer implementar a IA, e tudo o que faço é com base em IA. Além disso, é muito semelhante a Israel em termos de dimensão populacional e é uma porta de entrada para a Europa. Adoro o país, sou israelita, mas tenho raízes cá e estou a mudar‑me, o que significa que nos próximos dois anos vou viver entre Israel e Portugal. Mas a ideia é ficar e construir aqui a base europeia de I&D da empresa. E adoro surf. E vocês têm ondas incríveis (risos).
O mercado da saúde em Portugal é interessante do ponto de vista do negócio?
O sistema de saúde em Portugal já está a atrair muitos estrangeiros, alguns com elevado poder económico, nomeadamente norte-americanos. Consequentemente, as empresas privadas de saúde estão a crescer bastante, em volume de negócio e em receitas. Mas Portugal não é o meu mercado, o meu foco são outros países da Europa, a Índia, a América do Sul e, claro, os Estados Unidos – apesar de ser um mercado um pouco saturado.
O objetivo é crescer junto das empresas privadas de saúde?
Estou particularmente interessada em implementar o nosso sistema num hospital público. Claro que faremos o que for possível no privado, mas acredito que é no setor público que o país precisa de dar um maior salto. Se conseguirmos implantar a IA nos serviços públicos de saúde, o impacto será muito maior no país. Esse é o meu objetivo. Aliás, já demos um primeiro passo: vencemos um programa financiado pela União Europeia (STEP Seal – Strategic Technologies for Europe Platform).
E já têm negócios a decorrer com hospitais portugueses?
Temos algumas ligações, neste momento, o grande desafio é criar confiança junto dos responsáveis pela tecnologia das instituições de saúde. É preciso mostrar que conseguimos harmonizar os dados para executar modelos de IA – o maior problema é a fragmentação de dados.
A privacidade dos dados é uma questão importante, como é que a asseguram juntos dos vossos clientes?
Todos se preocupam com isso, e com razão. Por isso, nunca retiramos dados da organização. A plataforma é instalada dentro da instituição e a informação permanece em ambiente fechado, mas pode ser harmonizada e organizada em data lakes (repositórios de dados) para correr modelos de IA – não apenas os nossos, mas de qualquer empresa que queira implementar IA. Isto é crucial, porque a medicina vai mudar para sempre com os modelos de linguagem em larga escala.
A Europa tem regras apertadas no uso de IA em organismos oficiais, como estão a lidar com isso?
Há muitas regras que, em teoria, limitam o uso de IA. Ao mesmo tempo, toda a gente usa IA nos telemóveis e computadores. Mas quando passamos para a saúde, precisamos de duas coisas: garantir a privacidade e adotar infraestruturas modernas. Os dados devem ficar na organização, num sistema cloud-based. Hoje, a cloud não é menos segura do que os sistemas instalados e mantidos nas empresas, isso é um mito que necessita ser ultrapassado. Aliás, as organizações mais avançadas do mundo já usam a cloud para processar dados médicos de forma segura, em ambientes fechados que pertencem à própria instituição. Isso permite treinar modelos de IA em dados harmonizados. É essencial porque Portugal não vai criar todos os modelos de IA de raiz, mas sim importar alguns modelos dos Estados Unidos ou de outros locais do globo. Mas, quando o fizer, terá de os ajustar à população portuguesa.














