Viktor Yushchenko: o presidente ucraniano que também quis juntar-se à NATO e foi envenenado e desfigurado

A Rússia nunca abandonou a sua tentativa de controlo político desde que a Ucrânia conquistou a sua independência da URSS na década de 1990.

Francisco Laranjeira
Abril 5, 2022
8:00

A Rússia nunca abandonou a sua tentativa de controlo político desde que a Ucrânia conquistou a sua independência da URSS na década de 1990, assim como tentar manter o país considerado estratégico sob o seu controlo. A interferência política, que agora transformou-se diretamente numa intervenção militar, já percorreu diversos momentos mas o mais ‘espetacular’, embora nunca tenha sido possível provar a autoria direta dos seus serviços de inteligência, foi a tentativa de assassinato da pessoa que se tornou presidente da Ucrânia entre 2005 e 2010.

“Antes do infeliz incidente, o líder da oposição ucraniana parecia ter menos de 50 anos. Agora, a sua aparência lembra a de um homem que sofreu de varíola e que também se entregou à bebida”, pode ler-se sobre Viktor Yushchenko. “A insuficiência hepática causada pelo consumo excessivo de álcool ou qualquer outra intoxicação produz uma textura áspera na pele, especialmente no rosto, e uma cor terrosa muito característica”, relatou Rafael M. Mañueco ao jornal espanhol ‘ABC’. No entanto, a sua súbita deterioração física, à época um candidato para a eleição presidencial ucraniana, passou de um rumor para se materializar em algo muito real e com base médica.

Yushchenko trabalhou no banco nacional ucraniano e ocupou cargos importantes na administração do país antes de entrar na política. Em dezembro de 1999, o presidente Leonid Kuchma nomeou-o primeiro-ministro mas a oposição conseguiu derrubá-lo apenas dois anos depois. Desde então, começou a construir uma oposição moderada ao poder de Kuchma, denunciado internacionalmente como um inimigo da liberdade de imprensa e amigo da autoridade.

Em 2004, quando a presidência de Kuchma ‘se apagou’ e ficou sem hipóteses de reeleição, Yushchenko anunciou a sua candidatura à presidência num espírito de renovação do país. O primeiro-ministro Viktor Yanukovych, próximo de Kuchma e apoiado pela Rússia, posicionou-se como o seu principal rival. Yushchenko defendeu a integração europeia, a entrada da Ucrânia na NATO e a luta contra a corrupção.

A batalha eleitoral entre Yanukovych e Yushchenko foi intensa desde o primeiro dia. A propaganda estatal acusou Yushchenko de ser nazi, apesar de o seu pai ter sido um soldado do Exército Vermelho preso em Auschwitz ou de a sua mãe ter protegido três meninas judias durante a II Guerra Mundial.

A última tentativa de derrubar a sua candidatura foi envenená-lo. A meio da sua campanha eleitoral, o seu corpo começou a inchar, a sua cabeça cresceu exageradamente, a dor espalhou-se por todo o corpo e pus começou a sair do seu corpo. Pouco tempo depois, em setembro de 2004, foi transferido para a Áustria, no qual foi diagnosticado cloracne (doença rara da pele causada pela superexposição a certos produtos químicos tóxicos) devido ao envenenamento por uma dioxina – os níveis de dioxina no sangue de Yushchenko eram 6 mil vezes maiores do que o normal e não foi difícil relacionar o seu envenenamento com o interesse do Estado em eliminar subitamente o rival mais popular.

As suspeitas sobre os autores do envenenamento apontavam para os serviços secretos ucranianos e os seus aliados russos. O chefe dos serviços secretos, Igor Smechko, assim como o seu ‘vice’, estiveram presentes num jantar com outras autoridades do país, a 5 de setembro, que precedeu o súbito colapso de saúde do candidato presidencial. “Não quero acusar ninguém. Há um promotor, uma investigação em andamento e um julgamento pendente. As responsabilidades terão de ser apuradas e os culpados desmascarados”, disse o então candidato presidencial, que nunca quis dizer o nome dos responsáveis, mas não deixou de apontar na mesma direção.

Com o rosto desfigurado pela dioxina, a primeira ronda das eleições presidenciais decorreu a 31 de outubro de 2004, que deu um triunfo a Yushchenko, com 39,87%, e Yanukovych, com 39,32%, apesar das irregularidades apresentadas e dos atos de corrupção.

A 26 de dezembro, foi declarada, em novo ato eleitoral, a vitória de Yushchenko sobre Yanukovych e o novo presidente conseguiu recuperar-se dos seus problemas de saúde e governou por dois mandatos, no quais encontrou grande oposição de um parlamento extremamente hostil e dividido para realizar as suas medidas modernizadoras.

Yushchenko não foi o primeiro alvo rival de Moscovo – a prática de envenenamento em larga escala por razões políticas também teve por alvos outros rivais do Kremlin, incluindo o primeiro-ministro checheno Anatoli Popo, o líder checheno Khatab e o presidente eslovaco Rudolf Schuster.

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