Portugal regista atualmente um «excesso de mortalidade por todas as causas» há 10 semanas seguidas, mais concretamente desde a semana 44, entre 26 e 31 de outubro de 2020. Esta é uma das muitas conclusões do mais recente relatório de vigilância epidemiológica da gripe e outros vírus respiratórios, divulgado ontem pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA).

Apesar de no relatório não estarem especificadas as causas para esta subida consecutiva da mortalidade, já em meados de dezembro, o INSA tinha lançado o alerta para este fenómeno, sublinhando que desde a entrada da Covid-19 em Portugal, tinham sido registados quatro picos da mortalidade, sendo que o último acabou por prolongar-se até agora.
As informações surgiram da análise divulgada na altura pela epidemiologista Ana Paula Rodrigues. Na intervenção intitulada “Resposta à epidemia de SARS-CoV-2: da monitorização da serologia à monitorização da mortalidade”, a médica de saúde pública explicou que, de acordo com os dados disponíveis no indicador de mortalidade por todas as causas, os quatro períodos foram responsáveis por 5.763 mortes em excesso face ao que estava estimado.
O primeiro período durou três semanas e ocorreu entre 22 março e 12 de abril, em plena primeira vaga da pandemia no país, em que se registou um excesso de mortalidade de 1.057 óbitos, “16% acima do esperado”, referiu Ana Paula Rodrigues.
O segundo pico de mortalidade foi o mais curto e durou apenas uma semana, entre os dias 25 e 31 de maio, do qual resultaram 363 mortes, 19% a mais face às estimativas para essas datas. Já o terceiro período foi aquele que superou em maior dimensão as previsões de mortalidade, ao representar 2.199 mortes e 30% de excesso relativamente às expectativas, tendo sido observado entre 06 de julho e 02 de agosto.
Finalmente, a investigadora referiu que o derradeiro pico de mortalidade “é coincidente com a intensidade da onda pandémica”. Segundo a análise do INSA, este período é já o mais longo dos picos de mortalidade, (prolongando-se até à atualidade) e começou a partir de 26 de outubro, registando até 06 de dezembro um excesso de 16% e 2.144 mortes em relação às previsões.
Um período que pela análise ontem divulgada do INSA, se mantém até aos dias de hoje, e tendo em conta os últimos números deste indicador, espera-se que a tendência seja crescente, pelo menos se não houver nada que trave a curva pandémica.
Ricardo Mexia, Presidente da Associação Nacional dos Médicos de Saúde Pública (ANPSP), considera que se nada for feito para contrariar a evolução crescente da curva pandémica, Portugal pode ultrapassar as 100 mortes diárias por Covid-19 na próxima semana.
Em declarações à Executive Digest o responsável indicou que estas 70, 80 mortes diárias «se vão agravar daqui a uns dias, os casos estão a evoluir e esse impacto é preocupante», afirma sublinhando que a taxa de letalidade atual oscila entre 1% e 2%, com mais de 10 mil casos por dia as contas são fáceis de fazer».
«Sabemos que demora algum tempo até assistirmos a essa evolução, mas provavelmente daqui a uma semana pode haver impactos muito negativos», refere apontando para números diários de mortalidade que poderão ultrapassar consideravelmente a barreira dos 100.














