Na Abreu Advogados, a transformação digital não é apenas uma resposta aos tempos, mas uma escolha estratégica que molda a forma como se pratica e vive o Direito. Em entrevista à Executive Digest, Inês Sequeira Mendes, Managing partner da sociedade, explica como a inovação tecnológica está integrada no ADN do escritório, influenciando a relação com os clientes, a organização interna e a preparação das novas gerações de juristas. A digitalização surge como motor de eficiência, confiança e proximidade, sem nunca abdicar dos princípios éticos que sustentam a profissão.
A transformação digital é uma prioridade para muitas empresas. Como é que a Abreu Advogados tem integrado esta realidade no seu dia-a-dia?
Na Abreu Advogados, a transformação digital é uma expressão da nossa visão de futuro. Não a tratamos como um projecto isolado, mas como um pilar estruturante da estratégia do escritório. Assumimos uma abordagem holística, onde a tecnologia é uma força catalisadora da qualidade, eficiência e sustentabilidade da prática jurídica. Desde os nossos processos internos até à forma como interagimos com os clientes, colocamos a inovação digital ao serviço de uma advocacia mais ágil, conectada e centrada nas necessidades reais de quem nos procura. Estamos a executar um roadmap tecnológico assente na integração de sistemas, dados e inteligência jurídica, o que nos permite oferecer uma experiência mais preditiva e orientada ao valor, quer para os nossos clientes, quer para as nossas equipas.
Que áreas do escritório foram mais impactadas pelas iniciativas de digitalização?
A digitalização impactou transversalmente a organização, mas destaco três dimensões críticas que ilustram bem essa transformação: a comunicação e colaboração internas evoluíram substancialmente, com fluxos de trabalho mais eficientes, equipas híbridas plenamente integradas e uma nova cultura de proximidade tecnológica; a relação com os clientes torna-se cada vez mais digital, ágil e orientada por dados, reflectindo uma nova forma de prestar serviços jurídicos mais conectados com as expectativas de transparência e acesso em tempo real; e, por fim, as operações e a tomada de decisão beneficiaram de forma significativa da introdução de inteligência de negócio, através de dashboards e análises preditivas, que trouxeram maior rigor, visibilidade e capacidade de antecipação. A transformação digital também se expressa na automatização de tarefas de backoffice, na modernização da gestão documental, nos processos de facturação, cobrança e reporting, libertando os nossos profissionais para se concentrarem naquilo que verdadeiramente gera valor.
De que forma a tecnologia tem contribuído para melhorar a relação com os clientes?
A relação com o cliente passou a ser ainda mais transparente, interactiva e personalizada. Apostamos em soluções que oferecem previsibilidade, colaboração em tempo real e acesso seguro à informação, com ferramentas como portais documentais, relatórios interactivos e notificações automatizadas. Este ecossistema digital fortalece a confiança, reduz fricções e posiciona-nos como verdadeiros parceiros estratégicos dos nossos clientes, não apenas fornecedores de pareceres, mas construtores de soluções jurídicas integradas com os desafios do negócio.
A automatização de tarefas jurídicas é uma realidade. Como é que a Abreu Advogados encara o uso de inteligência artificial, por exemplo, na revisão de contratos ou na análise de risco?
O nosso princípio orientador é simples: tecnologia ao serviço das pessoas e da ética profissional. A inteligência artificial é uma aliada, nunca um substituto. Utilizamo-la para potenciar análises mais robustas, identificar padrões de risco e apoiar a revisão automatizada de cláusulas, sempre com supervisão humana. Implementamos mecanismos internos de controlo ético, respeitamos os limites regulatórios e cultivamos um uso responsável e transparente da IA, garantindo que a confiança no advogado permanece inabalável, mesmo num ambiente digitalizado.
Existem projectos ou ferramentas digitais desenvolvidas internamente para apoiar a prática jurídica?
Sim, temos vindo a investir no desenvolvimento de soluções proprietárias como o Abreu360 e o Portal do Conhecimento, que integram gestão documental, facturação, automação e inteligência jurídica. Estas plataformas não só aumentam a autonomia dos advogados como permitem uma gestão mais estratégica da informação e do conhecimento. Estes projectos têm sido cruciais para elevar os nossos padrões de qualidade, rastreabilidade e compliance, e são desenhados em cocriação com as equipas jurídicas, o que assegura a sua real aplicabilidade na prática do dia-a-dia.
