Por Sérgio Cardoso, Chief Education Officer do Doutor Finanças
Num país onde o crescimento económico tem sido, ano após ano, anémico, urge olhar para além das soluções tradicionais. O mais recente Global Financial Inclusion Index 2025 traz um dado que deveria ser manchete em qualquer debate sobre o futuro de Portugal: um aumento de 10 pontos percentuais na literacia financeira pode gerar um crescimento adicional de 0,3 pontos percentuais no PIB ao fim de quatro anos. Pode parecer pouco, mas para uma economia que cresce a ritmos inferiores a 2% ao ano, este impulso é tudo menos marginal.
Este relatório expõe a nu que a literacia financeira não é apenas uma competência individual, é um ativo coletivo. O estudo mostra que melhor literacia financeira reduz o incumprimento de crédito, aumenta a acessibilidade ao crédito e, sobretudo, potencia o crescimento económico. Países que investem em educação financeira colhem benefícios em toda a sociedade: famílias mais resilientes, empresas mais robustas e Estados menos pressionados a acudir a crises sociais.
O relatório é claro: em tempos de incerteza, governos e sistemas financeiros têm sido o principal apoio à inclusão financeira, compensando o recuo dos empregadores. Em Portugal, o Estado também tem reforçado programas de literacia financeira – como o Plano Nacional de Formação Financeira – e o setor financeiro tem multiplicado iniciativas de sensibilização. No entanto, a escala e o impacto destas ações continuam aquém do necessário para inverter o ciclo de baixo crescimento.
O relatório agora tornado público expõe ainda uma outra realidade que se vive noutros países europeus: as empresas têm vindo a recuar no apoio direto aos seus colaboradores, seja por constrangimentos económicos, seja por falta de incentivos. No caso de Portugal, não há evidências desta realidade. Por um lado, o estudo não analisa a nossa realidade; por outro, a minha experiência mostra o oposto: as empresas estão atentas e têm atuado, nomeadamente através de ações de formação que ajudam os seus colaboradores a encontrar soluções para as mais diversas situações.
Mas não chega. É preciso ir mais longe e haver um trabalho que envolva de forma transversal todos os agentes: Estado, setor financeiro, empresas, setor social e, claro, cada um de nós. Volto a sublinhar: a literacia financeira não é apenas uma competência individual, é um ativo coletivo. Exige o compromisso de todos.
E o contexto nacional, onde o nível de literacia financeira é baixo, em que os rendimentos comparam mal com o resto da Europa e em que o custo de vida está cada vez mais próximo, é particularmente preocupante tendo em conta que vivemos num país com uma população cada vez mais envelhecida, onde a pressão sobre as pensões e a necessidade de gerir rendimentos mais baixos durante mais anos é uma realidade incontornável.
O envelhecimento torna tudo mais urgente
Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa. Viver mais anos com rendimentos mais baixos exige decisões financeiras mais informadas, desde a poupança para a reforma à gestão do orçamento familiar. Sem literacia financeira, o risco de exclusão, endividamento e pobreza na velhice aumenta exponencialmente.
O que fazer?
Tornar a literacia financeira uma prioridade nacional, com metas claras e mensuráveis, integrando-a de forma transversal nos currículos escolares e na formação ao longo da vida.
Mobilizar o setor empresarial e social, criando incentivos para que as empresas invistam na formação financeira dos seus colaboradores e promovam o bem-estar financeiro como fator de produtividade e retenção.
Aproveitar a digitalização: tal como o estudo demonstra, os países que mais avançaram na inclusão financeira foram os que apostaram em pagamentos digitais, open banking e inovação tecnológica, áreas onde Portugal pode e deve acelerar.
A aposta na literacia financeira é, simultaneamente, uma resposta à urgência do presente e um investimento no futuro. Num contexto de crescimento económico débil, envelhecimento populacional e desafios sociais crescentes, não há política pública mais transversal, inclusiva e transformadora. O tempo de agir é agora, porque cada ponto percentual de literacia financeira pode ser a diferença entre estagnação e progresso. Investimento em Literacia Financeira deve ser visto como Política Económica e não apenas como Educação.




