Usamo-los para encontrar uma rua, seguir uma encomenda, perceber onde vai passar uma tempestade ou acompanhar uma eleição. Governos utilizam-nos para localizar populações, serviços e riscos. Empresas recorrem-lhes para decidir onde investir. E, quando surge uma guerra, poucas imagens parecem explicar tão rapidamente aquilo que está a acontecer como um mapa.
Talvez por isso confiemos tanto neles.
Uma fronteira desenhada, uma região pintada de determinada cor, uma legenda e uma data conferem imediatamente uma aparência de rigor. O mesmo argumento que poderia levantar dúvidas se estivesse escrito num parágrafo pode parecer um facto quando surge representado num mapa.
Mas uma linha pode ser deslocada. Um território pode crescer. Uma cidade pode mudar de lugar. Um nome pode desaparecer.
E um mapa falso pode sobreviver durante tanto tempo que, um dia, começa a parecer História.
É esse o alerta deixado por Daniel Waktola, professor associado no Austin Community College e especialista em geografia política, num artigo publicado no ‘The Conversation’ sobre a utilização de mapas como instrumentos de propaganda e desinformação.
Nenhum mapa é uma reprodução perfeita do mundo
A discussão ganhou nova relevância depois de as Nações Unidas promoverem a utilização de mapas-mundo considerados mais justos na representação das dimensões relativas dos continentes.
O exemplo mais conhecido é África.
Durante gerações, muitos dos mapas utilizados em escolas e outros contextos basearam-se em projeções que fazem o continente parecer proporcionalmente mais pequeno relativamente a regiões situadas em latitudes mais elevadas.
Há, contudo, uma distinção essencial.
Uma projeção cartográfica pode deformar dimensões porque é matematicamente impossível transformar perfeitamente uma superfície esférica num plano.
Uma fronteira deslocada deliberadamente para convencer alguém de que determinado território pertence a outro país ou grupo é uma coisa completamente diferente.
No primeiro caso existe uma limitação geométrica.
No segundo pode existir propaganda.
Porque acreditamos tanto num mapa?
Os mapas ocupam uma posição peculiar na forma como interpretamos informação.
São simultaneamente medições e imagens.
Quando olhamos para um gráfico ou lemos uma afirmação política, sabemos intuitivamente que existe alguém por detrás daquela mensagem. Num mapa, essa mediação é muito menos evidente.
As fronteiras parecem simplesmente estar ali.
É precisamente essa autoridade visual que pode ser explorada.
Waktola estudou o fenómeno através da Etiópia, analisando mapas de propaganda que circularam nas redes sociais antes e depois das reformas políticas de 2018.
O investigador selecionou seis mapas com elevada circulação produzidos pelo Governo e pela oposição.
E encontrou uma transformação particularmente reveladora.
Primeiro os mapas uniram. Depois começaram a separar
Entre 2014 e 2018, a Etiópia atravessou uma vaga de protestos impulsionada, entre outros fatores, por desigualdades económicas, repressão política, projetos de desenvolvimento contestados e disputas territoriais.
Os Oromo e Amhara, os dois maiores grupos étnicos do país, aproximaram-se politicamente na oposição ao Governo.
Os mapas tornaram-se parte dessa luta.
Ativistas recorreram às redes sociais para divulgar representações destinadas a denunciar aquilo que consideravam manipulações cartográficas do poder.
O fenómeno é conhecido como “maptivism”: a utilização de mapas para promover uma determinada causa.
Mas, depois das reformas de 2018, a coligação desfez-se e deu lugar a uma disputa pelo poder.
E os mapas mudaram de função.
Representações exageradas, fabricadas e territorialmente sobrepostas começaram a ser utilizadas pelos diferentes grupos para sustentar reivindicações concorrentes.
Aquilo que antes ajudava a unir uma oposição passou a contribuir para separar comunidades.
Basta deslocar uma fronteira
Entre os exemplos analisados estava um mapa publicado num manual escolar.
