Por Pedro Alvito, Professor de Política de Empresa na AESE Business School
“Se tivesse perguntado às pessoas o que queriam, teriam dito que era um cavalo mais rápido.” Henry Ford (1863-1947), empreendedor americano que fundou a Ford Motor Company, proferiu esta frase que sempre me causou desconforto pela obviedade da mesma e pela verdade que encerra. De facto, numa época em que só se andava a cavalo, a resposta das pessoas é óbvia porque simplesmente não conheciam mais nada. A visão do desconhecido não está destinada a todos, dirão alguns. É muito difícil saber “como” inovar, principalmente quando essa mudança é disruptiva, face àquilo que todos conhecemos e estamos habituados a vivenciar. E o automóvel é um bom exemplo disso: encontrar algo que nos faça movimentar de forma mais rápida do que o cavalo. Faz parte da essência do homem querer ir sempre mais rápido, mais alto, mais forte (Citius, Altius, Fortius). Tudo se quer alcançar e o sonho é mesmo o impossível (dirão alguns): acabar com a morte, acabar com a limitação do corpo com o teletransporte e a busca incessante do Homem para que se torne ele próprio num deus.
O problema básico e filosófico é que se isto tudo acontecesse o mundo seria um local impróprio para viver e, lamento informar, ninguém seria de facto deus, porque a existência de vários deuses leva sempre à conclusão de que tem de haver alguém acima deles e, portanto, deixam de o ser. Tudo isto explica um pouco a ânsia do homem pelo domínio e controlo dos outros e pela glória que sempre se revela efémera.
Toda esta introdução visa explicar o que para mim tem sido assistir a esta discussão inimaginável sobre os perigos da IA, com alguns a temer que a própria possa destruir a humanidade, não por desígnio humano, mas por “vontade” própria. Lembro aqui, com algum sorriso envergonhado, o filme “Parque Jurássico” e todas as suas sequelas, em que o homem cria algo que ele julga estar controlado, mas que no fim rompe todas as barreiras impostas e a obra torna-se incontrolável. Talvez Steven Spielberg esteja já a pensar no tema da IA para um próximo filme.
Deixando-me de brincadeiras, até porque o assunto é sério, este problema merece ser estudado e bem avaliado. A pretensão de que está tudo bem, de que não há problema e de que isto tudo não passa de fantasia, bastando para tal que haja um presidente com elevado QI para o controlar; e, por outro lado, a posição de que o mundo vai acabar, tal qual a extinção dos dinossauros, são extremos que, não podendo ser postos de lado como hipóteses (tirando a do QI), devem ser muito bem analisadas. Tempo? Se assim o entenderem as elites temos todo o tempo do mundo para analisar o problema, porque se vivemos tanto tempo sem IA não vamos agora “morrer” só porque teremos que criar espaços e restrições para que a análise seja o mais completa possível. O perigo existe e é real, não adianta negá-lo. Tudo o que o homem criou pode ser usado para o bem e para o mal. E tendo o homem criado a IA, como sendo um ser “superinteligente” e “super curioso”, então o perigo de se tornar o tal deus que tem em si o bem e o mal e que os usa discricionariamente, e – pior do que tudo – sem qualquer noção ética, responsabilidade social ou consciência de humanidade é assustador. O problema aqui é que a “vontade” e decisão deixa de depender do homem criador para pertencer ao “ser” criado. É caso para exigir: IA, mas não vai!





