Como poderá Portugal beneficiar de uma maior industrialização ou, se quiser chamar, de uma reindustrialização?
Portugal pode beneficiar bastante com este processo se conseguir com isso alterar o seu atual perfil de especialização produtiva para atividades mais avançadas e mais intensivas em tecnologia, portanto, de maior valor acrescentado. Esta reindustrialização é possível, e expectável, dentro de uma a duas décadas O nosso país dispõe, ainda, de uma tradição industrial relevante que, do ponto de vista técnico, facilitará o reforço das indústrias transformadoras. Para além disso, dispõe de capital humano bem formado e competitivo face a países europeus mais desenvolvidos, bem como condições de produção de energia verde a custos baixos – talvez dos mais baixos da Europa e do mundo.
Qual seria o ideal de contribuição da indústria para o PIB nacional?
Não existe um referencial consensual. A realidade varia na Europa e no mundo… Na China, por exemplo, o Valor Acrescentado Bruto (VAB) industrial é de cerca de 36%. Na Europa, a Alemanha destaca-se com cerca de 19%, mas o Reino Unido não ultrapassa os 7% e a França os 9%. Em Portugal, a passagem dos atuais 11% para 14% ou 15%, no espaço de uma a ou duas décadas, seria certamente assinalável.
EM PORTUGAL, A PASSAGEM DOS ATUAIS 11% PARA 14% OU 15%, NO ESPAÇO DE UMA OU DUAS DÉCADAS, SERIA CERTAMENTE ASSINALÁVEL
Que tipo de indústrias poderiam desenvolver-se no território nacional?
É difícil prever como vai evoluir a especialização industrial em Portugal. Contudo, e tendo por base a nossa situação atual e as competências que o país tem vido a desenvolver e as tendências internacionais, não será estranho que as atividades ligadas às energias renováveis, à eletrónica e dados, à (bio) farmacêutica e (bio)química, ao automóvel, à agroindústria, à construção, aos materiais de construção e à aeronáutica venham a tornar-se mais dinâmicas. Dentro das atividades ditas tradicionais, também podermos assistir a um renascimento das indústrias da moda.
OS PONTOS POSITIVOS E NEGATIVOS PARA A REINDUSTRIALIZAÇÃO DE PORTUGAL*
Pontos positivos
- Capital humano competitivo
- Tradição industrial
- Produção de energia verde competitiva
Pontos negativos
- Problemas de infraestruturas
- Burocracia (demora de licenciamentos, justiça lenta)
- Défice na ferrovia
- Gaps da rede elétrica
- Preços de energia pouco competitivos para consumo intensivos
*Segundo a análise da EY.
E seria através de uma aposta de indústrias nacionais ou estrangeiras?
Na EY-Parthenon acreditamos que o processo de reindustrialização se fará por um misto de investimento de base nacionais e de investimento direto estrangeiro (IDE). Existem em Portugal grandes grupos empresariais que estão atentos às oportunidades e já se estão a posicionar para fortes investimentos industriais. Por outro lado, os resultados do EY Attractiveness Survey Portugal 2025 mostram uma forte apetência dos investidores internacionais para apostar em atividades industriais em Portugal: 73% dos inquiridos consideram o destino Portugal atrativo ou muito atrativo para investimentos em processos de reindustrialização.
NA EY-PARTHENON ACREDITAMOS QUE O PROCESSO DE REINDUSTRIALIZAÇÃO SE FARÁ POR UM MISTO DE INVESTIMENTO DE BASE NACIONAIS E DE INVESTIMENTO DIRETO ESTRANGEIRO (IDE)
Essa aposta poderá agravar ainda mais o problema da falta de mão de obra.
É verdade. Através de uma política de imigração efetiva, Portugal poderá gerir parte das necessidades. Ao mesmo tempo, uma aposta forte em processos de skilling e reskilling poderá, também, ajudar a resolver o problema. A história das últimas décadas nas economias do leste europeu comprova que estes processos são possíveis e podem ser bem geridos.
O custo da energia é um dos fatores-chave de atratividade do mercado nacional para atrair indústrias que possam estar noutras geografias?
Sem qualquer dúvida. Atualmente, Portugal possui preços médios de energia para clientes não domésticos que são bastante competitivos na Europa. Acresce que a competitividade-custo nacional associada às energias verdes é muito forte. O mix que temos na energia hídrica, na energia solar e na energia eólica é dos mais equilibrados e favoráveis na Europa e no mundo. No entanto, existe um segmento onde ainda não estamos bem posicionados: o preço da energia para as indústrias eletrointensivas. Aí encontramo-nos em clara desvantagem face a países como França, Alemanha ou Espanha, dadas as distorções criadas pelas diferentes subsidiações públicas.
Atualmente, quais são os pontos fortes e fracos que Portugal tem para apostar na reindustrialização?
Os pontos fortes são bastantes, estendendo-se desde a envolvente – clima, gastronomia, segurança – até à oferta de capital humano competitivo, tradição industrial e boas condições de produção de energia (verde) competitiva. No entanto, os pontos fracos também são significativos, desde elevados custos de contexto – burocracia, demora em licenciamentos, justiça lenta -, até problemas infraestruturais, como os défices na ferrovia e os gaps na rede elétrica, e preços pouco competitivos na energia para consumidores eletrointensivos.
A instabilidade geopolítica, as relações comerciais com os EUA, a China e o conflito na Ucrânia serão razões suficientes para uma aposta europeia na relocalização de determinadas indústrias no território europeu?
A conjugação de todos esses fatores é muito forte e já está a conduzir a processos de relocalização, não só dentro da Europa, como também de fora do velho continente. Os EUA, por exemplo, são o maior investidor externo em Portugal em número de projetos. O Brasil também está a investir fortemente no nosso país. A China e outros países asiáticos também têm processos agressivos de investimento na Europa e em Portugal.
A IA e a automação serão um entrave ou um benefício para a eventual reindustrialização?
Na EY-Parthenon consideramos a IA e a automação como facilitadores e motores importantes da reindustrialização. Claramente, são fatores com enorme potencial de aplicação e valorização em países desenvolvidos, que depois facilitam imenso – e, no futuro, vão facilitar ainda mais a relocalização para a Europa e EUA. Na verdade, a par do vetor energético, onde é crítico atuar na Europa, no segmento eletrointensivo, podem ser dos fatores mais relevantes para alavancar a reindustrialização em território europeu e, em particular, Portugal.














