O jornal francês ‘Le Monde’ escreveu um artigo intitulado «o milagre português em suspenso face ao coronavírus», destacando a cidade de Ovar, ao sublinhar a batalha contra a doença viral e o final feliz, depois de o município ter conseguido sair do cerco sanitário e estabilizar a curva da epidemia.
A publicação fez um resumo dos acontecimentos, referindo que a 17 de Março, o presidente da Câmara Municipal de Ovar, Salvador Malheiro, foi contactado pelas autoridades de saúde, que lhe davam conta da situação complicada que o município estava a atravessar, citando o próprio responsável.
«Já tinham sido identificados 30 casos da Covid-19, sete deles correspondiam a funcionários do Centro de Saúde. Disseram-me que a este ritmo, 80% da população corria risco de infecção e mais de mil pessoas podiam morrer», disse Salvador Malheiro.
Nessa altura foi imediatamente colocado um cerco sanitário em Ovar, «a única localidade em Portugal continental onde a medida foi implementada», escreve o ‘Le Monde’, que volta a citar Malheiro: «Foi o desafio da nossa vida. Comprámos os nossos próprios materiais, máscaras, testes. Não podia ficar sentado, sem fazer nada», refere o responsável.
O jornal destaca ainda que a pousada de juventude em Ovar serviu de espaço de isolamento de pacientes que não tinham condições para o fazer em casa, e o ginásio foi transformado num hospital complementar.
«O cerco sanitário na cidade foi levantado a 17 de Abril. Cinco dias depois, Ovar recebeu a visita do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do Primeiro-Ministro, António Costa, e dos ministros da administração interna e da saúde», revela o artigo.
Para concluir o exemplo dado pela cidade nortenha, pode ler-se: «Ovar tornou-se no símbolo de um Portugal que lutou contra a Covid-19 com mecanismos limitados, mas que, com a sua seriedade e persistência, obteve resultados que o colocam entre os melhores da Europa».
Falando em termos gerais, a publicação questiona-se: «Qual é o segredo deste ‘milagre’ português? Cada uma das pessoas com quem falámos tinha a sua própria teoria», escreve o autor do artigo, referindo que há quem diga que teve que ver com a vacina da BCG, outros consideram que se deve à vitamina D produzida pelo sol, ou à alimentação rica em peixe e ainda à baixa taxa de idosos em lares.
O ‘Le Monde’ destaca também o facto de o vírus ter afectado a região «duas semanas mais tarde do que em Itália e na vizinha Espanha, o que permitiu ao governo aplicar à letra as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS): testar, testar, testar». «Primeiro os doentes sintomáticos e as suas famílias, depois os grupos de risco e, por fim, os profissionais de saúde, para quebrar a cadeia de transmissão».
Recorde-se que esta já não é a primeira vez que a resposta à Covid-19 do nosso país é elogiada pela imprensa internacional. Outras publicações, como é o caso da da CNN, do El país, do Der Spiegel, do Financial Times e mais recentemente, do The Sunday Times, já sublinharam a capacidade de controlo da epidemia, em Portugal.
«Terá o milagre português sido apenas uma miragem?»
Apesar do artigo repleto de elogios a Portugal e à forma como o país geriu a crise de saúde pública, o ‘Le Monde’ deixa a ideia de que o sentimento que fica é agora de «um tsunami económico temido por todos».
O jornal francês dá a conhecer a história de um casal português, Carlos Lopes e Filipa Ribeiro, que «se encontram no meio da tempestade». Instalados há seis meses no «apartamento dos seus sonhos» em Odivelas, «podem ter de se mudar em breve», pode ler-se no artigo.
Ele, tem 41 anos de idade, é empregado de mesa num café há 20 anos. Ela, tem 37 anos, é empregada de limpeza e porteira de uma pequena empresa. Têm três filhos, uma renda de 800 euros, e no total têm um rendimento combinado de 1.500 euros. «A classe média portuguesa», descreve o jornal.
Na reportagem contam que «tudo se desmoronou da noite para o dia», depois de o patrão de Carlos lhe ter dito para não vir mais trabalhar, porque já não lhe pode pagar o salário, ficando em ‘lay-off’. O caso de Filipa, «é ainda pior», é trabalhadora independente, «não tem direito a nada porque trabalha há menos de um ano», explica o artigo.
O casal teve de pedir dinheiro emprestado para pagar as suas contas. «As rendas podem ser adiadas para Setembro, mas terão de ser pagas um dia», afirma Carlos Lopes. «É como um dominó, o primeiro cai e depois todos os outros se seguem», escreve o ‘Le Monde’, contando que o casal tem recorrido a ajuda alimentar «pela primeira vez na sua vida», considerando que esta crise «nada tem a ver com a de 2010», porque «naquela altura havia trabalho. Parece um pesadelo», segundo Carlos Lopes.
«As necessidades estão a aumentar, as doações estão a diminuir», pode ler-se no artigo, que dá lo exemplo do Centro Paroquial da Ramada, que recebeu 70 novos pedidos de famílias necessitadas, desde o fim do confinamento. «De dia para dia, as previsões económicas são cada vez mais sombrias: o Banco de Portugal espera uma recessão de 9,5% a 13,5% à medida que o país sai da crise». Por fim o artigo deixa a seguinte questão: «Terá o milagre português sido apenas uma miragem?».













