Responsáveis europeus e empresas do sector espacial estão cada vez mais preocupados com a possibilidade de Elon Musk vir a assumir o controlo de uma faixa sensível do espectro de satélites da União Europeia, utilizada para serviços móveis como comunicações por telemóvel. Em causa está uma decisão considerada estratégica para o futuro da autonomia tecnológica europeia no espaço.
Segundo o Financial Times, a inquietação centra-se na banda dos 2 GHz, atualmente usada na União Europeia para serviços móveis por satélite e explorada por empresas norte-americanas, nomeadamente a Viasat e a EchoStar, cujas licenças expiram em Maio do próximo ano.
O fim das atuais licenças abrirá um novo processo de atribuição de frequências, que deverá atrair o interesse de vários operadores internacionais. Entre os potenciais candidatos estão a Starlink, plataforma de satélites pertencente à SpaceX, grupo controlado por Elon Musk, bem como operadores chineses.
Um responsável do sector, citado no contexto destas preocupações, sublinha a importância da decisão, afirmando que “isto vai determinar quem se torna o líder no espaço [para a Europa]”, uma avaliação partilhada por vários outros responsáveis familiarizados com o dossier.
A discussão surge num momento de debate crescente dentro da União Europeia sobre a forma de reduzir e mitigar a dependência do bloco em relação a fornecedores tecnológicos norte-americanos, sobretudo em áreas consideradas críticas para a segurança e a soberania digital.
O processo decorre num clima de relações tensas entre a Comissão Europeia e Elon Musk. Recentemente, a rede social X, também detida pelo empresário, foi alvo de uma multa aplicada pelas autoridades europeias, o que contribuiu para agravar o ambiente político entre Bruxelas e o proprietário da SpaceX.
Além disso, no início desta semana, a Comissão Europeia alertou Musk para a necessidade de reforçar medidas relacionadas com imagens controversas geradas pelo chatbot de inteligência artificial Grok, aumentando ainda mais a fricção institucional.
As preocupações europeias foram reforçadas por ligações recentes entre a EchoStar e a Starlink. No outono passado, a SpaceX adquiriu licenças de espectro sem fios à EchoStar com o objetivo de reforçar a rede Starlink nos Estados Unidos, um movimento que despertou receios quanto a possíveis estratégias semelhantes no mercado europeu.
Neste contexto, Andrius Kubilius, comissário europeu da Defesa e do Espaço, afirmou ao Financial Times que, após o termo das atuais licenças, “não devemos perder a oportunidade de gerir de forma criteriosa as atribuições da banda dos 2 GHz”.
Kubilius acrescentou que esta faixa de frequências constitui “um facilitador estratégico para as comunicações governamentais espaciais, em particular para serviços direct-to-device”, sublinhando a sua relevância para ligações diretas entre satélites e dispositivos móveis.
Um porta-voz da Comissão Europeia reforçou que a renovação das licenças existentes não é automática e que o objetivo das autoridades europeias passa por encontrar um equilíbrio entre diferentes interesses estratégicos.
“A intenção é garantir um certo grau de continuidade dos serviços atualmente implementados, ao mesmo tempo que se assegura uma utilização futura da banda que seja inovadora, nomeadamente para infraestruturas e serviços de satélite como comunicações seguras, direct-to-device para banda larga e Internet das Coisas, bem como o desenvolvimento de um mercado único competitivo”, afirmou o porta-voz.














