Por Tiago Santos, CEO da Enlitia
O setor energético vive uma mudança profunda, mas a transição para operações autónomas exige maturidade tecnológica, confiança nos dados e uma cultura organizacional que Portugal ainda está a desenvolver.
Durante anos, o setor das renováveis falou de digitalização como se fosse um ponto de chegada, mas a verdadeira transformação começa agora, com a passagem de operações assistidas por tecnologia para uma gestão cada vez mais autónoma dos ativos energéticos. É um tema que gera entusiasmo e receio em igual medida, e talvez por isso seja tão importante discuti-lo com realismo.
Antes de falarmos de autonomia, há uma pergunta incontornável: estará o setor energético português preparado para tirar partido do potencial da inteligência artificial? A resposta, por agora, é simples: ainda não. Apesar do avanço tecnológico, grande parte das empresas continua limitada por processos complexos e compartimentalizados, estruturas rígidas e uma adoção da IA num cenário ainda marcado por uma digitalização incompleta e longe de uma adoção verdadeiramente generalizada da mesma. O setor não tem alternativa, porque a evolução depende cada vez mais destas soluções, mas ainda existe um desfasamento significativo entre o potencial das ferramentas e a forma como são utilizadas.
A verdade é que muitas organizações não conseguem extrair 100% do valor dos modelos que já têm, falta literacia digital, falta desmistificação e falta confiança, e permanece o medo de que a tecnologia elimine funções, quando o seu verdadeiro potencial é libertar tempo para atividades de maior valor acrescentado. A inteligência artificial traz transformação, mas também desconforto e resistência à mudança, uma evolução que avança ao mesmo tempo que desperta receios e hesitações, o que reduz o impacto que estas tecnologias poderiam ter no dia a dia das equipas. Ainda assim, há sinais positivos. A desconfiança está a diminuir à medida que mais empresas começam a adotar estas soluções e percebem o seu valor prático. Ferramentas desenhadas com foco no utilizador, fáceis de interpretar e integradas nos processos operacionais, tornam a IA menos abstrata e mais palpável. Estamos no caminho certo, mas há espaço para progresso.
Autonomia não significa desligar pessoas do processo, significa ampliar a sua capacidade de decisão. Não se trata de imaginar parques eólicos e solares a “funcionarem sozinhos”, mas sim equipas apoiadas por sistemas capazes de antecipar, otimizar e agir com uma precisão e rapidez que nenhum operador humano conseguiria atingir sozinho. É um salto qualitativo, mas não é automático, é uma escolha estratégica. A indústria já ultrapassou a fase dos dashboards descritivos e entrou no domínio das análises preditivas, mas o caminho para a autonomia exige algo mais profundo: dados consistentes e contínuos, modelos de previsão que compreendam o contexto real de cada ativo e mecanismos de decisão capazes de comparar cenários, quantificar riscos e propor ações com lógica operacional.
Por enquanto, tudo termina com validação humana, e amanhã algumas dessas decisões serão executadas automaticamente dentro de limites definidos. A autonomia começa aí, quando o sistema deixa de apenas sugerir. Mas nenhum avanço tecnológico pode ignorar a questão central: quem é responsável por uma decisão automatizada que afeta a produção? Como garantir transparência nos modelos? Que nível de supervisão humana é desejável? Se a autonomia comprometer a confiança, falhará antes de nascer, mas se a reforçar, pode transformar verdadeiramente o setor.
Provavelmente, veremos os primeiros passos da autonomia onde as dores operacionais são maiores, terrenos complexos, portefólios híbridos, mercados voláteis ou regiões com escassez de mão de obra qualificada. Nestes contextos, a autonomia deixa de ser inovação futurista e passa a ser necessidade prática. O que está em causa não é apenas tecnologia, é cultura, confiança e visão. A pergunta já não é se a gestão autónoma vai chegar ao setor energético, mas se nos sentirmos confiantes para a adotar de forma responsável, transparente e estratégica. Quem souber fazê-lo será quem liderará a próxima década.




