Avião de comando nuclear dos EUA faz voo “invulgar” ao largo da Gronelândia

Um avião militar norte-americano, capaz de comunicar diretamente com submarinos equipados com armamento nuclear, foi detetado num voo considerado “invulgar” nas imediações da Gronelândia. A operação, confirmada pela Marinha dos Estados Unidos, envolveu um aparelho E-6B Mercury, utilizado como posto de comando aéreo para forças estratégicas.

Pedro Gonçalves
Agosto 22, 2025
15:11

Um avião militar norte-americano, capaz de comunicar diretamente com submarinos equipados com armamento nuclear, foi detetado num voo considerado “invulgar” nas imediações da Gronelândia. A operação, confirmada pela Marinha dos Estados Unidos, envolveu um aparelho E-6B Mercury, utilizado como posto de comando aéreo para forças estratégicas.

O porta-voz das Forças Submarinas da Marinha, comandante Jason Fischer, declarou à Newsweek que o destacamento do E-6B na Base Espacial de Pituffik, situada no território autónomo da Dinamarca, fazia parte de “operações de rotina” e de exercícios de coordenação com submarinos nucleares no Atlântico e no Pacífico. “As forças estratégicas navais conduzem operações globais em coordenação com comandos combatentes, serviços, aliados e países parceiros, inclusive no Alto Norte”, afirmou Fischer.

O movimento militar surge num momento em que cresce a atividade da Rússia e da China no Árctico. O presidente Donald Trump tem reiterado o interesse estratégico dos EUA na Gronelândia, que classificou como uma questão de “segurança nacional e internacional”.

No início de agosto, Trump revelou que submarinos nucleares norte-americanos estavam posicionados em “regiões adequadas” após declarações provocatórias de Dmitry Medvedev, vice-presidente do Conselho de Segurança da Rússia.

O posicionamento do E-6B Mercury em Pituffik segue operações semelhantes realizadas em julho, quando outro aparelho do mesmo modelo foi visto a operar no Atlântico Norte em conjunto com o submarino de mísseis balísticos USS Maryland.

Segundo a Força Aérea norte-americana, a aeronave assegura comunicações “sobreviventes, fiáveis e duradouras” entre a autoridade máxima de comando e as forças estratégicas. Pertencente à Strategic Communications Wing 1, sediada na Base Aérea de Tinker, em Oklahoma, o E-6B pode transmitir mensagens para submarinos nucleares submersos através de antenas de fio retrátil que chegam a cinco quilómetros de extensão.

O aparelho integra a missão TACAMO (Take Charge and Move Out), assegurando a ligação entre a cadeia de comando e submarinos, mas também desempenha a missão Looking Glass, que permite lançar mísseis balísticos intercontinentais em caso de destruição dos centros de comando terrestres. Em abril de 2023, um E-6B chegou mesmo a simular o disparo de um míssil intercontinental utilizando este sistema.

Dados de monitorização de voo abertos ao público, analisados por um utilizador da rede social X conhecido como @thenewarea51, indicam que a aeronave partiu da Base de Tinker e chegou a Pituffik na segunda-feira, tendo voado dois dias depois durante várias horas sobre o mar do Labrador, a oeste da Gronelândia.

Hans Kristensen, diretor do Nuclear Information Project da Federação de Cientistas Americanos, descreveu o voo como “invulgar”, questionando se se tratava de comunicação direta com submarinos balísticos ou parte de um exercício militar mais vasto.

A mesma fonte independente sublinhou que, embora os E-6B sejam frequentemente rastreados sobre o Pacífico nordeste e o Atlântico noroeste, não existiam registos anteriores de uma deslocação deste tipo à Gronelândia.

A Base Espacial de Pituffik, localizada no norte do mar do Labrador, é considerada fundamental para o sistema de alerta precoce contra mísseis. A instalação opera o radar avançado UEWR (Upgraded Early Warning Radar), que deteta e acompanha lançamentos intercontinentais e de submarinos. O vice-presidente norte-americano JD Vance visitou a base em março passado, sublinhando a sua importância para a defesa do território norte-americano.

A Marinha norte-americana recebeu o primeiro E-6B em 1997, tendo convertido toda a frota para este modelo em 2003. O sucessor, designado E-130J Phoenix II, já se encontra em desenvolvimento e deverá substituir progressivamente a frota atual, que cumpre missões nucleares há mais de três décadas.

O portal especializado The War Zone descreve a função do E-6B em termos sombrios: “A sua principal missão é incrivelmente sombria. Se fosse ativado, poderia facilitar diretamente o fim do mundo. Mas o facto de ter essa capacidade é precisamente o que garante que nunca terá de ser utilizado.”

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