Gémeos Digitais: A tecnologia que está a moldar o futuro da indústria e da sociedade

Opinião de Luis Monção, Diretor de Industria & Consumo na minsait em Portugal (Indra Group)

Executive Digest
Janeiro 15, 2026
11:33

Por Luis Monção, Diretor de Industria & Consumo na minsait em Portugal (Indra Group)

 No debate sobre inovação tecnológica, poucas ferramentas tiveram um impacto tão profundo e discreto como os gémeos digitais, que se traduzem em réplicas virtuais de objetos, sistemas ou processos reais, criados para simular, monitorizar e prever o seu comportamento no mundo físico. O que começou como uma simples réplica virtual de máquinas e processos industriais evoluiu para uma plataforma capaz de unir eficiência, adaptação e bem-estar humano. Hoje, não falamos apenas de otimização técnica: falamos de como esta tecnologia se afirma como um verdadeiro pilar para a sociedade, revelando três capacidades essenciais que estão a transformar a indústria. Vamos a cada uma delas:

Antecipar. Num mundo onde as margens de erro são cada vez mais estreitas, projetar digitalmente antes de construir fisicamente deixou de ser uma vantagem competitiva para se tornar uma necessidade. Os gémeos digitais permitem simular milhares de cenários antes da primeira peça chegar à linha de produção. Isto não só reduz custos e prazos, como introduz uma lógica preventiva que substitui a intuição por dados. Em Portugal, esta prática já está a transformar a forma como as empresas concebem a engenharia: cada simulação evita um erro físico e cada modelo é uma linguagem comum entre disciplinas.

Proteger. Num cenário onde os riscos físicos, climáticos, energéticos e logísticos são inevitáveis, os gémeos digitais oferecem uma camada adicional de segurança. Graças às suas capacidades, já foi possível reconstruir, por exemplo, uma fábrica inteira após um sinistro com base nas réplicas virtuais. Esta redundância digital não só protege os ativos, como também preserva o conhecimento operacional, tornando-se um recurso estratégico. Num mundo vulnerável, a memória industrial digitalizada é mais do que um simples backup, é a garantia de continuidade.

Humanizar. A inovação não pode centrar-se apenas nas máquinas; tem de colocar as pessoas no centro. Os gémeos digitais já permitem integrar dados sobre ergonomia, fadiga, iluminação e deslocações, criando ambientes de trabalho mais seguros e produtivos. Além disso, oferecem soluções para formação em ambientes virtuais, reduzindo riscos e acelerando a integração de equipas. Esta abordagem, que alia engenharia e bem-estar, redefine a forma como medimos produtividade: uma operação mais ergonómica é também uma operação mais eficiente e sustentável.

Estudos apontam que na Europa mais de 59% das empresas planeia integrar esta tecnologia até 2028, e 57% associa-a diretamente a objetivos de sustentabilidade. Com taxas de adoção a crescer cerca de 30-35% ao ano, Portugal tem vindo a acompanhar esta tendência europeia e já tem bons exemplos de aplicação desta tecnologia. No setor energético, já são usados para otimizar o desempenho das turbinas eólicas e prever falhas antes que estas ocorram, reduzindo custos e aumentando a fiabilidade do fornecimento. No setor da logística também já se aplicam modelos virtuais para simular a distribuição em centros e antecipar picos de procura e melhorar a eficiência nas rotas de transporte. E no setor da saúde, os hospitais já exploram gémeos digitais para programar cirurgias complexas e personalizar tratamentos para melhorar a qualidade dos cuidados e reduzindo riscos clínicos.

É certo que o futuro das empresas não será definido apenas por métricas de produção, também o será pela capacidade de transformar tecnologia em valor humano. Perante riscos inevitáveis, os gémeos digitais oferecem uma solução robusta enquanto ferramenta concreta para garantir continuidade e proteger conhecimento crítico. Na verdade, mais do que um recurso técnico, representam uma infraestrutura estratégica que permite às organizações aprendizagem, adaptação e evolução com segurança. Esta transformação não só beneficia as empresas como também fortalece toda a cadeia de valor e a sociedade.

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