Nessa representação, a região de Amhara aparecia separada da fronteira com o Sudão. A região de Benishangul-Gumuz surgia estreitada e prolongada entre Amhara e o Sudão até alcançar a fronteira ocidental de Tigray.
Pode parecer uma pequena alteração gráfica.
Politicamente, não era.
As fronteiras de Benishangul-Gumuz ajudam a determinar que territórios étnicos controlam corredores internacionais estratégicos e recursos.
Mover uma linha num mapa significava, portanto, muito mais do que alterar um desenho.
Outros exemplos analisados incluíam representações de uma alegada “Grande Tigray”, a localização incorreta de um mosteiro e de símbolos nacionais, fronteiras regionais truncadas e uma representação exagerada da fronteira entre a Etiópia e o Sudão.
Hoje qualquer pessoa consegue fazer aquilo que antes exigia especialistas
Existe agora um elemento que multiplica o problema: as redes sociais.
Durante grande parte da História, produzir um mapa convincente exigia conhecimentos técnicos, equipamento e capacidade de impressão e distribuição.
Hoje, uma fronteira pode ser deslocada, uma localidade renomeada e um suposto território histórico reconstruído seletivamente em pouco tempo.
Horas depois, a imagem pode estar diante de milhares de pessoas.
E continua a parecer um mapa.
Por isso, herda parte da autoridade que tradicionalmente associamos à geografia, à cartografia e aos documentos oficiais.
Na Etiópia, onde etnia, território, fronteiras administrativas e representação política estão profundamente ligados, as consequências podem ser particularmente graves.
Um mapa pode transformar-se numa discussão sobre quem pertence a determinado lugar, quem o governa e quem tem direito aos seus recursos.
Mas o problema não termina quando a publicação desaparece das redes sociais.
Pode estar apenas a começar.
O mapa falso de hoje pode tornar-se a “prova histórica” de amanhã
É aqui que Waktola identifica talvez o risco mais inquietante.
A desinformação digital envelhece.
Uma imagem é guardada. Alguém faz uma captura de ecrã. Outra pessoa volta a publicá-la anos mais tarde. O mapa salta de uma plataforma para outra. A legenda original desaparece e o contexto político em que foi criado acaba esquecido.
Até que sobra apenas uma coisa: um mapa antigo.
E a idade pode transmitir-lhe uma nova aparência de autenticidade.
O investigador recorda o caso da guerra entre a Etiópia e a Eritreia, entre 1998 e 2000, que terá provocado até 100 mil mortes.
No centro do conflito encontrava-se, entre outras questões, a disputa pela localidade fronteiriça de Badme e diferentes interpretações de tratados da época colonial e de mapas históricos distorcidos que, ao longo do tempo, tinham adquirido autoridade.
Um mapa não se limita, portanto, a documentar um conflito.
Pode sobreviver-lhe.
E ajudar a reproduzi-lo.
Talvez tenhamos de aprender a desconfiar dos mapas
A resposta não passa simplesmente por encontrar uma projeção cartográfica “perfeita”.
Ela não existe para todas as utilizações.
Para Waktola, aquilo de que as sociedades necessitam é de literacia cartográfica.
Tal como começámos a aprender a questionar fotografias manipuladas, vídeos, estatísticas ou publicações nas redes sociais, também devemos aprender a interrogar aquilo que vemos num mapa.
Quem o criou?
Com que objetivo?
Que dados foram utilizados?
O que foi incluído?
O que ficou de fora?
E, sobretudo, porque passa aquela fronteira exatamente por ali?
Num mundo em que praticamente qualquer pessoa consegue produzir um mapa e distribuí-lo instantaneamente a milhares ou milhões de pessoas, a distorção mais perigosa pode já não ser aquela provocada pela dificuldade de representar um planeta redondo numa folha plana.
Pode ser simplesmente aquela que alguém decidiu desenhar.














