Apostar em bioprodutos e biomateriais renováveis não é apenas uma questão ambiental – é uma escolha de futuro, assente em inovação, soberania e competitividade. Portugal, com quase 40% do seu território coberto por floresta e uma indústria de pasta e papel altamente desenvolvida, tem a oportunidade de assumir um papel de liderança nesta transição.
Com décadas de investigação e desenvolvimento, conhecimento acumulado sobre o eucalipto globulus – espécie “rainha” do modelo industrial português – e um tecido empresarial inovador, o país está a transformar antigas fábricas em modernas biorrefinarias, explorando o potencial da floresta como recurso estratégico. Além disso, e através do trabalho de organismos como o RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel, novos bioprodutos capazes de substituir soluções de origem em combustíveis fósseis estão a vingar.
Mas o que distingue Portugal neste novo paradigma europeu? Quais os bioprodutos já a chegar ao mercado? E como se combate a persistência de mitos sobre o eucalipto à luz da ciência? Nesta entrevista, Carlos Pascoal Neto, director-geral do Instituto RAIZ, aprofunda estas questões e muitas outras, sobre um sector que pode eventualmente ser a espinha dorsal da bioeconomia nacional.
A União Europeia tem vindo a atribuir uma relevância crescente à bioeconomia, bioprodutos e biomateriais, no quadro de um cenário de autonomia estratégica e reindustrialização. Como vê o posicionamento de Portugal neste novo modelo de desenvolvimento?
Portugal, com 39 % do seu território coberto por floresta, encontra-se especialmente bem posicionado para liderar uma bioeconomia europeia de base florestal assente na indústria de pasta e papel e na floresta que a alimenta, contribuindo não só para a competitividade da Europa como também para diminuir a dependência global dos recursos fósseis e mitigar as alterações climáticas. Dispõe de condições únicas de solo e clima, ideais para produzir uma matéria-prima de excelência mundial, o eucalipto globulus, cujas propriedades o colocam na linha da frente do desenvolvimento de uma nova geração de bioprodutos capazes de substituir soluções de origem petroquímica.
Portugal é, hoje, um dos países com maior conhecimento acumulado sobre esta espécie de eucalipto (que ocupa cerca de 10% do território nacional), fruto de décadas de I&D desenvolvida nas nossas universidades e em centros de investigação e inovação, públicos e privados, reconhecidos internacionalmente, como é o caso do RAIZ – Instituto de Investigação da Floresta e Papel. Este é um dinamismo que tem sido fomentado pelo cluster nacional da Pasta e do Papel, com empresas fortemente inovadoras e com unidades industriais que estão a evoluir para biorrefinarias, diversificando o seu portefólio de bioprodutos. Para consolidar esta liderança é crucial garantir disponibilidade suficiente de matéria-prima nacional, assumir a floresta como sector estratégico e implementar políticas públicas coerentes, apoiadas por formação especializada e uma visão integrada e científica da gestão florestal.
Entre tantas espécies florestais, o que torna o eucalipto globulus uma matéria-prima tão relevante neste contexto da bioeconomia e das novas aplicações industriais baseadas em recursos renováveis?
A composição e estrutura peculiares da madeira de eucalipto globulus e das suas fibras permitem não apenas uma grande eficiência industrial, com um consumo de madeira (metros cúbicos por tonelada de pasta) até 40% inferior face a outras espécies e menor consumo de químicos no processo industrial (até 20%), como também uma qualidade ímpar no produto final. Igualmente importante num contexto em que procuramos incrementar a circularidade do uso dos recursos, as suas fibras são altamente recicláveis, permitindo até mais seis ciclos face a outras espécies.
Estas são características que a indústria portuguesa bem conhece e tem vindo a desenvolver. Foi precisamente no nosso país que, há 70 anos, se produziu – pela primeira vez no mundo – pasta branqueada de eucalipto pelo processo kraft (o mais utilizado nesta indústria) e os primeiros papéis feitos integralmente a partir desta fibra. Havia, na altura, muito cepticismo sobre o potencial desta matéria-prima nesta indústria. Hoje, Portugal é líder europeu na produção de papéis de escritório, utilizando fibra de eucalipto globulus. Aliás, à escala mundial, a madeira de eucalipto (diferentes espécies) é a matéria-prima de referência da indústria de pasta e papel.
