No atual cenário empresarial, marcado pela aceleração da mudança e pela crescente complexidade dos desafios, o pensamento crítico surge como uma competência essencial para a qualidade das decisões dentro das equipas de trabalho.
Em entrevista à Executive Digest, José Crespo de Carvalho, Professor Catedrático e Presidente do ISCTE Executive Education, falou sobre o impacto transformador do pensamento crítico nas organizações, a adaptação das práticas de gestão às exigências do mercado, e a integração dessa competência nas formações de executivos.
De que forma o pensamento crítico pode melhorar a qualidade das decisões dentro das equipas de trabalho?
O pensamento crítico obriga a um processo mais estruturado que beneficia claramente a qualidade das decisões em equipas, indivíduos, empresas e organizações, tirando partido de uma abordagem consciente de 1) identificação e clarificação de problemas; 2) interrogação sobre informações e premissas subjacentes e/ou a construir; 3) análise e interpretação de dados; 4) inferência e dedução de possíveis soluções; 5) avaliação de alternativas por via do cruzamento do impacto e da exequibilidade/viabilidade; 6) decisão com base em critérios estabelecidos; e, finalmente, 7) reflexão sobre a decisão e seus resultados e análise crítica aos mesmos.
Este processo, descrito de forma muito generalista, mas francamente mais profundo, permite às equipas, pessoas e empresas/organizações, abordarem desafios de forma mais deliberada, consciente, amadurecida e claramente menos impulsiva e emocional, conduzindo, inexoravelmente, a escolhas mais estratégicas e francamente mais inovadoras e sustentáveis, lato senso.
Empresas com estruturas mais hierárquicas conseguem promover o pensamento crítico de forma eficaz? Ou ele depende mais de modelos organizacionais ágeis?
Modelos organizacionais ágeis, pela sua natureza flexível e colaborativa, são mais propícios ao alargamento e difusão de práticas de pensamento crítico. Estruturas hierárquicas formais, mais tradicionais, podem restringir a fluidez necessária para que haja um racional de questionamento permanente com consequências muito benéficas para a inovação contínua.
O pensamento crítico requer, assim, um ambiente onde a criação permanente da interrogação é incentivado e onde existe espaço para falhas e aprendizagens, o que é mais alinhado com estruturas organizacionais mais ágeis. Nas demais, embora o esforço conducente às práticas do pensamento crítico seja mais complexo é, obviamente, possível com mais esforço.
As empresas estão realmente a valorizar o pensamento crítico ou ainda priorizam mais competências técnicas?
Há uma crescente valorização do pensamento crítico nas empresas modernas, conforme destacado pelos relatórios do World Economic Forum, que indicam esta competência como essencial hoje e para o futuro. No entanto, a transição no sentido de valorizar, plenamente, skills interpessoais e cognitivos em paralelo com conhecimentos técnicos varia entre setores e culturas empresariais/organizacionais diversas, sendo um processo gradual e em constante evolução.
Como é que a formação de executivos se está a adaptar às exigências de um mercado em rápida mudança?
A formação executiva está cada vez mais a integrar preparação para competências de pensamento crítico, adaptabilidade e gestão da mudança. Programas avançados incluem simulações, jogos de negócios e projetos reais que desafiam os executivos a aplicar pensamento crítico em situações complexas, promovendo uma aprendizagem mais dinâmica e aplicada.
O Pensamento Crítico é um dos focos das formações oferecidas pelo Iscte Executive Education? Como é trabalhado na prática?
Sim, o Iscte Executive Education enfatiza o pensamento crítico através de metodologias ativas de aprendizagem. Porém, agora isolámos, face às crescentes necessidades, o pensamento crítico – usado em todos os nossos produtos – numa pós-graduação em que, com a 45 graus e o José Maria Pimentel, procuramos desenvolver esta competência para que os profissionais daqui saiam com uma preparação ímpar. Capazes de utilizar esta competência para qualquer circunstância, para qualquer problema, na procura, sempre, das mais variadas soluções – soluções inovadoras, visionárias e sustentáveis. Utilizamos ferramentas como análise de estudos de caso, workshops de resolução de problemas e sessões de brainstorming, onde os participantes são encorajados a questionar, argumentar e sintetizar informações, desenvolvendo uma abordagem crítica que é essencial para a liderança efetiva.
O impacto da Inteligência Artificial nas empresas exige um reforço do pensamento crítico nos líderes?
Com toda a certeza. O pior que nos poderia acontecer seria usarmos a inteligência artificial como produtor de respostas sem que para as mesmas não houvesse da nossa parte pensamento crítico sobre elas. Nós aconselhamos fortemente o uso de IA. Mas não podemos utilizar a IA de forma acrítica. Assim, no contexto atual, temos uma fonte inesgotável de pensamento crítico para aferir resultados por via de IA.
Assim, com a expansão da IA nas operações empresariais, a necessidade de pensamento crítico entre os líderes intensifica-se. Os gestores e líderes devem ser capazes de avaliar criticamente as recomendações geradas por sistemas de IA, discernindo quando seguir esses conselhos e quando aplicar julgamento humano, especialmente em decisões complexas que envolvem variáveis éticas, sociais, económicas, tecnológicas, legais, políticas, de governo das empresas e organizações, entre outras.













