“Gostávamos que toda a gente compreendesse o valor do dinheiro”, diz o Country Manager da Trade Republic para Portugal e Espanha

Antón Diez Tubet é o novo country manager do banco Trade Republic para Portugal e Espanha. Em entrevista à Risco, o responsável fala sobre o crescimento da plataforma, fundada em 2015, da aposta em ETF e dos objectivos de se tornarem um dos maiores bancos europeus.

Executive Digest
Agosto 22, 2025
13:31
 
Antón Diez Tubet é o novo country manager do banco Trade Republic para Portugal e Espanha. Em entrevista à Risco, o responsável fala sobre o crescimento da plataforma, fundada em 2015, da aposta em ETF e dos objectivos de se tornarem um dos maiores bancos europeus.
 
Como e quando nasceu a Trade Republic?
A Trade Republic foi fundada em 2015, em Berlim, por três jovens empreendedores alemães. A plataforma, ou instituição bancária, foi oficialmente lançada em 2019, após um período de aproximadamente quatro anos dedicado ao desenvolvimento da aplicação e à obtenção das licenças necessárias e à implementação dos processos regulamentares exigidos. O lançamento na Alemanha foi como broker, inicialmente.
No início de 2021 foi lançada no mercado francês e de seguida pelo mercado italiano. Em 2022, chega a Portugal. E no final de 2023 tivemos as licenças que faltavam para sermos uma instituição de crédito. Neste momento somos um banco completo, um banco alemão totalmente licenciado, com um forte enfoque na poupança e no investimento. De facto, poderíamos desenvolver mais actividades relacionadas com a captação de depósitos, concessão de crédito, entre outras, porque – como é do conhecimento geral no sector bancário – o funcionamento das instituições financeiras assenta num conjunto de licenças específicas. Não se trata de uma licença única, mas sim de várias autorizações, como, por exemplo, para a prestação de serviços de gestão discricionária de carteiras, recepção e transmissão de ordens, e captação de depósitos. Actualmente, dispomos de todas as licenças exigidas pelas autoridades competentes, o que nos permite operar como uma instituição de crédito plenamente autorizada a nível europeu.
E o que vos motivou a entrar num mercado como o português?
Ocorreu em simultâneo com a nossa expansão para Espanha. A escolha de Portugal enquadra-se na nossa estratégia de crescimento sustentado nos mercados da Zona Euro. Actualmente, a Trade Republic está na Alemanha, Itália, França, Espanha e Portugal, bem como noutros mercados com euros, incluindo os Países Baixos, Eslováquia, Eslovénia, entre outros.
E há algum mercado com maior peso no vosso exercício?
Consideramos como mercados principais a Alemanha, naturalmente, mas também Espanha, Itália, França, Países Baixos, Áustria e Portugal. Existem, depois, os chamados mercados de “long tail”, como a Grécia, Irlanda, e outros, onde operamos, embora com um investimento mais contido. Nestes casos, seguimos actualmente uma abordagem mais reactiva, dado que a nossa prioridade é concentrar esforços nos mercados que consideramos verdadeiramente relevantes na Europa. A razão por detrás da nossa expansão para todos estes mercados prende-se, em primeiro lugar, com o facto de serem países com moeda única – o euro – e integrarem a União Europeia. Este enquadramento facilita substancialmente o processo de passporting de licenças, permitindo-nos operar a partir da Alemanha noutros mercados europeus ao abrigo do regime da Liberdade de Prestação de Serviços. E porquê Portugal? Porque é um mercado europeu importante, com a moeda única, o euro, e apresenta semelhanças
com a Espanha, nomeadamente no que diz respeito à falta de plataformas
que permitam investir com um montante reduzido e que ofereçam contas com juros interessantes, entre outras opções. Vimos, assim, uma oportunidade para marcar presença em Portugal. Em relação à expansão, o que queria
acrescentar é que a Liberdade de Prestação de Serviços é o primeiro passo quando se internacionalizam soluções. Em determinado momento, quando a marca já tem uma certa notoriedade e se pretende continuar a crescer em mercados específicos,  começa-se a fazer a localização. E para localizá-la, é necessário ter uma sucursal, por assim dizer. Foi o que fizemos em França e Itália. Espanha e Áustria ainda não estão em operação, mas é de alguma forma sabido que estamos a estabelecer uma sucursal, pois já é possível vê-la no registo do Banco de Espanha. Assim, já existe uma entidade chamada Trade Republic Bank Sucursal em Espanha. E foi publicamente anunciado pelo Banco de Espanha, portanto em determinado momento – e penso que já mencionei isto anteriormente –, se quisermos ter uma presença mais forte em  Portugal, ainda não posso confirmar, mas deveríamos seguir o mesmo caminho  que adoptámos em outros mercados. E essa, a longo prazo, é a minha expectativa para o mercado português.
Onde é que a Trade Republic se tenta diferenciar da oferta que já existe?
Neste momento conseguimos transferir muitos dos benefícios da utilização da tecnologia para o utilizador final. Somos uma empresa tecnológica a operar como banco e conseguimos reduzir significativamente os nossos custos através da automação. E, por exemplo, um dos maiores benefícios que oferecemos aos portugueses é que transmitimos o total dos juros do BCE ao cliente final, até 50 mil euros. Isto é algo que não é feito para muitos bancos. Como parte da nossa missão, decidimos que, se queremos que as pessoas tirem mais partido do seu dinheiro, quando os juros aumentam devem ir para o cliente. E não se trata de uma oferta promocional válida apenas por três meses ou algo do género, temos transferido a taxa do BCE para novos e actuais clientes, até 50 mil euros, sem condições, o que acreditamos ser um limite suficientemente alto para a maioria das pessoas. Portanto, são os juros que fazem o seu dinheiro crescer, e nós transferimos esses juros para o cliente, e este está livre para os utilizar, gastar, investir, o que preferir. Este é um factor diferenciador da Trade Republic quando comparado com outros bancos do mercado. Outro factor diferenciador é que queremos tornar o investimento fácil e acessível.

