Manuela Pereira é uma ‘ghost writer’. Para os mais desatentos, vai soar algo estranho mas talvez a expressão ‘escritora fantasma’ permita uma leitura mais clara de uma profissão invulgar em Portugal mas em crescimento. A autora ‘vive’ com as palavras durante meses para corresponder exatamente ao pedido por quem idealizou o livro, dando corpo e expressão a uma obra que nunca será sua. Não são muitos os que escolheram esta profissão, a tempo inteiro, em Portugal, o que torna o exemplo da Manuela uma história que faz sentido partilhar. A celebração recente (5 de maio) do Dia Mundial da Língua Portuguesa fez-nos querer falar com alguém que vive as palavras como uma extensão do seu próprio ser, ainda que neste caso sempre na sombra.
O que é um ‘ghost writer’?
“Uma escritora fantasma, ou ‘ghost writer’, é um termo que até gosto particularmente porque é universal, embora muitas pessoas fiquem sem saber o que é. Já tive situações de pessoas que me disseram não saber sequer que existia. O ‘ghost’ é alguém que escreve mas não assina os textos, os livros e o material escrito que produz. Por vezes é confuso entender para quem está de fora mas o processo acaba por ser extraordinariamente simples: existe alguém que tem uma ideia, uma ideia delineada para escrever um livro mas não tem tempo – e todos sabemos que a escrita exige muito tempo – ou não sabe como fazer.”
O nascimento de uma obra consome muito tempo?
“Passo entre 8 e 10 horas a escrever diariamente, a escrita exige muito tempo. Assim ou as pessoas não têm tempo para desenvolver a obra ou efetivamente têm a ideia mas depois não sabem, não têm a técnica, destreza e a dinâmica de conseguir colocar no papel as ideias de forma coerente. Todos sabemos que escrever um livro exige não só a criatividade mas também a técnica que a história e narrativa pedem para tudo flua e tenha sentido para o leitor.”
“Um ‘ghost writer’ é alguém invisível que faz este trabalho de construção da narrativa para alguém que não tem tempo ou não sabe como fazer. O ‘ghost’ pega em todas essas ideias, as informações, e vai organizá-las com a ajuda do proprietário da ideia. O ghost não escreve o livro sozinho, o autor não lhe diz que quer uma história e o ghost desenvolve conforme lhe apetece. O autor acompanha sempre, a par e passo, aquilo que o ghost está a escrever para que a história fique à imagem efetivamente do que o autor tinha projetado. O ghost é a mão que escreve mas uma mão orientada por quem contratou para escrever.”
“Portanto quando alguém contrata um ghost, tem de saber que um ghost não faz o que bem lhe apetece. O ghost segue uma linha orientadora e não pode fugir. Se prejudica o trabalho? Diria que sim. Quando a nossa criatividade não está assim tão solta ou cheia de liberdade, por vezes torna-se difícil de gerir, não podemos colocar na história parte de nós, temos sempre de estar na pele do autor. Agora, com recurso à experiência, à nossa capacidade descritiva podemos dar a volta à história para a conseguirmos edificar.”
Como se sente quando se dedica a escrever a obra dos outros?
“O maior problema do ghost é o desapego. Eu não consigo escrever nenhum tipo de obra em menos de meio ano. Isso significa que vamo-nos habituando à obra, criamos laços emocionais com as personagens, habituamo-nos a viver com a personagem, criar ansiedade. Temos de gerir essa personagem que já vive em nós que, no fim, quando entregamos a obra, não a vamos assinar. É como uma barriga de aluguer, há um laço que tem de ser quebrado. Depois vejo o feed back a ser vendida, é uma gestão emocional que deixa algum vazio.”
