Cursos mais curtos e customizados, alunos mais velhos, a internacionalização do ensino em Portugal e uma maior procura para assuntos como a Inteligência Artificial e a cibersegurança. Estas foram as principais tendências na área das prós-graduações e MBA’s discutidas no mais recente pequeno-almoço promovido pela Executive Digest e que contou com a presença de José Filipe Rafael da Católica Lisbon Business School; Mafalda Pescaria do The Lisbon MBA; Paulo Martins do ISCTE; Maria de Castro da AESE; Ricardo Lopes do ISEG; Susana Ferreira da Nova SBE; Joana Cruz da Porto Business School; Tiago Guerra do Técnico + do Instituto Superior Técnico.
«Um bom ano para o negócio», foi assim que a maioria dos presentes adjetivou 2024, os objetivos foram atingidos, acrescentou a maioria dos presentes. Já para 2025 a expetativa é a mesma: continuar a crescer. Contudo, na reunião, ficou ressalvado que esta é uma atividade que funciona em contraciclo, «sempre que a economia cresce há mais rotação de pessoas nas empresas e há menos tempo para se fazer formação, sobretudo as mais longas e estruturantes». Tal já começou a ser sentido no segundo semestre de 2024, mantendo-se a mesma perspetiva para este ano.
Por outro lado, os especialistas presentes no encontro acreditam que as formações mais curtas irão ter ainda mais procura, «para suprimir as necessidades pontuais das pessoas se atualizaram nos tópicos mais recentes», disseram. Concordaram que na procura pela formação são cada vez mais os particulares a pesquisar: «no ano passado, sentimos um crescimento muito grande na procura de formação do próprio candidato em detrimento dos departamentos de recursos humanos das empresas», acrescentou um dos participantes. E para tal tem relevância o facto de muitos dos candidatos estarem em carreiras corporativa e quando chegam a uma certa idade – perto dos 50 anos -, veem o MBA como um último reduto para continuarem a progredir internamente face aos seus pares, e também, como alternativa, a lançarem-se com o seu próprio negócio. «Nas conversas que existem entre as escolas e os candidatos, percebe-se que muitos não estão contentes na empresa onde trabalham e com a sensação que já não podem evoluir mais». Isso leva a que muitos se desapaixonam-se e pela cultura corporativa, fazendo a que, atualmente, o perfil dos alunos esteja mais muito mais sénior do que anteriormente. O facto de muitos candidatos terem como objetivo de tornarem-se trabalhadores independentes e tornarem-se consultores, sublinha um distanciamento pela cultura corporativa. «Os alunos mais seniores procuram MBA´s com skills de negócio que os permita tornarem-se relevantes e autopromoverem-se». À ideia que os perfis mais seniores nos alunos os torna mais distantes, os participantes no debate contrapuseram: «E estamos a sentir o inverso, são pessoas com carreiras bastante sólidas e com muitas competências». Todavia, houve quem recordasse que não se deixou de ter alunos mais novos, passou sim a existir maior disparidade na idade dos candidatos: pessoas mais jovens, mas ao mesmo tempo o crescimento de mais alunos em idade mais avançada. «Nos cursos executivos existem dois perfis, os que vêm das empresas com sponsorship das mesmas e os que veem de áreas mais técnicas e precisam de um aporte de negócio e de liderança. Ao mesmo tempo há quem olha para a carreira com objetivos futuros: “muitos indicam que dentro de três a cinco que se veem a fazer o seu percurso independente”, essa é tida como uma das razões para que as pessoas mais seniores que estão a fazer a upgrade. Além de que permite, com a frequência nas formações, integrar uma “network poderosa”, como foi sublinhado no encontro.
RECONHECIMENTO PROFISSIONAL
As formações mais curtas são também das grandes tendências no ensino. «As empresas têm os seus quadros muito pressionados em termos de tempo e de volume de trabalho e procuram fazer formações um bocado mais cirúrgicas, muitas vezes, muito direcionadas», partilharam os participantes no pequeno-almoço. Acrescentando que a isso acrescem agora modelos de ensino mais adaptativos, com ensino híbrido, tanto nos MBA como nas pós-graduações. «Na formação aberta, há a necessidade de termos sempre novidades em catálogo, e de estarmos sempre a experimentar, com quatro cinco novos produtos para testar por anos, o que provoca, então, a necessidade de irmos ao mercado em buscar formadores, professores, gente muito ligada às empresas. Portanto, existe uma competente académica, mas também, e cada vez mais, uma competente de experiência profissional entre os nossos professores. E isso é uma mais-valia e é reconhecido”. Isso leva a outra novidade, segundo o que foi partilhado: as pequenas e médias empresas (PME) estão à procura de formação, sobretudo de formação customizada, notando uma apetência cada vez maior das PME. Já em termos de conteúdos há áreas que cimentaram a sua importância. muito importantes: a Inteligência Artificial e a cibersegurança – que foi apontado como o próximo grande tema para as empresas.
PORTUGAL NA MODA
A finalizar o debate, a internacionalização foi o assunto mais debatido uma vez que está a criar alterações significativas no panorama de ensino. Quer na vinda de estrangeiros para estudarem em Portugal, como na ida de portugueses para o estrangeiro, sobretudo em certas áreas, porque «somos mais baratos e temos qualidade, sobretudo em áreas de nicho como a tecnológica onde não há ninguém a recrutar no estrangeiro por menos de 150, 250 mil euros ao ano», indicou um dos presentes. Sublinhou-se as inúmeras vantagens de Portugal ser um país pequeno o que levam, na sua internacionalização, os alunos a adaptarem, seja pelo conhecimento de várias línguas, seja por entenderem outras culturas. «Há um crescendo de notoriedade internacional do nosso talento e das nossas capacidades».
Por outro lado, há um crescendo nos alunos estrangeiros a escolherem Portugal como destino de ensino «o número de candidaturas internacionais nos mestrados está a duplicar».
«O nosso nível de vida é muito atrativo para estudantes internacionais e as famílias sentem a segurança dos filhos estarem num local muito bem classificado no índice de segurança», foi explicado.
O país continua a consolidar o seu papel como país de chegada de executivos que procuram as escolas portuguesas para vir estudar, «chineses, africanos, norte-americanos, brasileiros, procuram a qualidade do nosso ensino, e acima de tudo, possibilidade de interagir com as nossas empresas, com os nossos empresários, com os nossos decisores». E muitas vezes dirigidos a certos sectores. E isso coloca desafios para uma oferta de ensino híbrida, entre o presencial e o online. «É mais um desafio para o corpo docente, que tem que se adaptar a uma nova realidade».
Este artigo faz parte do Caderno Especial “MBA, pós-graduações & formação de executivos”, publicado na edição de Março (n.º 228) da Executive Digest.










