Dos velórios aos funerais: Como o vírus está a mudar as cerimónias fúnebres em Portugal

Funerais sem cortejo e de curta duração, velórios sem missa e com o caixão fechado. Estas são algumas das novas regras impostas nas cerimónias fúnebres em Portugal.

Simone Silva
Março 20, 2020
19:53

A declaração de Estado de Emergência Nacional, na quarta-feira, tem alterado o quotidiano dos portugueses em vários serviços e sectores, as cerimónias fúnebres não fugiram à regra e também elas vão sofrer várias alterações.

Uma das prioridades da Direcção Geral da Saúde (DGS) foi a implementação de determinados procedimentos que devem ser seguidos pelas agências funerárias, quando lidam com cadáveres de pessoas infectadas com coronavírus.

Neste sentido, o cadáver deve de estar vestido e ser colocado num saco impermeável, «preferencialmente de dupla embalagem». O caixão deve estar sempre fechado e a DGS recomenda ainda que se «opte pela cremação, ainda que não seja obrigatório fazê-lo»

O Governo já garantiu a implementação de algumas «regras genéricas» para as cerimónias fúnebres, contudo, ainda não foram especificadas práticas concretas por parte da DGS, o que leva algumas funerárias a adoptar os seus próprios procedimentos.

A Associação Nacional de Empresas Lutuosas (ANEL) já deu várias orientações às suas associadas sobre como devem proceder nos funerais, que incluem muitas das medidas já recomendadas pela DGS para os casos de pacientes infectados, de acordo com o presidente da ANEL, Carlos Almeida, citado pelo ‘Observador’.

Carlos Almeida refere que uma das medidas é a não realização de velórios e também o estabelecimento de funerais com o caixão sempre fechado, tal como aconselhou a DGS. «Eu sei que é difícil para as pessoas porque muda os constrangimentos, que já são demasiados, muda as homenagens que idealizaram para os ente queridos. Claro que nem sempre as coisas são fáceis de acolher. Mas temos de conseguir explicar que também se trata da nossa saúde», afirma citado pelo ‘Observador’.

Os funerais são realizados «directamente do local do óbito para o cemitério pretendido, o qual deverá ser o mais próximo possível do local do óbito», apenas com a presença de um celebrante ou padre, «junto da sepultura ou do crematório». Apenas devem participar na cerimónia os «familiares mais próximos», num máximo de dez pessoas.

No caso concreto da funerária de Carlos Almeida, o serviço fúnebre está a ser realizado «com data e hora pré-definida» e no máximo com a presença de dois familiares. O responsável indica ainda que a única coisa que é presencial é a entrega e assinatura dos documentos necessários, tudo o resto faz-se remotamente.

Também existem procedimentos de higiene a ser aplicados pelos funcionários das agências funerárias, tais como o equipamento de protecção individual e ainda a obrigatoriedade de viajarem sempre sozinhos dentro das viaturas fúnebres.

Existem ainda orientações transmitidas à própria família, como o distanciamento social. «Nestes casos, as pessoas têm compreendido e têm mantido a distância. Mas é difícil. Aquilo que a senhor directora-geral da Saúde mais diz é que não devem mexer nos olhos, não abraçar. Naturalmente, que, com a emoção, o que mais vai acontecer num funeral é isso. Estejam dez pessoas, estejam as que estiverem», refere Carlos Almeida citado pelo ‘Observador.

Carlos Almeida não pode garantir que todas estas recomendações são cumpridas por todas as agências funerárias, até porque não são ainda regras oficiais do Governo, ainda que o primeiro-ministro, António Costa, já tenha referido que «haverá regras orientadoras para que se evite grande concentração de pessoas e que (se evite) que os funerais possam ser momentos de contaminação por excesso de proximidade social».

As missas foram suspensas por decisão conjunta da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) e do Governo, uma medida que inclui também as missas dos funerais. Carlos Almeida faz um apelo para que a Igreja seja mais pro-activa e recuse qualquer missa: «A Igreja devia fechar as capelas e não ceder aos pedidos mais insistentes de missa num velório, como tive conhecimento. Continuam a acontecer. Acho que a posição da Igreja não está a ser profilática o suficiente».

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