Por Gonçalo Simões, Banking Services Director na NTT DATA Portugal
Entre inovação e controvérsia
Nos últimos anos, os bancos centrais têm vindo a explorar uma nova fronteira monetária: as moedas digitais. Conhecidas como Central Bank Digital Currencies (CBDCs), estas versões digitais das moedas oficiais, prometem transformar a forma como pagamos, poupamos e interagimos com o sistema financeiro. Mas será que estamos perante uma revolução inevitável ou apenas uma resposta defensiva ao avanço das criptomoedas?
Existe um interesse global nas CBDCs, com mais de 130 países em diferentes estágios de adoção. Entre os maiores países a nível global, a China lidera o pelotão com o yuan digital já em fase de testes. O Banco Central Europeu avança com o euro digital, ainda em fase preparatória, enquanto o Banco do Japão e a Federal Reserve dos EUA mantêm uma postura mais cautelosa. Em comum, todos procuram garantir soberania monetária num mundo cada vez mais digitalizado, onde o dinheiro físico perde relevância e as criptomoedas descentralizadas desafiam o controlo estatal.
Vantagens, riscos e dúvidas em relação às CBDCs
Os defensores das CBDCs apontam múltiplos benefícios: redução de custos das transações, combate à evasão fiscal e maior eficácia na política monetária. Em teoria, uma moeda digital, emitida por um banco central, pode permitir transferências instantâneas, seguras e sem intermediários, mesmo entre países.
A introdução das CBDCs levanta questões delicadas sobre privacidade, vigilância e estabilidade financeira. Se os cidadãos puderem depositar diretamente junto do banco central, que impacto terá isso nos bancos comerciais? E até que ponto estaremos dispostos a aceitar que o Estado possa monitorizar cada transação digital?
A tecnologia por trás das CBDCs também não é trivial e a interoperabilidade com sistemas existentes e temáticas como a cibersegurança são desafios técnicos e políticos que exigem ponderação.
O papel dos cidadãos e da confiança
Mais do que uma questão técnica, a adoção das moedas digitais dos bancos centrais será um teste à confiança dos cidadãos nas instituições públicas. Sem essa confiança, qualquer inovação corre o risco de se tornar irrelevante ou até contraproducente. A transparência na conceção, os limites à vigilância e a garantia de acessibilidade serão fatores decisivos.
As CBDCs são inevitáveis, mas devem ser introduzidas com prudência e foco no interesse público. Não devem servir apenas como resposta às criptomoedas ou como instrumento de controlo. Devem ser pensadas como uma evolução natural do dinheiro, adaptadas aos tempos presentes, contemplando já o futuro e com os valores democráticos bem presentes.
A ascensão das moedas digitais dos bancos centrais é uma oportunidade para repensar o papel do dinheiro na sociedade. Cabe-nos a todos: cidadãos, decisores e técnicos, garantir que essa transformação é feita com responsabilidade, equilíbrio e visão de futuro.