Explorando a qualidade superior da fibra do eucalipto globulus, e sempre com a mesma aposta em I&D, estão agora a surgir, de Portugal para o mercado mundial, novos papéis e artigos de celulose moldada para embalagem. Um novo pioneirismo mundial que vem dar resposta à necessidade de substituição das embalagens de plástico fóssil de uso único no sector alimentar. A partir do eucalipto globulus estão, igualmente, a chegar ao mercado produtos tissue funcionais, inovadores e diferenciadores para aplicações higiénico-sanitárias.
Que bioprodutos e soluções estão a ser desenvolvidos a partir desta espécie?
Entre os novos bioprodutos, destacam-se os materiais de embalagem, mas também as fibras têxteis, os biocombustíveis e combustíveis sintéticos derivados de sobrantes da exploração florestal ou do processo industrial. Além disso, surgem os biocompósitos para a indústria de injecção ou termoformação, os biomateriais celulósicos para substituição de produtos de pele de origem animal ou pele sintética de origem fóssil, os compostos bioquímicos para aplicações na área da saúde, cosmética e nutracêutica, e os biofertilizantes para a floresta. Este é um trabalho de inovação desenvolvido com a indústria, constituindo uma alavanca essencial na diversificação das oportunidades que são colocadas pela bioeconomia de base florestal.
Falou em “biorrefinarias”. O que significa este conceito e em que ponto estamos em Portugal?
Este conceito representa uma abordagem holística para a utilização inteligente da madeira e biomassa de base florestal. As fábricas de pasta e papel estão a evoluir para verdadeiras biorrefinarias, onde a madeira e biomassa florestal, bem como os subprodutos industriais e florestais, são convertidos (através de processos energética e ambientalmente eficientes) em fibras celulósicas, materiais papeleiros, bioenergia, biomateriais, bioquímicos, biocombustíveis e combustíveis sintéticos alternativos ou análogos aos de origem petroquímica, tornando este sector um pilar da moderna bioeconomia circular. De onde antes saíam maioritariamente produtos papeleiros, surgem agora soluções diversificadas que promovem a transição para uma economia mais sustentável, baseada em recursos renováveis e processos eco-eficientes.
Do laboratório à industrialização – este percurso nem sempre tem sido eficaz em Portugal. Como está a decorrer este processo de transferência de tecnologia com o cluster da Pasta & Papel?
O processo de transferência de tecnologia é parte integrante da identidade do cluster da pasta e papel, com uma proximidade clara entre processos de I&D e industrialização desse conhecimento. A génese do Instituto RAIZ, que resulta de uma iniciativa da The Navigator Company, em parceria com as universidades de Aveiro, Coimbra e Lisboa, é um exemplo claro desta consciência sobre a importância da proximidade da ciência e da indústria. Esta indústria é, de facto, um caso exemplar de cooperação.
A título de exemplo, refiro o projeto Inpactus, o maior investimento de sempre em I&D para a bioeconomia de base florestal em Portugal, num total de 14,6 milhões de euros. Desta iniciativa, implementada entre 2018 e 2022, envolvendo a Navigator, o RAIZ e várias universidades nacionais, resultaram: 37 patentes, 66 protótipos, 114 provas conceito e quatro produtos para o mercado.
A agenda PRR From Fossil to Forest, o projecto mais recente em curso, liderada também pela Navigator e a área de I&D, visa criar produtos de embalagem sustentável, como a gama de papéis e celulose moldada gKRAFT, já no mercado, distinguida com o Prémio Nacional de Inovação.
O RAIZ vai celebrar 30 anos em 2026. Que marcos considera mais relevantes neste percurso e como antecipa o papel do instituto na próxima década, num contexto de transformação acelerada da floresta e da bioindústria?
Sem falsas modéstias, temos hoje uma floresta nacional de eucalipto mais produtiva e resiliente, em que o contributo do RAIZ, enquanto gerador e promotor de conhecimento científico, foi determinante. Temos, igualmente, uma indústria inovadora, que utiliza de forma eficiente os recursos naturais, é líder nos mercados internacionais e tem vindo a diversificar o seu portefólio de produtos e a implementar gradualmente o conceito de biorrefinaria.