E isso quer dizer?

Significa duas coisas. Uma do ponto de vista de mercado e do produto. Isso significa que, a partir de 1 euro, pode investir na maioria dos ETF disponíveis na Europa. E estou a focar-me nos ETF porque acredito que é um produto superinovador, que tem sido utilizado por investidores institucionais durante muitos anos, e que tem sido oferecido por bancos privados a pessoas muito ricas durante bastante tempo, e só agora é que começou a tornar-se acessível para pessoas com menos recursos financeiros. Agora, estamos a tornar este produto acessível a todos, porque acreditamos que é a melhor forma de investir de forma diversificada, com uma visão a longo prazo. E estou a focar-me apenas neste produto porque é o mais importante para a maioria das pessoas. Temos criptomoedas, derivados, obrigações, acções, mas, para grande parte da população europeia, que tem um salário médio e não investe porque não foi bem-aconselhada ou porque foi forçada a comprar produtos financeiros maus, entre outros, é muito importante que possam investir em ETF de múltiplas classes de activos – como os da Vanguard ou iShares –, sem taxas do corretor e pagando apenas 10 ou 20 pontos base de taxa total de despesas anualmente. Isso é muito bom para as pessoas e é isso que queremos promover, queremos incentivar as pessoas a investirem, regularmente, pequenas quantias em ETF, e a construir riqueza a longo prazo.  E isso está relacionado com o meu segundo ponto, que é a nossa posição no mercado. Não nos vão ver a pedir às pessoas para fazerem operações de trading, não nos vão ver a publicitar derivados. Não nos vão ver a oferecer condições melhores a quem transacciona com mais frequência. Em vez disso promovemos a TANB de 2,25% para novos e actuais clientes, sem limitações, e queremos falar sobre criar planos de poupança – o que significa definir uma ordem de compra recorrente sobre um ETF. Ou seja, qualquer que seja o valor que se queira investir, fica-se com um investimento automático, não se pagam comissões de execução connosco, e vai-se construindo riqueza a longo prazo. E fazemos isto porque fundámos a Trade Republic com a convicção de que existem problemas estruturais na Europa no que toca ao sistema público de pensões e as pessoas precisam de investir o seu dinheiro para a reforma. Quanto mais cedo começarem, e quanto mais baixas forem as comissões, maior será o efeito de capitalização e melhores serão as hipóteses de alcançarem independência financeira na reforma. Acho que é muito importante passar uma mensagem simples: investir é para todos, investir é acessível e os ETF são excelentes produtos e não é preciso ter muito dinheiro. Quem começar cedo e investir 20, 30 ou 50 euros por mês, daqui a 30 ou 40 anos podem ter centenas de milhares de euros poupados, com pouco esforço. Caso contrário, vão chegar aos 60 ou 70 anos, com uma pensão pública que não lhes permite manter o seu estilo de vida e isso terá um impacto significativo nas suas vidas. E se pouparam o dinheiro, mas não o investiram, é uma má decisão financeira – porque esse dinheiro vai perder o poder de compra de forma significativa ao longo do tempo. É por isso que, quando falamos da nossa missão, quer na nossa publicidade ou mesmo quando falo com o público, transmito mensagens simples: devem investir o vosso dinheiro! Tudo bem terem os 10 mil euros em liquidez, mas também devem pensar a longo prazo e beneficiar do efeito da capitalização – com rendimentos médios anuais de 7% a 10%, que é o que os mercados accionistas deram no passado. E, se diversificarem e investirem no longo prazo, é provável que voltem a ter esses retornos, porque é assim que o mundo funciona. Se, daqui a 50 anos, os mercados não tiverem crescido, é porque teremos problemas bem mais graves – que seguramente também terão destruído o valor do dinheiro. Nesse caso, o dinheiro provavelmente já não vale nada. E já vimos isso em economias que não funcionaram de forma eficiente: o valor do dinheiro tornou- se praticamente nulo. E aí, já não há sequer hipótese de investir. Estou a repetir esta mensagem porque acho que é mesmo relevante, especialmente em Portugal e em Espanha, onde as pessoas não investem – talvez porque tiveram más experiências com bancos que faliram, com bancos a imporem os seus próprios produtos – ao ponto de já não acreditarem no valor de investir, certo? Mas temos de mudar isso.
