Há uma pergunta simples que faço a quem gere uma empresa: se amanhã os sistemas parassem todos, quanto tempo demorava a voltar a faturar? A maior parte hesita. No Barómetro HeraPrime 2026, que ouviu 57 empresas até 250 pessoas com atividade em Portugal entre julho e setembro, três em cada dez responderam que não sabem.
Não é falta de investimento em tecnologia. É o contrário. Entre as empresas inquiridas, 77% usam um software de gestão e 68% já recorrem à inteligência artificial, quase sempre de forma pontual. A IA é a prioridade de investimento mais escolhida para os próximos doze meses, apontada por 60%. A digitalização de base está feita. O que não acompanhou foi a proteção.
O número que mais me preocupa é este: 76% das empresas que colocam a IA no topo das prioridades não incluem a cibersegurança nessa lista. Estão a acelerar e a tirar o cinto ao mesmo tempo. Só 35% usam autenticação multifator. Apenas 12% têm um plano de continuidade documentado e testado, e 44% não têm plano nenhum. No índice de maturidade que construímos a partir das respostas, a componente digital tem em média 56 pontos em 100 e a de resiliência 39.
Há uma parte deste problema que não custa dinheiro. Entre as empresas que usam Microsoft 365, Google Workspace ou uma plataforma semelhante, 56% não assinalam a autenticação multifator. Essa proteção vem incluída na licença que já pagam. Está lá, desligada. Ligá-la é uma decisão de uma tarde, não um projeto.
As microempresas estão mais expostas e por razões diferentes. Nas empresas até dez pessoas, o obstáculo mais referido ao investimento em tecnologia é a falta de tempo, apontada por 58%, e só 8% consideram a cibersegurança uma prioridade. Nas empresas de 11 a 250 pessoas, o primeiro travão é o custo, para 52%. Quem gere uma empresa pequena não precisa de mais um alerta sobre ameaças. Precisa de saber por onde começar com o tempo que tem.
A minha sugestão é desconfortável de tão pequena. Não comece por um programa de cibersegurança. Comece por um processo: a faturação, os vencimentos, a encomenda ao fornecedor principal. Pergunte quem o faz, em que sistema, de que depende e quanto tempo demorava a repô-lo se falhasse. Escreva a resposta. Depois teste: recupere uma cópia de segurança a sério, num ambiente à parte, e meça o tempo. A maior parte das empresas nunca o fez. No nosso estudo, 88% fazem cópias de segurança, mas só 12% sabem, por teste, que conseguem voltar a partir delas.
O segundo passo é ligar o que já está pago. Autenticação multifator em todas as contas de email e nas plataformas de gestão. Não é a proteção perfeita. É a que mais ataques trava por euro investido, e o euro já foi investido.
O terceiro é tratar a inteligência artificial como qualquer outra ferramenta que mexe com dados da empresa: saber que informação entra nela, quem a usa e para quê. 44% das empresas inquiridas dizem não saber o que a IA pode fazer pelo negócio. É uma boa razão para experimentar, com regras, e não para adiar.
Nada disto exige um grande orçamento. Exige que a proteção entre na mesma conversa em que se decide o próximo investimento em tecnologia, em vez de ficar para depois. As empresas portuguesas fizeram a parte mais difícil, que foi digitalizar-se. Falta a parte mais barata: saber quanto tempo demoram a voltar, e garantir que a resposta é um número, não um encolher de ombros.
O relatório completo, com o índice de maturidade em quatro eixos e três recomendações práticas, está disponível em heraprime.com/barometro2026.
Paulo Lobo é diretor comercial da HeraPrime. O Barómetro HeraPrime 2026 é um inquérito online a 57 empresas com atividade em Portugal, de participação voluntária, realizado entre julho e setembro de 2026; os resultados descrevem as empresas inquiridas e não o conjunto das empresas portuguesas.





