Houthis terão clonado voz de general com IA para ordenar retirada de tropas no Iémen: uma voz falsa, um recuo real

Comando militar da Resistência Nacional nega, porém, que a voz da gravação seja verdadeira e acusa os Houthis de a terem fabricado através de inteligência artificial para “desinformar o público” e afetar o moral das tropas

Francisco Laranjeira

Uma gravação parece mostrar um dos principais comandantes militares do Iémen a ordenar às suas próprias tropas que abandonem posições e a acusar a Arábia Saudita de as ter deixado entregues à sua sorte.

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O problema é que a voz poderá nunca ter sido dele.

Os rebeldes Houthis são acusados de terem utilizado inteligência artificial para falsificar a voz de Tareq Saleh, comandante das Forças de Resistência Nacional, numa operação de desinformação que coincidiu com um avanço fulgurante do grupo pela costa ocidental do Iémen.

Segundo o ‘El Español’, a gravação foi divulgada por contas nas redes sociais com mais de meio milhão de seguidores e atribuída a Saleh, que entretanto anunciou oficialmente um “reagrupamento tático” das suas forças, após consultas com o comando da coligação árabe.

O comando militar da Resistência Nacional nega, porém, que a voz da gravação seja verdadeira e acusa os Houthis de a terem fabricado através de inteligência artificial para “desinformar o público” e afetar o moral das tropas.

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Uma plataforma iemenita independente de verificação classificou igualmente o áudio como fabricado e gerado por inteligência artificial.

Uma ordem que Tareq Saleh diz nunca ter dado

Na gravação que circulou nas redes sociais, a voz atribuída ao comandante ordenava a retirada das forças e acusava os sauditas de as terem “abandonado”.

A Resistência Nacional respondeu alertando que quaisquer declarações ou posições de Tareq Saleh seriam divulgadas exclusivamente através dos canais militares oficiais e que conteúdos publicados fora desses meios não deveriam ser considerados autênticos.

Há, no entanto, uma distinção importante.

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As forças de Saleh recuaram efetivamente perante o avanço dos Houthis. O que não está demonstrado de forma independente é que a gravação falsa tenha provocado ou facilitado essa retirada.

O episódio surge precisamente quando o grupo apoiado pelo Irão conseguiu uma das maiores conquistas territoriais dos últimos anos no Iémen.

Houthis chegam a um dos pontos mais importantes do planeta

Os Houthis tomaram o distrito de Dhubab, depois de avançarem a partir de Mokha, cidade portuária do Mar Vermelho conquistada na quinta-feira.

Esta sexta-feira, deram mais um passo: fontes do governo iemenita confirmaram à ‘Associated Press’ que os rebeldes conquistaram também Mayun, ou Perim, depois da retirada das forças governamentais.

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E é difícil exagerar a importância da localização.

Mayun fica em pleno estreito de Bab el-Mandeb, a passagem que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e uma das principais artérias do comércio marítimo mundial.

O avanço acontece depois de os Houthis terem conquistado Mokha e posições nas ilhas Hanish, ampliando a sua presença ao longo da costa ocidental do Iémen. A ‘Reuters’ já alertava na quinta-feira que o controlo desta zona daria ao grupo maior capacidade de ameaçar uma segunda grande rota energética, numa altura em que o estreito de Hormuz está fortemente condicionado pela guerra com o Irão.

E a IA não estará apenas a ser utilizada para criar vozes

O caso torna-se ainda mais relevante porque não é a única utilização militar de inteligência artificial detetada recentemente no norte do Iémen.

A Anthropic revelou ter identificado e bloqueado uma célula que utilizava o Claude no desenvolvimento de software para três programas de armamento.

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Segundo a própria empresa, estavam em causa um foguete guiado, um míssil balístico de vários estágios com um objetivo de alcance superior a 2.000 quilómetros e uma família de mísseis que incluía uma variante de veículo planador hipersónico.

Os utilizadores recorreram ao Claude Code para desenvolver software de orientação, navegação e controlo, realizar simulações e analisar testes. Num dos casos descritos pela Anthropic, dados de um teste real realizado no Iémen foram introduzidos no sistema poucas horas depois para analisar uma falha.

A empresa refere uma “célula” localizada no norte do Iémen, território controlado pelos Houthis, mas a informação pública disponibilizada pela Anthropic não identifica formalmente os utilizadores como membros do movimento.

É uma diferença importante.

O que já não deixa grandes dúvidas é a velocidade da transformação da guerra.

Enquanto os Houthis conquistam território e chegam a uma das passagens marítimas mais importantes do mundo, há uma segunda batalha a decorrer nos telemóveis e nas redes sociais.

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E nela, até uma ordem dada pela voz de um general pode já não ter sido dada pelo general.

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