Como se garante o equilíbrio entre a inovação tecnológica e o cumprimento rigoroso dos requisitos legais e éticos da profissão?
A inovação na Abreu está indissociavelmente ligada a uma matriz de risco ético e legal. Todos os projectos passam por uma análise rigorosa por comités interdisciplinares e temos políticas internas específicas para o uso de IA, proteção de dados e segurança da informação. Acreditamos que a confiança é o activo mais valioso na advocacia. A tecnologia deve reforçar essa confiança, nunca comprometê-la. Por isso, investimos também em capacitação ética e jurídica das nossas equipas no contexto digital.
A cibersegurança é uma preocupação crescente. Que medidas estão a ser implementadas para proteger os dados sensíveis dos clientes?
Mais do que depender da tecnologia, cultivamos uma verdadeira cultura de segurança. Isso inclui desde a sensibilização constante das equipas até à implementação de protocolos rigorosos em caso de incidentes. A nível técnico, contamos com uma infraestrutura robusta: segmentação de redes, backups encriptados, autenticação multifactor, auditorias regulares e aplicações internas seguras. Trabalhamos com parceiros de cibersegurança e seguimos práticas alinhadas com standards internacionais como a ISO 27001.
A transformação digital também implica uma mudança cultural. Que tipo de formação ou sensibilização é feita junto das equipas?
A transformação digital exige uma mudança cultural profunda. Promovemos formação contínua em competências digitais, segurança da informação, ferramentas colaborativas e inovação aplicada à prática jurídica. Desde o onboarding até aos programas de desenvolvimento de liderança, passando por programas específicos de capacitação digital, incentivamos uma mentalidade digital, ágil e orientada à aprendizagem constante, factores essenciais para sermos uma organização verdadeiramente preparada para o futuro.
Como é que a Abreu Advogados prepara os seus jovens talentos para um futuro jurídico cada vez mais digital?
O nosso compromisso com o futuro passa pelo investimento estratégico nos talentos emergentes. Estimulamos a curiosidade, o pensamento interdisciplinar e crítico e o contacto directo com projectos de inovação tecnológica. Através dos Prémios de Excelência, desafiamos os mais jovens a testar novas ferramentas, cocriar soluções e participar activamente na evolução digital do escritório. Queremos formar advogados capazes de liderar num mundo jurídico mais complexo, tecnológico e global.
A transformação digital trouxe novos desafios regulatórios. Em que medida é que o escritório tem apoiado os clientes na adaptação a este novo quadro legal?
Estamos na linha da frente no apoio à transição digital dos nossos clientes. Ajudamos na implementação de programas de compliance, preparação para auditorias de cibersegurança, adaptação ao DORA, à regulamentação europeia da IA e outros quadros legais emergentes. Constituímos equipas multidisciplinares que combinam know-how jurídico, tecnológico e de protecção de dados para oferecer soluções práticas e eficazes, com proximidade e capacidade de execução.
Em termos de investimento, quais são as grandes apostas tecnológicas da Abreu para os próximos anos?
O nosso investimento está focado em tecnologias que melhorem a experiência do cliente e elevem a performance das nossas equipas quer na área jurídica quer nas áreas de gestão. Apostamos em inteligência jurídica, automação de processos, reforço da cibersegurança e plataformas colaborativas avançadas. Estamos também a explorar soluções seguras e descentralizadas aplicadas à propriedade intelectual e contratos inteligentes, sempre com foco no impacto e não apenas na novidade. Não queremos ser apenas early adopters, queremos ser líderes com propósito.
Que papel acredita que os escritórios de advogados devem ter na promoção de uma transformação digital mais ética e sustentável?
Os escritórios de advogados têm um papel central na promoção de uma transformação digital ética e sustentável. Devem assumir-se como mediadores de confiança no ecossistema digital, liderando o debate sobre a ética na tecnologia, a transparência algorítmica e o uso responsável dos dados. Na Abreu, defendemos uma abordagem à inovação que seja orientada por valores e por impacto, que promova a justiça, a acessibilidade e a inclusão. A transformação tecnológica só é completa quando vem acompanhada de responsabilidade social e visão humanista da prática jurídica.
Este artigo faz parte do Caderno Especial “Transformação Digital”, publicado na edição de Junho (n.º 231) da Executive Digest.














