O músico Salvador Sobral retirou todos os álbuns da plataforma de streaming Spotify – “a que paga pior aos autores” e promove música criada por IA – consciente de que a decisão pode ser prejudicial para a sua carreira.
“Motivos sobram” para Salvador Sobral ter tomado uma decisão que muita gente o avisou para não tomar e que tem consciência poder ser “um tiro no pé” na carreira, visto que “noventa e muito por cento” dos seus ouvintes estão no Spotify.
“Mas eu prefiro um tiro no pé da minha carreira do que um tiro na cabeça de uma pessoa indiretamente ligado à minha música”, afirmou, em declarações à Lusa.
Na base de tudo está o facto de a plataforma “mais popular, mais conhecida do mundo e com mais subscritores” ser “a que pior paga aos autores”.
“Estamos a falar de 0,003 cêntimos [por audição], que é absolutamente ridículo. Mas nós jogámos esse jogo da tirania e ninguém fala e estávamos todos no Spotify contentes de anunciar o nosso ‘wrapped’, mas foram-se acumulando coisas”, referiu em declarações à Lusa.
O investimento feito pelo diretor executivo, e cofundador, da plataforma, Daniel Ek, na empresa europeia especializada em inteligência artificial de defesa Helsing e que, para o músico faz com que a música que lá está “esteja a financiar o negócio da morte”, foi outra das razões para decidir retirar os álbuns. “Eu não quero estar associado a isso”, disse.
O investimento de Daniel Ek na Helsing, feito através da empresa de captais de risco Prima Materia que o próprio fundou, levou também, por exemplo, os britânicos Massive Attack a retirarem todo catálogo da banda do Spotify em setembro do ano passado.
Ao investimento na Helsing, junta-se o facto de a plataforma ter passado anúncios de recrutamento do Serviço de Imigração e Alfândegas (ICE, na sigla em inglês) dos Estados Unidos, ouvidos por quem não subscreve o serviço de ‘streaming’.
“Estou a imaginar um adolescente, perdido na vida, a ouvir música, e de repente ouve um anúncio ‘join ICE!’ [junta-te ao ICE], damos-te 75 mil euros anuais…não queria que a minha música estivesse associada à plataforma dessa maneira”, referiu.
O ICE tem conduzido operações anti-imigração violentas em várias cidades nos Estados Unidos, nomeadamente em Minneapolis, onde agentes daquela polícia mataram a tiro dois cidadãos norte-americanos no início deste ano.
A juntar a tudo isto há ainda as músicas criadas por Inteligência Artificial (IA).
“O Spotify não quer perder a oportunidade de estar dentro deste jogo e assinou contrato com grandes editoras para fazer parte deste negócio milionário. É curioso porque o Spotify retroalimenta-se, porque tem direitos de autor nesta música de IA e se tem muitos ‘plays’ acabam por pagar-se a eles mesmos com estes direitos. É uma coisa muito perversa”, defendeu.
Salvador Sobral alerta que o consumo de música gerada por IA “já está a acontecer no dia-a-dia”, sem que as pessoas se apercebam.
“Se ouvirmos uma ‘playlist’ de descobertas semanais há uma grande probabilidade de ouvirmos música feita com IA, sem sermos avisados de nada. É um ato de resistência nosso, enquanto artistas, não querermos fazer parte desta tirania digital das ‘playlists’ e da música feita com IA”, afirmou.
Pedir à plataforma que retirasse os álbuns que gravou em nome próprio “foi fácil” no caso de “Excuse Me”, o primeiro que editou, por ser o dono do ‘master’.
Já retirar os outros, editados no âmbito de um contrato de licenciamento com uma editora discográfica, acabou por dar mais trabalho, mas desde a semana passada que quem quiser ouvir álbuns do músico português terá de recorrer a outras plataformas.
Além dos álbuns que editou a solo, Salvador Sobral tem também colaborações com outros artistas, que continuam disponíveis no Spotify, mas conseguiu que a irmã, Luísa Sobral, retirasse “Amar pelos dois”, tema com o qual Portugal venceu o Festival Eurovisão da Canção em 2017.
“Ainda há várias versões disponíveis, mas não a versão ‘single’. Gostava que não houvesse nenhuma, mas não posso controlar os outros contratos e as colaborações que fiz. Não posso obrigar as pessoas a tirar a música”, contou.
Quem quiser ouvir ‘online’ as criações de Salvador Sobral a solo pode recorrer a outros serviços de ‘streaming’, nomeadamente a Qobuz, “a única plataforma ética e justa” que o músico encontrou.
“É aí que está a minha música. Também está na Apple Music, no Youtube, plataformas que não são isentas de culpabilidade, mas tantas coisas ao mesmo tempo, todos estes fatores, não há outra que os reúna todos. E o Spotify é o que pior paga”, referiu.
Para Salvador Sobral aquela plataforma é “o primeiro inimigo a abater” e para isso, “gostava que mais gente se juntasse ao boicote”.
Em Portugal tem sentido “bastante empatia e compreensão” por parte de outros artistas, mas também “muito medo”, algo que considera “perfeitamente legítimo”.
“Há muitos artistas e colegas que me apoiam, mas que ainda não se sentem confiantes para tirar a música. Têm bastantes reservas e compreendo perfeitamente, é difícil”, admitiu.
Em Espanha, onde vive atualmente, mais especificamente na Catalunha, juntou-se ao movimento “Boicot a Spotify”, da qual fazem parte mais de 70 artistas espanhóis, que no final de janeiro anunciaram a retirada da sua música daquela plataforma.
“Tenho recebido mensagens de pessoas, ouvintes meus, a dizer ‘passei para o Qobuz’, e isso deixa-me feliz. Suponho que não faça mossa ao Spotify [a minha saída], mas não poderia viver comigo mesmo com a música naquela plataforma”, afirmou.
Nascido em Lisboa em 1989, Salvador Sobral editou o álbum de estreia, “Excuse me”, em 2016. Em nome próprio, editou também os álbuns “Paris, Lisboa” (2019), “BPM” (2021) e Timbre (2023), e o EP “Sal” (2022), aos quais junta projetos nos quais participou com outros músicos, nomeadamente Alexander Search, Alma Nuestra, Noko Woi, que divide com Leonardo Aldrey, Sílvia Pérez Cruz e First Breath After Coma.






