Cientistas avisam: Terra poderá ser expulsa da órbita ou lançada contra o Sol por causa de uma estrela errante

Estudo revela que o risco de instabilidade no sistema solar causado pela passagem de estrelas é maior do que se pensava.

Pedro Gonçalves
Junho 21, 2025
17:00

Nas profundezas do cosmos, uma ameaça invisível poderá um dia alterar radicalmente o destino da Terra. Um estudo recente publicado na revista Icarus revela que a passagem de estrelas errantes nas proximidades do nosso sistema solar pode ter consequências catastróficas, incluindo a possibilidade de a Terra ser expulsa da sua órbita ou mesmo lançada na direção do Sol.

Os autores do estudo, Nathan Kaib, do Planetary Science Institute (EUA), e Sean Raymond, da Universidade de Bordéus (França), analisaram milhares de simulações computacionais para avaliar o impacto de estrelas que ocasionalmente se aproximam do nosso sistema solar. «As nossas simulações indicam que modelos isolados do sistema solar subestimam significativamente a amplitude das futuras mudanças orbitais dos planetas gigantes», explicaram Kaib e Raymond. Segundo os investigadores, o nível de instabilidade identificado pode ser mais de dez vezes superior ao estimado em estudos anteriores.

As chamadas estrelas de campo — estrelas que cruzam a vizinhança do sistema solar ao longo de milénios — são apontadas como o fator mais provável de desestabilização do sistema solar nos próximos quatro mil milhões de anos. Embora pareça um cenário distante, os investigadores alertam que os efeitos podem ser devastadores. De acordo com o estudo, existe uma probabilidade de 0,2% de a Terra ser ejetada do sistema solar ou colidir com outro planeta devido a perturbações gravitacionais causadas por estas estrelas. A probabilidade de Marte sofrer o mesmo destino é de cerca de 0,3%.

«Estes encontros são comuns numa escala cósmica», referiu Sean Raymond à revista New Scientist, sublinhando que as suas análises se debruçaram sobre “passagens típicas, comuns” de estrelas pela vizinhança solar.

As órbitas no limite do caos
Plutão, que já foi considerado o nono planeta do sistema solar, poderá transformar-se de um corpo estável num objeto com interações gravitacionais caóticas em resultado da passagem destas estrelas. O estudo calcula que, ao longo de cinco mil milhões de anos, existe uma probabilidade de cerca de 5% de Plutão perder a estabilidade. No caso de Mercúrio, o risco de instabilidade poderá aumentar entre 50% e 80%, o que representa uma ameaça muito mais séria do que a anteriormente considerada.

«É um pouco assustador pensar na vulnerabilidade do nosso sistema planetário ao caos gravitacional», comentou Renu Malhotra, cientista planetária da Universidade do Arizona, em declarações ao Science News. Malhotra não esteve envolvida no estudo, mas reconhece a relevância das conclusões agora apresentadas.

Uma ameaça improvável, mas real
Apesar de os números parecerem reduzidos, os próprios autores do estudo sublinham que tais cenários continuam a ser improváveis. «Nenhum destes eventos é provável», disse Nathan Kaib ao Science News. No entanto, a probabilidade de colisão ou ejeção da Terra, calculada em 0,2%, é significativamente superior ao que estudos anteriores apontavam.

Kaib já havia sugerido, em trabalhos anteriores, que a órbita da Terra poderia ter sido ligeiramente alterada por uma estrela que passou perto do sistema solar há cerca de três milhões de anos.

Para já, e apesar do alerta, os cientistas lembram que o nosso maior inimigo cósmico continua a ser o próprio Sol. Daqui a vários milhares de milhões de anos, o Sol transformar-se-á numa gigante vermelha e engolirá os planetas mais próximos, incluindo a Terra. Até lá, a passagem de uma estrela errante pode parecer um cenário remoto, mas está longe de ser impossível.

Este estudo reforça a noção de que, por mais estável que o sistema solar nos pareça, o seu equilíbrio depende de forças que, na maior parte do tempo, escapam ao nosso controlo e à nossa perceção. Numa galáxia em constante movimento, onde estrelas se cruzam e sistemas planetários se perturbam, a Terra continua, por agora, na sua órbita estável — mas as simulações dos cientistas recordam-nos que o cosmos está longe de ser um lugar imutável.

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