“No fundo, o trabalho é muito simples: alguém pede para escrever uma história, contos, produção para blogs ou sites. Mas o mais tenho são biografias, muitas pessoas que querem deixar o seu legado escrito, seja no âmbito familiar seja para colocar no mercado. Tenho tido mais homens do que mulheres a pedir este trabalho. Não consigo justificar a razão. Já escrevi para pessoas anónimas e outras nem tanto: algumas figuras conhecidas da sociedade portuguesa. A atriz Lídia Franco, a cantora Rebeca. O antigo internacional do futsal e do Benfica, o guarda-redes Bebé. Mas normalmente são pessoas anónimas, pessoas comuns mas que têm enorme vontade de deixar narrado o que passaram.”
“Se queremos que nos ouçam, a melhor forma é ler. Deixar escrito o que queremos partilhar é a melhor forma de nos ouvir. Pode haver uma má interpretação mas quando existe uma grande capacidade de escrita as pessoas não nos interpretam mal. Querem sobretudo que a vida que tiveram, o legado que deixam, tenha feito sentido e inspirar pessoas que, nas mesmas circunstâncias, podem perder o norte. Muitas das histórias são experiências complicadas, doenças que foram vencidas, acidentes que mudaram a perspetiva de vida, pessoas que perderam tudo. E é muito curioso ver como essas histórias de vida não servem só para curar fantasmas mas uma âncora para quem as encontra e as sabe ler.”
E que história gostaria de contar um dia?
“Já tive situações em que histórias reais foram transformadas em romances ficcionados, com muitas alterações mas cujo alicerce era uma história real. A vida de todos nós dá uma história, cada um de nós tem material suficiente para uma história fabulosa, com outro fim, outros personagens, que nos ajudam a desconstruir determinadas situações. Todas as pessoas têm alguns momentos nas suas vidas extremamente inspiradores, cheio de esperança e com uma mensagem colossal que nos faz refletir realmente sobre o que andamos aqui a fazer e qual é a nossa missão de vida. E, por vezes, esses momentos inspiradores dariam uma história.”
Em celebração do recente Dia Mundial da Língua Portuguesa, desafio a que escolha uma palavra do dicionário que mais sentido faz…
Se escolhesse uma palavra do dicionário, escolheria alma. Nós somos alma e tudo o que fazemos para que haja sentido nos outros tem de ter alma. Tudo o que temos de fazer é para ser feito com alma. Não é à toa que alguém escreveu: ‘O livro não muda o mundo, o livro muda as pessoas e as pessoas mudam o mundo’. O livro não mexe com ninguém de outra forma que não pela alma.
E pretende deixar de ser ‘fantasma’?
“Tenho uma obra minha, que já comecei, mas devido à limitação do tempo, ainda tenho o desejo de terminar a obra. Curiosamente, nasceu pelo título, que posso dizer porque não vai colar. Chama-se ‘Esperança, reencontro com o destino’ e este livro já comecei há meses e está a ir muito lentamente no seu crescimento. Tenho a convicção de que vou acabar este ano mas não prometo. Estou a sentir muita falta de assinar uma obra minha, poder chegar aos meus leitores, às minhas pessoas, para quem escrevo ou de quem penso quando tenho um livro na mão. Gostava muito de escrever a minha história, há um momento da minha vida que gostava de passar para o papel. Sei que um dia vai acontecer. Sobre quem gostava de poder escrever, eu gostava de escrever essa parte da minha vida.”
E existem muitos ‘escritores fantasmas’ em Portugal?
“Sei que existem vários escritores fantasmas em Portugal mas é muito difícil encontrar. Não se revelam porque não fazem desta atividade a tempo inteiro. Devo ser das únicas que o faz a tempo inteiro e exponho-me como escritora fantasma como profissão. Muitos não assumem porque têm uma profissão central nas suas vidas. Mas que existem muitas pessoas com vontade de fazer esse trabalho – recebo mensagens de pessoas qu querem saber como se faz. Há muita gente que quer escrever e deduzo que é um mercado em crescimento. Esta profissão, lá fora, é muito reconhecida.”













