Este ano, o Dia Mundial do Habitat assinala-se a 5 de outubro, sob o mote “Adequate Housing for All”, uma iniciativa das Nações Unidas que volta a colocar no centro do debate uma questão: o acesso a uma habitação adequada.
De acordo com o World Cities Report 2026, da UN-Habitat, até 3,4 mil milhões de pessoas não têm acesso a habitação segura, adequada e em condições dignas, sendo que mais de mil milhões vivem em bairros informais ou clandestinos. O défice global de habitação passou de 251 milhões de unidades em 2010 para 288 milhões em 2023, num cenário marcado pela rápida urbanização, conflitos e fenómenos climáticos extremos.
Em Portugal, falar de habitação tornou-se quase inevitavelmente falar de acesso. Grande parte do debate público tem-se centrado, justificadamente, na dificuldade de encontrar uma casa compatível com os rendimentos das famílias. Contudo, o desafio da habitação não termina no acesso a uma casa.
Se queremos realmente discutir aquilo que significa “habitação adequada para todos”, precisamos de olhar para todo o ciclo de vida. Isso implica pensar numa população que vive mais anos e que precisa de encontrar na sua própria habitação condições que lhe permitam preservar qualidade de vida, segurança e autonomia.
As Nações Unidas defendem uma conceção de habitação adequada que ultrapassa largamente a existência de um teto, associando-se à dignidade, segurança, estabilidade e oportunidade.
É esta visão mais abrangente que devemos trazer para Portugal. A casa representa, para muitas pessoas o resultado de décadas de trabalho, um espaço de memórias e um dos principais patrimónios acumulados ao longo de uma vida. Numa sociedade em que vivemos cada vez mais anos, coloca-se uma pergunta que continua pouco presente na discussão sobre habitação: de que serve ter património se este não contribuir para a qualidade de vida de quem o construiu?
Durante décadas, ter uma casa foi visto como uma das principais formas de construir segurança para o futuro. Mas a longevidade alterou profundamente aquilo que significa preparar esse futuro.
Saúde, apoio domiciliário, adaptação da habitação, mobilidade, conforto ou simplesmente capacidade financeira são fatores que ganham importância à medida que envelhecemos. Neste contexto, pode surgir um paradoxo que merece ser discutido: ter uma parte significativa da riqueza acumulada numa casa e, simultaneamente, ter pouca liquidez disponível para responder às necessidades diárias.
A UN-Habitat sublinha esta necessidade de diversificação. A complexidade do problema habitacional exige uma pluralidade de respostas incluindo soluções que ajudem quem já é proprietário a retirar maior qualidade de vida do património que construiu. Porque envelhecer em casa, quando essa é a escolha e existem condições para fazê-lo, significa muito mais do que permanecer entre quatro paredes.
O Dia Mundial do Habitat celebra-se precisamente no mesmo dia em que Portugal assinala a Implantação da República. Se esta data nos remete para valores de cidadania e liberdade, vale a pena pensar também na liberdade à escala individual. A liberdade não termina à porta de casa. O debate sobre habitação não pode ficar reduzido ao número de casas que conseguimos construir. A dimensão quantitativa é imprescindível, mas não é suficiente.
No setor imobiliário, temos também a responsabilidade de incorporar esta perspetiva. É necessário deixar de olhar para a casa exclusivamente através do seu preço por metro quadrado e pensar mais no valor que esse património pode gerar para a vida das pessoas.
O Dia Mundial do Habitat foi celebrado pela primeira vez em 1986, em Nairobi, sob o tema “Shelter is my right”. Quarenta anos depois, a edição de 2026 volta a colocar o direito à habitação no centro da discussão internacional.
Porque uma política de habitação verdadeiramente inclusiva não pode passar apenas por conseguirmos ter uma casa. Tem também de pensar em como essa casa nos pode ajudar a viver com dignidade, autonomia e liberdade ao longo de toda a vida.





