A Alternativa para a Alemanha (AfD) apresentou uma queixa-crime contra o chanceler Friedrich Merz, depois de o líder alemão ter acusado o partido de extrema-direita de defender uma política de “limpeza étnica” através dos seus planos de “remigração”.
“São claramente declarações difamatórias e puníveis por lei”, justificou esta sexta-feira Stephan Brandner, responsável parlamentar da AfD.
A iniciativa surge apenas dois dias depois de um confronto particularmente duro no Bundestag, o parlamento alemão, entre Merz e a copresidente da AfD, Alice Weidel. Segundo o ‘El País’, o chanceler recorreu a uma linguagem pouco habitual na política alemã para atacar a política migratória defendida pelo partido.
“A palavra ‘remigração’ que vocês utilizam não é outra coisa senão um sinónimo de limpeza étnica, baseada na origem e na cor da pele”, afirmou Merz.
Mas o que significa “remigração”?
A palavra está no centro desta disputa.
O conceito ganhou notoriedade na Alemanha depois de uma reunião realizada em Potsdam, em 2023, na qual participaram membros da extrema-direita alemã e austríaca, incluindo Martin Sellner, um dos principais ideólogos europeus da chamada “remigração”.
O encontro foi revelado pela organização de investigação Correctiv e desencadeou grandes manifestações na Alemanha.
Desde então, o termo deixou de circular apenas nos meios mais radicais e entrou abertamente no discurso político da AfD.
A ideia prevê diferentes fases de expulsão: começaria por migrantes em situação irregular ou com processos judiciais pendentes, avançaria para requerentes de asilo e refugiados e poderia chegar a pessoas de origem estrangeira consideradas insuficientemente integradas ou pouco “patrióticas”.
A AfD apresenta, contudo, uma interpretação mais limitada da sua própria política.
Em resposta à ‘Reuters’, o deputado Bernd Baumann garantiu que o partido entende por “remigração” a deportação, “de acordo com a lei”, de estrangeiros obrigados a abandonar o país e acusou Merz de distorcer deliberadamente a posição da AfD para demonizar o partido.
Weidel quer deportar mais de um milhão
A polémica ganhou ainda mais força devido às declarações de Alice Weidel no Bundestag. A copresidente da AfD defendeu a deportação imediata de mais de um milhão de refugiados e requerentes de asilo residentes na Alemanha, argumentando que não se integraram no país. “A imigração em massa alimentou o ódio ao cristianismo e aos alemães”, afirmou Weidel.
Foi precisamente durante a resposta à líder da AfD que Merz fez a acusação que agora poderá levá-lo a enfrentar um processo judicial.
O chanceler alertou também para as consequências económicas de uma política de expulsões em grande escala, lembrando a dependência de setores como saúde, restauração e assistência a idosos de trabalhadores estrangeiros.
AfD acaba de conseguir uma vitória histórica
O confronto acontece num momento particularmente delicado para Merz.
A AfD venceu no último domingo as eleições regionais na Saxónia-Anhalt, conseguindo quase 44% dos votos, contra cerca de 17% da União Democrata-Cristã (CDU) do chanceler. Ficou, contudo, a três lugares da maioria absoluta no parlamento regional.
O programa apresentado pelo partido naquele estado inclui uma “ofensiva de deportação e remigração”, além de outras medidas destinadas a restringir a imigração.
Ulrich Siegmund, candidato da AfD, tenta agora reunir os apoios necessários para chegar à chefia do governo regional.
A possibilidade de a AfD governar pela primeira vez um estado alemão está também a colocar sob enorme pressão a tradicional “barreira de proteção” — Brandmauer — através da qual os restantes grandes partidos recusam acordos políticos com a extrema-direita.
E a AfD já lidera a nível nacional
A dimensão do problema para Merz vai muito além da Saxónia-Anhalt.
Nas eleições federais de 2025, a AfD terminou em segundo lugar. Atualmente, várias sondagens colocam o partido próximo dos 30% das intenções de voto a nível nacional, à frente da CDU. O ‘El País’ aponta para uma vantagem próxima de dez pontos sobre os democratas-cristãos.
O crescimento está a reabrir uma discussão ainda mais sensível: a eventual proibição do partido.
Social-democratas, Verdes e Die Linke defendem que o Bundestag avance com um pedido junto do Tribunal Constitucional Federal para ilegalizar a AfD. Para isso, porém, seria politicamente importante contar com o apoio da CDU. Os democratas-cristãos resistem. Temem que uma tentativa fracassada de proibir o partido produza precisamente o efeito contrário e fortaleça ainda mais a AfD.
Entretanto, a disputa política já mudou de terreno. Merz tentou transformar a “remigração” no centro do debate sobre aquilo que considera ser a verdadeira natureza do projeto da AfD. A AfD respondeu levando o próprio chanceler à Justiça. E tudo isto acontece numa Alemanha onde, neste momento, é precisamente a extrema-direita que aparece à frente nas sondagens.

