Também aqui, o RAIZ, em conjunto com as universidades parceiras, tem tido um papel de extrema relevância na promoção da competitividade da indústria nacional. Destaco o portefólio de 47 patentes registadas nos últimos oito anos, algumas das quais já industrializadas, e outras de suporte a novos processos e bioprodutos, em fase de análise de viabilidade técnico-económica.
Na próxima década, vejo o RAIZ a reforçar o seu papel na promoção de uma melhor floresta, desenvolvendo e transferindo cada vez mais este conhecimento à sociedade, bem como a desenvolver novos bioprodutos e soluções sustentáveis, no contexto do conceito de biorrefinaria de base florestal, que respondam aos desafios climáticos e da sustentabilidade global, liderando uma transformação profunda na forma como os recursos florestais são utilizados.
Quais têm sido os caminhos do trabalho científico na área florestal e como têm revertido para o terreno?
O nosso trabalho científico na área florestal tem seguido caminhos muito concretos, com impacto directo no terreno. Destaco, por exemplo, a zonagem edafoclimática (caracterização de solo e clima), que permitiu mapear mais de 200 mil hectares em Portugal e definir práticas de gestão silvícola adaptadas às condições locais de solo e clima.
Temos promovido investigação avançada em melhoramento genético (via clonal e seminal, por selecção natural), fertilização florestal optimizada, controlo integrado de pragas e gestão sustentável do solo e da água na floresta de produção de eucalipto. O nosso programa de melhoramento genético por via clonal permitiu, nas últimas décadas, desenvolver plantas que produzem 40% mais madeira do que a floresta de eucalipto seminal de há 40 anos. Na luta contra pragas e doenças da floresta, as soluções biológicas desenvolvidas pelo RAIZ, permitiram controlar pragas como o gorgulho (gonipterus), evitando impactos dramáticos na perda de produtividade florestal.
A silvicultura está a transformar-se com o poder da inovação e da partilha de conhecimento que a indústria promove com a grande comunidade de produtores florestais em Portugal. Toda esta experiência e conhecimento acumulados de 30 anos na I&D florestal, cada vez mais importante num contexto de alterações climáticas, está a ser transferida para a sociedade, através dos nossos programas de apoio ao fomento florestal, promovendo florestas mais produtivas, saudáveis e resilientes.
Vindo do campo da ciência, como encara as percepções que subsistem relativamente ao eucalipto, tendo em conta os recursos hídricos, incêndios, solos, etc?
Encaro com preocupação as percepções erradas ainda muito presentes na sociedade portuguesa. A ciência demonstra que o eucalipto, quando gerido de forma activa e sustentável, é uma espécie eficiente no uso de água e solos; demonstra, igualmente, que essa gestão reduz significativamente o risco de incêndios, como o comprovam os números e estudos independentes que nos dizem que o risco de incêndio não depende da espécie, mas sim da ausência de gestão activa e que as áreas da indústria são aquelas que ardem menos, fruto dessas acções de gestão. É essencial continuar a comunicar claramente estes factos, combatendo os mitos e promovendo uma visão informada, objectiva e baseada em evidências sobre os méritos da gestão florestal sustentável.
O que falta fazer para mudar “o estado actual das coisas”?
É crucial apostar numa estratégia nacional robusta de comunicação e educação, promover a literacia florestal, informando claramente sobre os benefícios da gestão florestal sustentável e o papel fundamental das florestas de produção e, em particular, do eucalipto, na bioeconomia, na sociedade e no ambiente.
Precisamos de uma visão estratégica nacional para a floresta nacional, de um compromisso político sólido, sustentado pela ciência e pela participação activa da comunidade científica, das empresas e da sociedade civil, esclarecendo dúvidas e desmontando preconceitos que ainda persistem sobre esta importante fileira florestal portuguesa.
Este artigo faz parte da edição de Julho (n.º 232) da Executive Digest.