E porque insistem nos ETF?
É um produto de investimento muito simples de perceber: é uma carteira diversificada de activos. É tudo muito automatizado, o que resulta num custo muito baixo, e é muito acessível porque é transaccionado em bolsa. E não temos de andar a explicar que, consoante o montante que se tem, recebe-se um ou outro ETF – como pode acontecer com os fundos de investimento tradicionais – ou que só se pode investir em private equity se se tiver muito dinheiro. Não, os ETF são para toda a gente, pode ser a partir de 1 euro, e  estão cotados em bolsa, vê-se o preço a toda a hora, por isso é muito transparente na forma como funciona. E permite transmitir uma mensagem simples: ao compra um ETF, que reflecte o valor de um índice subjacente, está-se a seguir esse índice ou essa economia. Por isso, se seguir a economia dos EUA, da Europa ou do mundo ao longo do tempo através de um ETF ser suficientemente bom para o dinheiro gerar um retorno anual acima da inflação. É por isso que dou tanta ênfase aos ETF– porque são algo muito inovador, muito fácil de entender, muito acessível e, acima de tudo, muito barato. Acho que a maioria das pessoas precisa de uma mensagem simples, porque caso contrário fogem do conceito de investir. Acreditam que é muito  complexo, que vão perder dinheiro, que é arriscado, e por aí fora. Quando, na realidade, não é. É participar no crescimento da economia a longo prazo, que é, no fundo, como o mundo funciona, no longo prazo.
 
Portanto, assumem este papel de educar os consumidores portugueses que têm algum receio de investir, e que não estão familiarizados com o tema?
 
Gostávamos que toda a gente compreendesse o valor do dinheiro. Queremos que as pessoas estejam mais conscientes dos benefícios que podem retirar do seu dinheiro. Não se trata apenas dos juros, mas também de evitar comissões, é também recuperar parte do custo que enfrentam. Tentamos tornar o dinheiro relevante.  Em Espanha, de onde sou natural, as pessoas não gostam de falar de dinheiro porque têm algum medo ou vergonha de o gerir mal. Portanto, não se trata apenas de investir, mas também de sensibilizar para o valor do dinheiro. Por exemplo, nas taxas de juro dos créditos à habitação, quando o Euribor sobe, toda a gente sabe. Mas não acontece o mesmo com o dinheiro. Queremos explicar o valor do investimento a longo prazo – sem colocar o dinheiro em risco, digamos assim. Não é passar dos zero aos100 num dia, mas investigar devagar a vero que acontece e isso, provavelmente, fará uma mudança natural de mentalidade, eque as pessoas começarão a colocar mais das suas poupanças em investimentos, porque percebem que a volatilidade desaparece quando investem de forma recorrente, que há movimentos de mercado, mas que a longo prazo acabam por atingir a média. Portanto, a minha expectativa é que cada vez mais as pessoas comecem a entender o valor de investir. E o valor de investir é que, no longo prazo, devem esperar um retorno médio. Mesmo que a curto prazo haja oscilações, no fim acabam por atingir essa média.  Mas quero explicar tudo isto de forma muito, muito simples, porque, como disse antes, as pessoas fogem do conceito se parece complicado. Mas é superimportante– o valor do dinheiro, o valor das comissões– e gostava de explicar: as pessoas não entendem o facto de pagar 2% de comissão de gestão num fundo durante 20 anos faz com que percam metade do efeito de capitalização do dinheiro ao longo do tempo. Ou seja, perderam 50% da riqueza que  poderiam ter acumulado, só por pagarem2% de comissão. É preciso explicar isto aos utilizadores finais, é um processo que pode ser simples e para todos.
Já têm dados sobre quem é o vosso cliente em Portugal?
 
