A habitação em Portugal atravessa um dos maiores desafios da sua história, com uma crise inflacionária e as taxas de juro a tirarem o tapete e o teto a muitos portugueses.
Em entrevista à Executive Digest, Rui Torgal, CEO da ERA Portugal, analisou o mercado nacional, as medidas implementadas pelo novo Governo, e deu ainda o seu insight sorbe o que falta fazer para resolver o problema da habitação em Portugal.
Como descreveria o atual estado do mercado imobiliário no país?
Após um 2023 marcado por um contexto macroeconómico mais incerto, que teve um impacto direto no imobiliário português sobretudo no 1º semestre, este ano tem devolvido alguma confiança ao mercado e os números da operação referentes a estes primeiros cinco meses só reforçam essa ideia.
A faturação da ERA, só no 1º trimestre deste ano face ao período homólogo, cresceu +5%, bem como o número (+2,7%) de negócios reportados e o valor (+5%) desses mesmos negócios. Julgo que estes dados são uma evidência clara de um maior dinamismo que vemos este ano no mercado, que poderá ainda acentuar-se neste 2º semestre já com a descida das taxas de juro por parte do BCE e algumas das medidas anunciadas pelo Governo para a habitação.
Em suma, julgo que este ano será bem mais positivo.
Com a entrada em funções do novo Governo, quais as principais medidas que destaca do novo plano para a habitação?
Destaco, sobretudo, a preocupação do Governo em responder a alguns dos principais temas que contribuem para a crise que vivemos no setor desde há cerca de duas décadas.
Em concreto, refiro-me a medidas de incentivo à oferta (disponibilização de imóveis e redução de custos); promoção da habitação pública; simplificação legislativa; fomento da habitação jovem; e garantia de acesso à habitação. Sem esquecer a questão do arrendamento, criada pelo anterior programa “Mais Habitação” e cujo problema maior (preço) será resolvido também com o aumento da oferta, estes são para mim os grandes destaques deste plano do Governo e que poderão ajudar a mitigar a crise no setor.
E que outras medidas seriam fundamentais para fortalecer o setor?
Apesar de considerar que o Estado deve assumir um papel preponderante na resolução desta crise, sobretudo ao garantir o acesso a habitação a preços mais acessíveis por parte das pessoas mais vulneráveis e ao reduzir os impostos, julgo, igualmente, que é importante termos um Estado capaz de dar liberdade aos privados para desempenharem o seu papel. É preciso assegurar uma maior liberalização, reduzir a intervenção do Estado e promover uma maior cooperação entre o público e o privado.
Considero também que estas medidas podiam e deviam ser alargadas a outras faixas etárias da população, apesar de entender e respeitar a priorização dada aos jovens até aos 35 anos. No entanto, a geração imediatamente anterior, entre os 35 e os 45, por exemplo, passou por duas crises financeiras e uma pandemia desde o arranque do seu trajeto profissional e nunca foram alvo de benefícios concretos por parte dos diferentes Governos em relação à habitação (uma parte substancial continua sem casa própria).
De que forma podem o Governo e as empresas privadas ser atores fundamentais para dar resposta à crise na habitação em Portugal?
No seguimento do que falo na resposta anterior, e dando um exemplo concreto de como poderá funcionar esta parceria entre público e privado neste setor, julgo que o Estado poderá colocar os vários imóveis devolutos de que é proprietário a preços acessíveis para incentivar os privados a comprá-los, reabilitá-los e explorá-los. Algo similar a um acordo de concessão, com duração bem definida, que certamente irá agilizar o processo de recuperação destes imóveis que, mesmo não ficando disponíveis a preços acessíveis no imediato, a longo prazo poderão aumentar, de forma ativa, o parque habitacional público, contribuindo para ajustar os preços de mercado.
Quais são os segmentos mais promissores do mercado imobiliário neste momento?
O segmento residencial destinado à classe média, quer seja para compra ou arrendamento, é para mim o mais promissor, porque é o que carece de uma intervenção mais urgente por parte de todos – Estado e setor privado -, na tentativa de corrigir o problema de falta de oferta, e, como tal, julgo que estará no topo das prioridades deste e dos próximos Governos. Uma intervenção neste segmento fará com que, inevitavelmente, tenhamos a médio /longo prazo maior estabilidade social, maior dinamismo no mercado e um crescimento significativo da oferta.
Quais são os desafios mais significativos que os profissionais do setor imobiliário enfrentam atualmente?
A nível global, julgo que a incerteza que tem dominado o mundo, em termos políticos e económico, tem sido um dos maiores desafios também para os profissionais do setor imobiliário. As guerras na Europa e no Médio Oriente tiveram um efeito inflacionista imediato e acabaram naturalmente por ter repercussão direta também neste negócio. As políticas assumidas pelo BCE e pelos diferentes governos na tentativa de combater esta inflação condicionaram, sobretudo em 2023, as decisões de compra de casa por parte do cidadão comum e até de alguns investidores.
Na realidade portuguesa acresce o facto termos um ecossistema imobiliário muito próprio dominado pelo desequilíbrio acentuado entre a oferta disponível e a intensa procura, acabando por criar uma pressão nos preços.
Alias, como digo há muito tempo, o maior problema do nosso mercado prende-se com a oferta de casas disponíveis no mercado. É urgente construir mais, sobretudo para a classe média.
Como analisa e perspetiva o setor imobiliário e da habitação nos próximos anos?
O futuro deste setor, como o de tantos outros, irá depender da evolução deste contexto belicista que voltou a predominar no mundo. Se os diferentes conflitos não escalarem, agora que as instituições europeias, como o BCE, e os países já dão sinais de estar numa fase de descompressão ou normalização desta realidade, julgo que o mercado pode evoluir positivamente nos próximos anos.
Tal como referi anteriormente, os dados da nossa operação relativa aos primeiros cinco meses do ano, evidenciam uma retoma clara da confiança por parte do mercado e, caso não surja mais nenhuma hecatombe, antecipo que o setor do imobiliário nacional poderá continuar em terreno positivo e o tema da habitação, com as medidas entretanto assumidas pelos diferentes Governos, também se tenderá a resolver a médio / longo prazo.














