De levantar capital a construir negócios que sobrevivem

Opinião de Bruno Pires, cofundador e Managing Partner da Here Partners

Bruno PiresBruno Pirescofundador e Managing Partner da Here PartnersVer todos os artigos
Bruno Pires
Bruno Pirescofundador e Managing Partner da Here PartnersOutubro 21, 2026 12:59

Num ecossistema empreendedor cada vez mais exposto à velocidade da inovação e à escassez de capital, julgo ser evidente que o sucesso de uma startup depende menos da dimensão da ronda e mais da qualidade da construção do negócio em todas as suas esferas críticas. O verdadeiro diferencial está, cada vez mais, na forma como o capital é acompanhado e utilizado.

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Durante anos, o ecossistema global de capital de risco beneficiou de um contexto de liquidez abundante proveniente de baixas taxas de juro e inflação controlada. Era relativamente fácil captar investimento e, em muitos casos, o foco passou da criação de negócios sustentáveis para a corrida a métricas de crescimento que justificassem a ronda seguinte, criando um risco de bolha semelhante às dotcom do final dos anos 90. Este modelo incentivou escalabilidade acelerada, mas nem sempre acompanhada de fundamentos sólidos como receita, controlo de custos e caminhos claros para rentabilidade e sustentabilidade a longo prazo.

Mas o que a correção recente veio expor é que o capital não desapareceu, apenas alterou a forma como se comporta. Em 2025, o ano mais forte desde 2021, perto de 60% do investimento concentrou-se em pouco mais de 600 empresas que levantaram rondas acima de 100 milhões de dólares, segundo dados de financiamento global em 2025 da Crunchbase. Depois de anos a premiar o crescimento, os investidores passaram a exigir eficiência de capital, ou seja, quanto valor uma empresa gera face ao que gasta para crescer. A pergunta que separa quem sobrevive de quem desaparece já não é quanto conseguem levantar, mas sim quanto valor criam por cada euro investido.

Capital não é sinónimo de negócio sustentável. E os números que raramente aparecem nas manchetes das rondas milionárias explicam porquê: estima-se que até 75% das startups financiadas por capital de risco nunca cheguem a devolver dinheiro aos seus investidores. O problema estrutural não é a falta de capital, é a forma como construímos empresas em torno dele. Injeta-se dinheiro numa fase em que a empresa ainda é sobretudo um conjunto de suposições – sobre o mercado, sobre o produto, sobre a equipa – e boa parte desse capital acaba por ser gasto a testar hipóteses que poderiam ter sido validadas antes de qualquer ronda.

E se invertêssemos a ordem? Os modelos que têm vindo a demonstrar maior eficiência na utilização de capital partem exatamente da premissa de construir e validar primeiro, capitalizar depois.

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O exemplo mais claro é o dos venture studios, isto é, empresas que criam empresas, geram e testam ideias internamente, montam a equipa e só expõem o negócio ao mercado depois de reduzido o risco. Os dados acompanham a lógica. Segundo a Global Startup Studio Network, uma empresa criada num studio chega à Série A em cerca de 25 meses, contra os cerca de 56 meses de uma startup convencional. E enquanto 42% das startups tradicionais avançam da seed para a Série A, nos projetos saídos de studios essa proporção sobe para 72%.

Nada disto é magia, é engenharia de risco. Ao partilhar entre vários projetos aquilo que uma startup isolada teria de construir do zero, desde competências jurídicas e financeiras ao desenvolvimento de produto e à área comercial, e ao concentrar recursos num número reduzido de ideias com potencial, o studio elimina grande parte do desperdício que descrevi anteriormente. Mas convém resistir ao entusiasmo fácil. O modelo não é garantia de nada. Exige disciplina de execução, critério para matar cedo os projetos que não resultam e uma honestidade permanente sobre o custo de cada empresa criada. Feito sem esse rigor, um venture studio é apenas uma forma mais cara de errar.

Portugal oferece um enquadramento particularmente interessante. O ecossistema amadureceu e existem hoje mais de cinco mil startups ativas no país, com quase 70% a serem fundadas nos últimos cinco anos. Mas há uma fragilidade ligada ao financiamento que persiste: o capital de crescimento continua limitado, e as empresas mais bem-sucedidas acabam quase sempre por depender de capital internacional a partir da Série B. Como os próprios investidores reconhecem, o ecossistema é estruturalmente dependente de capital estrangeiro, precisamente num momento em que a Europa procura afirmar maior soberania tecnológica.

Ora, um mercado onde o capital privado é escasso e caro não penaliza todos os modelos por igual. Recompensa quem constrói com eficiência e financia o risco sem depender de rondas sucessivas. É exatamente aqui que o modelo de venture studio, aliado ao financiamento não-dilutivo, encontra o seu terreno mais fértil.

Combinar a disciplina operacional de um studio com a captação inteligente de fundos públicos é, na prática, transformar a escassez de capital privado numa vantagem estratégica.

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É esta a tese que tenho vindo a estudar e a testar. Um modelo em três tempos. Grant, financiando a fase mais arriscada com capital não-dilutivo ou pequenos cheques privados. Build, construindo sobre a infraestrutura partilhada de um studio. Scale, crescendo através de redes de colaboração nacionais e internacionais. Uma lógica que procura unir a cofundação operacional, a especialização em financiamento e o acesso a redes internacionais de investidores e empresas. Não porque o venture studio seja uma moda a seguir, mas porque, num contexto de capital caro e seletivo, construir de forma eficiente em capital deixou de ser uma opção. Passou a ser a única forma sensata de construir.

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