“A reindustrialização é possível dentro de uma a duas décadas”: Hermano Rodrigues, Principal da Ey-Parthenon

Hermano Rodrigues, Principal da Ey-Parthenon, indica caminhos e tendências que podem impulsionar a reindustrialização de Portugal.

Filipe Gil
Janeiro 20, 2026
12:33

Como poderá Portugal beneficiar de uma maior industrialização ou, se quiser chamar, de uma reindustrialização?

Portugal pode beneficiar bastante com este processo se conseguir com isso alterar o seu atual perfil de especialização pro­dutiva para atividades mais avançadas e mais intensivas em tecnologia, portanto, de maior valor acrescentado. Esta rein­dustrialização é possível, e expectável, dentro de uma a duas décadas O nosso país dispõe, ainda, de uma tradição in­dustrial relevante que, do ponto de vista técnico, facilitará o reforço das indústrias transformadoras. Para além disso, dis­põe de capital humano bem formado e competitivo face a países europeus mais desenvolvidos, bem como condições de produção de energia verde a custos baixos – talvez dos mais baixos da Europa e do mundo.

Qual seria o ideal de contribuição da indústria para o PIB nacional?

Não existe um referencial consensual. A realidade varia na Europa e no mundo… Na China, por exemplo, o Valor Acrescentado Bruto (VAB) industrial é de cerca de 36%. Na Europa, a Alemanha destaca-se com cerca de 19%, mas o Reino Unido não ultrapassa os 7% e a França os 9%. Em Portugal, a passagem dos atuais 11% para 14% ou 15%, no espaço de uma a ou duas décadas, seria cer­tamente assinalável.

EM PORTUGAL, A PASSAGEM DOS ATUAIS 11% PARA 14% OU 15%, NO ESPAÇO DE UMA OU DUAS DÉCADAS, SERIA CERTAMENTE ASSINALÁVEL

Que tipo de indústrias poderiam desenvolver-se no terri­tório nacional?

É difícil prever como vai evoluir a especialização industrial em Portugal. Contudo, e tendo por base a nossa situação atual e as competências que o país tem vido a desenvolver e as tendências internacionais, não será estranho que as atividades ligadas às energias renováveis, à eletrónica e dados, à (bio) farmacêutica e (bio)química, ao automóvel, à agroindústria, à construção, aos materiais de construção e à aeronáutica venham a tornar-se mais dinâmicas. Dentro das atividades ditas tradicionais, também podermos assistir a um renasci­mento das indústrias da moda.

OS PONTOS POSITIVOS E NEGATIVOS PARA A REINDUSTRIALIZAÇÃO DE PORTUGAL*

Pontos positivos

  • Capital humano competitivo
  • Tradição industrial
  • Produção de energia verde competitiva

Pontos negativos

  • Problemas de infraestruturas
  • Burocracia (demora de licenciamentos, justiça lenta)
  • Défice na ferrovia
  • Gaps da rede elétrica
  • Preços de energia pouco competitivos para consumo intensivos

*Segundo a análise da EY.

E seria através de uma aposta de indústrias nacionais ou estrangeiras?

Na EY-Parthenon acreditamos que o processo de reindus­trialização se fará por um misto de investimento de base nacionais e de investimento direto estrangeiro (IDE). Existem em Portugal grandes grupos empresariais que estão aten­tos às oportunidades e já se estão a posicionar para fortes investimentos industriais. Por outro lado, os resultados do EY Attractiveness Survey Portugal 2025 mostram uma forte apetência dos investidores internacionais para apostar em atividades industriais em Portugal: 73% dos inquiridos con­sideram o destino Portugal atrativo ou muito atrativo para investimentos em processos de reindustrialização.

NA EY-PARTHENON ACREDITAMOS QUE O PROCESSO DE REINDUSTRIALIZAÇÃO SE FARÁ POR UM MISTO DE INVESTIMENTO DE BASE NACIONAIS E DE INVESTIMENTO DIRETO ESTRANGEIRO (IDE)

Essa aposta poderá agravar ainda mais o problema da falta de mão de obra.

É verdade. Através de uma política de imigração efetiva, Por­tugal poderá gerir parte das necessidades. Ao mesmo tempo, uma aposta forte em processos de skilling e reskilling poderá, também, ajudar a resolver o problema. A história das últimas décadas nas economias do leste europeu comprova que estes processos são possíveis e podem ser bem geridos.

O custo da energia é um dos fatores-chave de atratividade do mercado nacional para atrair indústrias que possam estar noutras geografias?

Sem qualquer dúvida. Atualmente, Portugal possui preços mé­dios de energia para clientes não domésticos que são bastante competitivos na Europa. Acresce que a competitividade-custo nacional associada às energias verdes é muito forte. O mix que temos na energia hídrica, na energia solar e na energia eólica é dos mais equilibrados e favoráveis na Europa e no mundo. No entanto, existe um segmento onde ainda não estamos bem posicionados: o preço da energia para as indústrias eletrointensivas. Aí encontramo-nos em clara desvantagem face a países como França, Alemanha ou Espanha, dadas as distorções criadas pelas diferentes subsidiações públicas.

Atualmente, quais são os pontos fortes e fracos que Portugal tem para apostar na reindustrialização?

Os pontos fortes são bastantes, estendendo-se desde a envolvente – clima, gastronomia, segurança – até à oferta de capital humano competitivo, tradição industrial e boas condições de produção de energia (verde) competitiva. No entanto, os pontos fracos também são significativos, desde elevados custos de contexto – burocracia, demora em licenciamentos, justiça lenta -, até problemas infraes­truturais, como os défices na ferrovia e os gaps na rede elétrica, e preços pouco competitivos na energia para consumidores eletrointensivos.

A instabilidade geopolítica, as relações comerciais com os EUA, a China e o conflito na Ucrânia serão razões suficientes para uma aposta europeia na relocalização de determinadas indústrias no território europeu?

A conjugação de todos esses fatores é muito forte e já está a conduzir a processos de relocalização, não só dentro da Europa, como também de fora do velho continente. Os EUA, por exemplo, são o maior investidor externo em Portugal em número de projetos. O Brasil também está a investir fortemente no nosso país. A China e outros países asiáticos também têm processos agressivos de investimento na Europa e em Portugal.

A IA e a automação serão um entrave ou um benefício para a eventual reindustrialização?

Na EY-Parthenon consideramos a IA e a automação como facilitadores e motores importantes da reindustrializa­ção. Claramente, são fatores com enorme potencial de aplicação e valorização em países desenvolvidos, que depois facilitam imenso – e, no futuro, vão facilitar ainda mais a relocalização para a Europa e EUA. Na verdade, a par do vetor energético, onde é crítico atuar na Euro­pa, no segmento eletrointensivo, podem ser dos fatores mais relevantes para alavancar a reindustrialização em território europeu e, em particular, Portugal.

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