A tendência que temos visto em Portugal é clara: as pessoas procuram-nos porque estão à procura de rendimento sobra sua liquidez. Esse tem sido o principal motor – e é muito semelhante ao que vimos em Espanha. As pessoas começaram a conhecer a Trend Republic porque oferecem uma das taxas de juro mais atractivas do mercado para dinheiro em conta. E isso trouxe-nos dezenas de milhares de clientes só no último ano. Tem sido algo muito atractivo e tem tido bastante sucesso. Ainda não posso partilhar os números exactos, porque provavelmente vamos anunciá-los à frente este ano, mas posso dizer que tem sido um sucesso – impulsionado, sobretudo pela taxa de juro que oferecemos. Agora, se olharmos para a nossa oferta completa, temos também um cartão de débito, gratuito. Podem usar esse cartão para fazer pagamentos no dia-a-dia. E temos os planos de poupança em ETF. De repente, estamos a criar um ciclo muito apelativo os clientes têm juros connosco, sem condições– não é necessário domiciliar o ordenado,  nem débitos directos, O que queremos é criar este ciclo de hábitos saudáveis. Os clientes investem porque querem beneficiar do cartão, usam-no porque o dinheiro em cash também está a render. Idealmente, as pessoas envolvem-se neste processo que, no fundo, é extremamente vantajoso para elas. O nosso objectivo é ajudar a criar bons hábitos financeiros. E, felizmente para nós, enquanto empresa tecnológica, conseguimos fazer disto um bom negócio, mas de forma justa, transparente e com valor real para o cliente.
 
Existe alguma diferença no comportamento dos vossos clientes
devido ao ambiente geopolítico actual?
Sim, porque mesmo que não o promovam explicitamente, somos uma plataforma de investimento muito acessível e económica e temos muitos utilizado reactivo que negoceiam connosco. Portanto, claro que, quando os mercados se movem tanto há um pico na actividade. Mas o mais interessante é que as pessoas que têm planos de poupança não mudam nada. Não vendem, não alteram o plano de poupança, simplesmente continuam. Provavelmente, quando vêem que o mercado cai 10%, não ficam bem, mas mantêm-se fiéis ao plano, porque já entenderam o valor de investir de forma recorrente. Portanto, nesse sentido, não vimos uma queda na activação de planos de poupança ou na adesão a esses produtos. O que vimos foi um aumento da actividade por parte das pessoas que gostam de negociar,  ou que acreditam que este é um bom momento para fazer uma compra pontual.
 
E como perspectivam a evolução da Trade Republic nos próximos anos?
 
Apenas seis anos após o lançamento inicial, já conquistámos oito milhões de clientes e temos 100 mil milhões de euros em activos. Acho que nunca houve uma instituição financeira que tenha crescido tão rapidamente na Europa. As minhas expectativas é tornarmo-nos um dos maiores bancos europeus para o retalho. E a única forma de alcançar isso é, em cada mercado, oferecer as melhores soluções  possíveis, adaptadas ao que os clientes realmente precisam. Vão existir soluções que são relevantes para todos os europeus – como um cartão de débito com certos benefícios, mas também a necessidade de adaptar à experiência bancária localmente. Não é a mesma coisa usar um banco estrangeiro e usar um português, certo? A automatização fiscal, por exemplo, é muito relevante, ninguém quer passar por esse pesadelo, ninguém quer estar a lidar com um IBAN alemão, preferimos, naturalmente, ter um IBAN português. Por exemplo, com a app da MB WAY, esperamos ter essas funcionalidades dentro de algum tempo, não sabemos quando, mas faz sentido para qualquer banco que queira estar localmente.
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