Bill Gates negoceia em segredo com EDP e Governo o reforço das redes elétricas

Encontro decorreu ao meio-dia no hotel Four Seasons, em Madrid, e contou com a presença de executivos da Iberdrola, Redeia e EDP, segundo o ‘El Mundo’

Francisco Laranjeira
Janeiro 20, 2026
16:56

O fundador da Microsoft, Bill Gates, reuniu-se discretamente na passada segunda-feira com representantes das principais empresas de eletricidade de Espanha e Portugal para analisar o estado das redes elétricas da Península Ibérica, num momento em que a tecnológica americana prepara investimentos de cerca de 20 mil milhões de euros em centros de dados na região.

O encontro decorreu ao meio-dia no hotel Four Seasons, em Madrid, e contou com a presença de executivos da Iberdrola, Redeia e EDP, segundo o ‘El Mundo’.

A reunião realizou-se num contexto particularmente sensível, marcado pelo reforço da fiscalização aos centros de dados por parte do Governo espanhol e de Bruxelas, devido ao seu impacto no fornecimento de eletricidade, na pressão sobre as redes e no preço final pago pelos consumidores. O encontro decorreu ao abrigo das regras da Chatham House, que permitem a utilização da informação partilhada sem identificação dos participantes, facilitando um debate aberto sobre matérias consideradas controversas.

De acordo com fontes da indústria citadas pelo ‘El Mundo’, a discussão centrou-se no Pacote de Redes Europeias, a principal iniciativa regulatória da Comissão Europeia para expandir e reforçar as infraestruturas elétricas dos 27 Estados-membros, numa tentativa de eliminar estrangulamentos que já estão a atrasar a implantação de novas indústrias e centros de dados na União Europeia.

A Microsoft aproveitou a reunião para expor as condições de investimento e financiamento consideradas necessárias para mobilizar capital em grandes projetos de reforço da rede elétrica na Península Ibérica, considerados essenciais para viabilizar o vasto plano de centros de processamento de dados que a empresa tem previsto para o território europeu.

A influência sobre o pacote europeu das redes elétricas tornou-se uma prioridade estratégica para as grandes tecnológicas, cujos centros de dados são grandes consumidores de energia e exigem investimentos avultados em infraestruturas de ligação à rede. A própria Microsoft já manifestou reservas em relação à proposta europeia, alertando que atrasos burocráticos na ligação dos seus centros de dados em alguns países poderiam levá-la a desviar investimentos para outras geografias. A empresa planeia mais de 200 centros de dados, entre instalações já construídas e projetos anunciados.

A cimeira foi promovida por organizações de investimento ligadas a Bill Gates, nomeadamente a Breakthrough Energy e a Cleantech for Iberia. Apesar de ter abandonado o conselho de administração da Microsoft em 2020, Gates mantém uma ligação estreita à empresa enquanto acionista e consultor tecnológico. Entre os participantes estiveram líderes políticos, empresariais e investidores, incluindo Hugh Elliott, presidente executivo da Iberdrola Energía Internacional, Miguel Stilwell, CEO da EDP, e Maria da Graça Carvalho, ministra da Energia de Portugal.

A ministra espanhola da Transição Ecológica, Sara Aagesen, tinha presença confirmada, mas cancelou à última hora devido ao acidente ferroviário em Adamuz, na província de Córdoba. A tragédia levou também ao cancelamento de uma reunião entre Bill Gates e o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que estava prevista para essa tarde.

A chegada de grandes centros de dados está a gerar simultaneamente interesse e preocupação em Madrid e em Bruxelas. O Governo espanhol prepara um decreto-lei que obrigará as empresas a prestar contas detalhadas sobre o consumo de energia e água. Já a Comissão Europeia, embora mais favorável ao setor, trabalha em medidas destinadas a evitar bolhas de preços e perturbações no mercado elétrico.

Os Estados Unidos surgem como exemplo dos riscos associados à concentração destas infraestruturas. Relatórios recentes indicam que regiões com forte presença de centros de dados registaram aumentos no preço da eletricidade até 267% em cinco anos. A Microsoft reconheceu esse impacto no mercado norte-americano e comprometeu-se a absorver esses custos, aceitando pagar tarifas suficientemente elevadas para compensar os efeitos diretos e indiretos do consumo energético dos seus centros de dados.

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