O indigenista ítalo-brasileiro Ricardo Rao, exilado em Itália após denunciar crimes contra os índios na Amazónia durante o Governo de Bolsonaro, acusa Lula da Silva de ser “um fantoche” e que por isso está em risco de perder as eleições.
“O jornalismo europeu é muito condescendente e muito superficial quanto à figura de Luiz Inácio Lula da Silva, que é um fantoche das forças malignas que me levaram ao exílio e que estão levando à destruição da Amazónia”, afirmou à agência Lusa Ricardo Rao, que trabalhava na Fundação Nacional do Índio (Funai) quando denunciou crimes contra os povos indígenas.
Na sequência destas denúncias e após receber ameaças de morte, Rao deixou o Brasil em 2019, indo para a Noruega e depois para Itália, onde vive.
Apesar das suas iniciais expectativas com a saída de Bolsonaro, e após Lula da Silva ter honrado o compromisso de criar o Ministério dos Povos Indígenas, hoje confessa-se dececionado.
“Para se manter no poder, para que não sofra um processo de impedimento (ou ‘impeachment’), o Presidente Lula tem que fazer as concessões mais absurdas, inomináveis, vergonhosas a um congresso que é dominado hoje por deputados do agronegócio”, disse.
E prossegue: “Lula faz todo o tipo de concessão a essas forças políticas e eu sempre me opus a essas forças políticas, porque eles invadem a terra dos índios e eu era oficial da agência indígena. Então, era o meu dever combater esses criminosos”.
Ricardo Rao conta que “esses criminosos” assassinaram os seus amigos e perseguiram-no, tendo atentado contra a sua vida, num ataque em que perdeu quase todos os dentes.
“Eu esperava que com a vitória do Lula, pelo menos o meu órgão, a agência indígena, que contava com chefes nomeados pelo Governo Bolsonaro, pelo menos isso fosse resolvido. Não foi”, lamentou.
Hoje, Ricardo Rao considera que o poder efetivo de Lula da Silva é “o mesmo da rainha da Inglaterra. O Lula preside, mas não governa”.
Mas, segundo disse, permite que os empresários do agronegócio avancem sobre as terras dos índios — que são “muito puras e férteis”.
“Na verdade é um anão. Eu vejo o Lula como um anão moral”, acusou, alertando para um dado: “Morreram mais índios yanomamis sob a gestão do Lula do que sob a gestão do Bolsonaro”.
Em agosto, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) revelou que a violência contra os povos indígenas disparou no Brasil em 2025, com 258 assassínios, mais 22,3% do que no ano anterior.
Em relação ao trabalho da Funai, Ricardo Rao vê poucas mudanças com a saída de Bolsonaro e o regresso de Lula ao poder.
Enquanto Bolsonaro dava ordens expressas para não agir perante estes avanços nas terras dos indígenas – que Rao diz que “descumpria” e foi por isso destruído e a sua equipa dizimada a tiros -, atualmente o Governo de Lula não disponibiliza os meios para que quem defende os indígenas possa fazer o seu trabalho.
O também escritor e antigo jornalista afirma que há “um cálculo político” nesta matéria: “As estatísticas apontam 800 mil indígenas no Brasil. Nas serras indígenas, 300 mil e em idade eleitoral serão metade. Dos que efetivamente votam, não chega a 100 mil, 120 mil. E essa democracia parlamentar é isso, é contagem de narizes. O Lula e o PT fazem esse cálculo — 120 mil não elegem um perfeito de uma cidade média. Os indígenas infelizmente não têm uma voz política”.
Sobre a possibilidade de um Bolsonaro voltar ao poder, Ricardo Rao disse que resulta de “uma deceção clamorosa” em relação a Lula da Silva.
E cita Abraham Lincoln, para quem ninguém pode enganar toda a gente durante todo o tempo.
“O eleitorado, todo o povo brasileiro, está percebendo. Agora, eu fico triste que não perceba que a opção é ainda pior. Eu vejo o Lula como um ladrão vaidoso. Os Bolsonaros, eles são assassinos. Então, a situação política no Brasil é essa. Nós temos que optar entre ladrões e assassinos”, disse.
Ricardo Rao foi recentemente galardoado com o primeiro prémio da 11.ª edição do Prémio de Revelação Literária da UCCLA – União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa – CMLisboa: Novos Talentos, Novas Obras em Língua Portuguesa, com a obra “Antologia Brutalista”.
Mais de 158 milhões de brasileiros são chamados às urnas no domingo para a primeira volta das presidenciais altamente acirradas entre Lula da Silva e Flávio Bolsonaro e para eleger governadores, senadores e deputados federais, estaduais e distritais.













