Há muitos jovens portugueses que se estão a converter ao Islão, sem que as famílias tenham esta ligação religiosa, e a acompanhar a ideologia do Estado Islâmico, alerta Faranaz Keshavjee, investigadora e especialistas em assuntos Islâmicos que pertence à comunidade Ismaili.
O aviso é deixado em entrevista à TSF pela professora, que aponta algumas causas para o fenómeno, e fala sobre o terrorismo, numa altura em que o tema voltou a estar em cima da mesa, após o ataque que matou duas mulheres no Centro Ismaelita em Lisboa, e sendo que as autoridades chegaram a seguir as motivações terroristas do autor como uma das linhas de investigação, tendo depois afastado a hipótese.
Sobre os crimes, cometidos por um refugiado afegão, na terça-feira, a especialista recorda o passado e as condições a que foi sujeito, bem como as perturbações psicológicas e mentais que o afetavam. Abdul Bashir tinha passado por um campo de refugiados em Lesbos, na Grécia, antes de vir para Portugal. Nesse local, a mulher morreu num incêndio e o homem ficou sozinho com os três filhos.
“Não estou a querer desculpabilizar ninguém, mas imagino-me com três filhos pequenos e, não sabendo o que fazer, ficaria um bocadinho à nora. Acho que isto é sempre uma questão dramática quando há filhos, especialmente em pessoas como ele que vêm profundamente marcadas com experiências horríveis”, lamenta Faranaz Keshavjee, que é portuguesa, tendo chegado vinda de Moçambique em 1974.
A professora relata que estão “todos chocadíssimos” dentro e fora da comunidade ismaili e que têm “recebido centenas de mensagens de amigos e líderes das organizações da sociedade civil mostrando solidariedade e apoio e, inclusivamente, vontade de ajudar a cooperar”. A especialista relata que fica arrepiada “só de pensar” no apoio que tem sido prestado pelas autoridades nacionais, incluindo pelo Presidente da República e pelo primeiro-ministro. “Não nos podíamos sentir mais em casa do que nos sentimos”, relata.
Sobre o ataque Faranaz Keshavjee distingue-o como terrorismo, não no aspeto de ser motivado por uma ideologia religiosa ou relacionado com um extremismo, mas sim ligado a uma questão cada vez mais comum: os problemas da saúde mental. “O problema é que habituámo-nos a qualificar um ato terrorista com um ato associado à defesa de uma ideologia religiosa, isto é, islâmica, muçulmana. Neste caso, é um ato terrorista, mas como todos os outros atos, conforme tenho vindo a dizer desde 2003, de pessoas que cometem este tipo de atrocidades, têm a ver com problemas de saúde mental”, adianta à rádio TSF.
“Evidentemente, é um ato terrorista, não existem indicações no sentido de que tenha utilizado algum tipo de ideologia ou discurso nesse sentido. Mas sim, é o primeiro caso, algo inédito no nosso país, e isso é preocupante”, considera, apontando que falta “equilíbrio da saúde mental”.
Radicalismo em Portugal
A especialista afirma que “dentro do próprio universo muçulmano há esta ideia de que há uma certa heresia, e isso até está na historiografia islâmica, ou seja, de que os ismailis são aqueles que não seguiram o caminho certo”, assumindo que a comunidade é mais aberta e está mais integrada do que outras faixas do Islão, especialmente no que respeita à integração das mulher na sociedade.
Faranaz Keshavjee alerta que tem encontrado “pessoas na sociedade portuguesa, jovens que não nasceram em famílias muçulmanas, que sentem um descontentamento profundo com aquilo que é a realidade portuguesa” e que acaba por alinhar e acompanhar a ideologia do Estado Islâmico. “E quando temos portugueses que se convertem ao Islão e dizem que são contra toda esta hipocrisia ocidental, acho que é altura de questionarmos o que se está a passar na nossa sociedade. E porque é que eles vão beber a estas fontes?”, questiona, referindo que muitos vão buscar a ‘inspiração’ a meios como canais de YouTube.
A radicalização, defender, “está aí” e anumera alguns fatores que podem explicar o fenómeno, como “um sistema social em falência”, os problemas decorrentes da crise pandémica da Covid-19, sociais, económicos, e de saúde mental, a corrupção, o facto de se verem políticos que saem impunes pelos delitos cometidos, o racismo e o preconceito. “Quando se fala do racismo, porque ele existe e é praticado e é estrutural na nossa sociedade, ele está lá. O preconceito existe e nós precisamos dele para começar a falar com alguém, mas tornar o preconceito num ativismo de exclusão é uma coisa grave e o racismo é uma delas. Os muçulmanos são também vítimas deste tipo de atitudes e comportamentos”, destaca.
Faranaz Keshavjee resume que toda esta realidade constitui “um ‘caldo’ fantástico para ter a inclinação, tanto para uma espécie de anestesia e aderir aos populismos e às ideologias”.





