Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros
E já estamos em julho! Um mês de férias para muita gente… o que me deu mote para o tema de hoje: as viagens! E a confusão associada. E tudo isto associado à poupança de energia e sustentabilidade energética (e não só).
Somos quase todos os dias bombardeados com imagens e notícias sobre problemas em aeroportos apinhados e tempos de espera inimagináveis, problemas com cruzeiros marítimos, filas de viaturas e acidentes. Parece que um vírus atacou a maioria da população que pretende viajar sem parar, sem descanso, sem local nenhum do mundo que venha a ser deixado de “carimbar” com o próprio pé, sem nenhum período de férias dedicado ao descanso propriamente dito, mas sim e antes ao frenesim da viagem, para tudo o que é sítio e de preferência o mais longínquo possível. Não há “ponte” ou fim de semana alargado que não seja aproveitado para esta correria. Até as os very short breaks de ir e vir no mesmo dia ou no dia seguinte, apenas para fazer um jantar num local especial, ir a um espetáculo ou participar num evento, começam a ser moda.
E ultimamente também somos confrontados noticiosamente com as ondas de calor devidas às alterações climáticas, com temperaturas recorde em períodos prolongados, nomeadamente em locais do globo onde não era hábito este tipo de fenómenos ocorrerem, tanta vez e com tanta intensidade. Com os turistas a queixarem-se de estadias insuportáveis e a impossibilidade de usufruírem adequadamente do seu período de lazer… coitados!
Paralelamente, instala-se o turismo de massas, proporcionado sobretudo pelas viagens low cost, que tem um grande impacto positivo nas economias das regiões, mas tem também um impacto negativo a nível da sobrecarga de vários sistemas regionais, e provoca até alguma desvirtuação cultural e social local.
Ora, tudo isto nos deverá levar a pensar um pouco. Não será a altura de abrandarmos?
Menos viagens terão impacto em termos do consumo energético, diminuindo-o. O que também terá impacto no aquecimento global. Viajar, viajar, viajar, muitas vezes sem critério, só porque sim, só porque ainda não fui ali, só porque o meu amigo ou familiar já lá foi e eu não, só porque há uma promoção, só porque parece mal não viajar e não marcar no mapa-mundo mais este destino… OK, é interessante, mas será isso sustentável?
Não será agora a altura de adotar um novo conceito, o conceito de near is beautiful? E o que é isto? Basicamente é o de fazer turismo próximo. Indo um pouco ao encontro da campanha “vá para fora cá dentro”. Quantas vezes nos gabamos de conhecer este monumento, esta cidade, este parque, aquela montanha, aquela praia, aquele lago, o tal restaurante numa qualquer zona do planeta? E o quanto gostamos de contar as nossas peripécias dessas viagens a quem nos rodeia? Sim, também podemos fazer tudo isso, mas mais perto de nós, eventualmente com um glamour diferente. Mas é o preço que temos de pagar se quisermos deixar um mundo menos mau para os nossos descendentes. É uma proposta controversa, mas os tempos são difíceis. Afinal de contas muitos conhecem muita coisa no estrangeiro, mas, por vezes, não conhecem bem o que está à sua volta.
Já aqui abordei o conceito de small is beautiful num artigo anterior (https://executivedigest.sapo.pt/small-is-beautiful/ 24 agosto 2023) relacionado com a diminuição do tamanho dos veículos automóveis, que teve início na altura da primeira crise petrolífera nos anos 70 do século passado e a com a poupança de matérias-primas relacionada. Notícias de há poucos dias referem um estudo – da responsabilidade da Federação Europeia dos Transportes e Ambiente e da Clean Cities Campaign, organizações de promoção da mobilidade sustentável – que concluiu que automóveis cada vez maiores colocam em risco pessoas e desperdiçam milhões, trazendo novos riscos para o espaço público e segurança rodoviária, colocando em causa a eficiência energética e comportando custos adicionais. É interessante como muitos conceitos voltam a ter atualidade, passados uns anos, embora eventualmente “empurrados” por motivos diferentes.
Assim, porque não pensar também neste conceito de near is beautiful? E, paralelamente, apostar em viagens menos espontâneas e mais bem preparadas, menos frequentes e frenéticas? Naturalmente que não se propõe que as pessoas deixem de viajar, mas sim que o façam de forma mais sustentável a todos os níveis.
Uma das hipóteses, seria a de propor que os bilhetes de avião de barco, de comboio, de autocarro, tivessem uma informação sobre a pegada de carbono de cada viagem por pessoa. O mesmo se poderia pensar para os pacotes de férias, os cruzeiros, as excursões etc.
Viajante esclarecido é viajante comprometido (com o ambiente e a sociedade)!



