O preço do gás natural caiu em novembro para menos de 30 euros por megawatt-hora, segundo o índice europeu TTF, atingindo valores que não se verificavam desde o início de 2014. De acordo com o ‘El Economista’, trata-se de um nível historicamente baixo para um mês que antecede o inverno, superando inclusive o período da pandemia da Covid-19, quando o preço chegou aos 15 euros por megawatt-hora.
Atualmente, o gás está 38% mais barato do que os 48 euros por megawatt registados em novembro de 2024, aproximando-se dos valores de 2018 e 2019, quando o fornecimento russo pelo Nord Stream mantinha os preços comprimidos. A diferença é significativa face a novembro de 2022, quando o megawatt-hora atingiu os 146 euros no auge da crise de abastecimento.
Excedente de GNL e temperaturas amenas pressionam preços em baixa
Apesar da perceção de que o alívio geopolítico poderia justificar a queda recente, a publicação espanhola sublinhou que o principal fator é o excedente de gás natural liquefeito (GNL) disponível na Europa. As temperaturas mais elevadas e a forte produção eólica reduziram a procura, criando um contexto de abundância inesperada.
Segundo Norbert Rucker, chefe de pesquisa económica do Julius Baer, a oferta internacional “parece cada vez mais abundante”, sendo a Europa uma das principais beneficiárias do excesso de GNL que procura compradores. Os níveis de armazenamento no continente estão em 78,7%, abaixo dos 87% registados no mesmo período do ano passado, mas a diferença não tem condicionado os preços devido à forte produção renovável e ao afluxo de GNL americano.
A ausência do fenómeno ‘Dunkelflaute’, que em 2024 reduziu drasticamente a produção eólica e forçou um consumo adicional de gás durante um inverno rigoroso, também explica o alívio atual. A isto soma-se a procura asiática fragilizada por condições económicas e climáticas mais favoráveis.
Expansão nuclear reforça otimismo e reduz dependência do gás
O Julius Baer aponta ainda para a retoma nuclear no Japão, que reinicia a sua maior central e reativa reatores parados desde Fukushima. Na Europa, a nova central nuclear francesa volta gradualmente a fornecer eletricidade de forma estável, contribuindo para uma menor pressão sobre o mercado de gás.
Capacidade global de GNL transforma panorama até 2030
A Agência Internacional de Energia previu um excedente estrutural de 65 mil milhões de metros cúbicos entre 2027 e 2030, impulsionado sobretudo pelos Estados Unidos, mas também pelo Qatar. Esse aumento deverá reduzir em cerca de 40% o custo do gás cotado no mercado europeu, com os EUA a responderem por um terço de todo o GNL exportado mundialmente.
A UE está a ajustar-se a este novo paradigma através de contratos de longo prazo a preços fixos com produtores americanos, procurando reduzir a exposição ao mercado spot. A consultora European Gas Hub destacou que as quedas de preço no terceiro trimestre resultam de uma produção global de GNL 9% superior à de 2023, juntamente com a procura asiática persistentemente fraca.
Fluxo russo desaparece e Europa consolida novo modelo energético
Com a expansão do GNL, a energia russa perdeu a relevância que mantinha antes da guerra. A European Gas Hub considerou “muito provável” que o fluxo de gás da Rússia através do Báltico e da Europa Oriental tenha cessado definitivamente. A Europa passa a dispor de importações mais diversificadas, estáveis e competitivas, redefinindo o seu modelo de abastecimento.
Segundo o Julius Baer, a referência dos 30 euros por megawatt-hora simboliza apenas o início de uma mudança estrutural profunda: mesmo num cenário de eventual acordo de paz, o continente não regressará ao sistema anterior. O mercado pré-guerra desapareceu e a UE entra agora numa fase em que o GNL assume um papel central e duradouro.














