A indústria farmacêutica portuguesa atravessa um momento de afirmação económica que a coloca, pela primeira vez de forma clara, entre os setores com impacto macroeconómico relevante. Dados recentes da Apifarma mostram que, em 2024, a produção da indústria farmacêutica representou 1,5% do Produto Interno Bruto, um valor que contrasta com a estagnação abaixo de 1% observada durante grande parte da década anterior. Esta evolução não resulta de um crescimento gradual e contínuo, mas sim de uma aceleração concentrada nos últimos anos, particularmente a partir de 2021.
Em termos absolutos, o valor da produção da indústria farmacêutica ultrapassou 4,2 mil milhões de euros em 2024, registando um crescimento anual de 24,5%. Trata-se de um ritmo de expansão excecional no contexto da economia portuguesa e raro mesmo em setores tradicionalmente exportadores. Nos últimos três anos, a produção apresenta uma trajetória claramente ascendente, refletindo uma dinâmica de crescimento acelerado fortemente associada ao desempenho externo do setor.
As exportações assumem, de facto, um papel central neste percurso. Em 2024, 38,2% da produção da indústria farmacêutica destinou-se aos mercados internacionais, uma proporção que tem vindo a aumentar de forma quase contínua desde 2010. Após um período de crescimento mais moderado a meio da década passada, as exportações aceleraram significativamente no período pós-2020, reforçando o perfil internacional do setor. Esta evolução indica uma crescente integração da indústria farmacêutica portuguesa em cadeias de valor globais, mas também uma menor dependência da procura interna, com as vantagens e riscos que daí decorrem.
A comparação com o restante tecido industrial é igualmente elucidativa. O Índice de Produção Industrial (IPI) da indústria farmacêutica tem-se mantido, nos últimos anos, consistentemente acima do IPI total da economia, evidenciando uma resiliência superior face às flutuações do ciclo económico. Enquanto o conjunto da indústria nacional apresenta oscilações mais pronunciadas e períodos de estagnação, o segmento farmacêutico revela uma evolução mais estável e uma tendência de crescimento estrutural, confirmada também pela análise da média anual do índice.
Do ponto de vista quantitativo, a comparação com outros setores torna-se ainda mais elucidativa. A indústria farmacêutica representa cerca de 1,5% do PIB, mas emprega menos de 1% da população ativa, o que se traduz num valor acrescentado bruto (VAB) por trabalhador substancialmente superior à média nacional. Estimativas setoriais apontam para um VAB por trabalhador acima dos 90 mil euros anuais, valor claramente superior ao registado em setores como o turismo, onde o VAB por trabalhador se situa em torno dos 30 a 35 mil euros, ou na construção, abaixo dos 40 mil euros. Mesmo quando comparada com outros ramos da indústria transformadora, como têxteis, vestuário ou madeira, a diferença é significativa, já que estes apresentam produtividades tipicamente inferiores a 45 mil euros por trabalhador.
A indústria farmacêutica distingue-se, assim, por combinar elevada produtividade, menor intensidade de mão de obra, maior incorporação tecnológica e um peso exportador próximo dos 40% da produção, posicionando-se entre os setores com maior capacidade para elevar o rendimento médio e o valor acrescentado da economia portuguesa.
Este desempenho sugere que a indústria farmacêutica beneficia de características específicas que a diferenciam de outros setores industriais, nomeadamente maior intensidade tecnológica, forte orientação exportadora e menor exposição ao mercado interno.
Em síntese, a indústria farmacêutica portuguesa deixou de ser apenas um setor relevante para se afirmar como um ativo estratégico da economia nacional. O aumento do seu peso no PIB, a forte expansão do valor da produção e o dinamismo das exportações colocam-na entre os motores mais promissores do crescimento económico recente. O desafio, nos próximos anos, será transformar esta aceleração numa trajetória sustentável e resiliente, capaz de resistir a contextos menos favoráveis e de consolidar, no longo prazo, o seu contributo para a economia portuguesa.
Para que esta trajetória se consolide, será determinante uma articulação eficaz entre empresas, reguladores e decisores públicos. A previsibilidade regulatória, o reforço do investimento em investigação clínica e industrial, a atração de talento qualificado e a diversificação de mercados de exportação surgem como fatores críticos para reduzir riscos de concentração e aumentar a resiliência do setor. Sem estas condições, o crescimento recente poderá revelar-se conjuntural. Com elas, a indústria farmacêutica tem potencial para se afirmar de forma duradoura como um dos pilares estruturais da economia portuguesa, contribuindo não apenas para o crescimento, mas também para a sofisticação do tecido produtivo nacional.




