A guerra no Médio Oriente está a aproximar-se perigosamente de um dos países mais importantes para a economia mundial.
A Arábia Saudita enfrenta ataques do Irão e de grupos aliados de Teerão, enquanto os Houthis voltaram a avançar no Iémen, atacam território saudita e conquistaram posições que os aproximam de uma das passagens marítimas mais importantes do planeta.
E Riade poderá ter de escolher entre negociar com o grupo que combateu durante anos ou voltar a mergulhar numa guerra de consequências imprevisíveis.
“Não há opções fáceis para os sauditas”, resume Ahmed Nagi, analista sénior para o Iémen do International Crisis Group, em declarações à ‘Newsweek’.
Houthis conquistam porto estratégico
A situação agravou-se com a tomada de Mokha pelos Houthis, também conhecidos como Ansar Allah.
A cidade portuária situa-se na costa ocidental do Iémen e a sua conquista aproxima o grupo do estreito de Bab el-Mandeb, passagem que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden.
É um ponto fundamental para o comércio marítimo internacional.
E ganha uma importância ainda maior numa altura em que o tráfego através do estreito de Hormuz já está condicionado pelos ataques iranianos.
Nagi classifica a conquista de Mokha como uma “grande mudança no jogo”.
Pouco depois, meios alinhados com os Houthis anunciaram também a tomada das ilhas Hanish, dando ao grupo uma posição adicional no Mar Vermelho enquanto as suas forças avançam pela costa ocidental do Iémen.
A guerra já atravessou a fronteira
O problema para a Arábia Saudita não está apenas no mapa.
Ataques dos Houthis atingiram nos últimos dias as cidades sauditas de Abha, Khamis Mushait, Jazan e Najran, provocando incêndios em várias instalações energéticas e fazendo dezenas de feridos, segundo as autoridades sauditas citadas pela Newsweek.
Relatos ainda não verificados, baseados em dados térmicos de satélite, apontaram também para possíveis danos no oleoduto East-West.
A infraestrutura é particularmente importante porque permite transportar petróleo saudita até ao Mar Vermelho sem necessidade de atravessar Hormuz.
Do outro lado da fronteira, autoridades Houthi afirmam que aviões sauditas bombardearam Hudaydah, Marib, Taiz e Jawf, causando pelo menos 23 mortos.
A escalada representa o regresso de um conflito que parecia, pelo menos internamente, congelado.
O cessar-fogo de abril de 2022 tinha conseguido sobreviver a alguns dos períodos mais turbulentos que o Médio Oriente atravessou nos últimos anos.
Mesmo depois de os Houthis iniciarem ataques contra Israel e contra navios no Mar Vermelho na sequência do ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023, as linhas da frente dentro do Iémen permaneceram relativamente estáveis.
Isso mudou.
Arábia Saudita tem “duas opções” — e nenhuma é boa
Segundo Ahmed Nagi, a nova realidade deixa Riade perante duas grandes possibilidades.
A primeira é aceitar a alteração da correlação de forças e regressar à via política, incluindo negociações sobre algumas das exigências dos Houthis.
Isso poderia, porém, enfraquecer a posição saudita.
A segunda é voltar a escalar militarmente.
Também aí o custo seria elevado.
“Exigiria recursos, esforço e forças significativas e não seria fácil”, explica o especialista do International Crisis Group. “Não há realmente opções fáceis para os sauditas.”
A história ajuda a perceber a cautela.
A intervenção liderada pela Arábia Saudita contra os Houthis a partir de 2015 não conseguiu derrotar o movimento. Quando chegou o cessar-fogo de 2022, o grupo continuava a controlar quase um terço do território iemenita e zonas onde vivia até 80% da população, segundo a Newsweek.
Paquistão e Turquia podem entrar na equação
Há agora, porém, uma diferença importante.
Tradicionalmente, a Arábia Saudita procuraria apoio nos EUA perante uma ameaça desta dimensão. Washington está, no entanto, profundamente envolvido na confrontação com o Irão.
Riade começou entretanto a construir uma arquitetura de segurança alternativa juntamente com Paquistão e Turquia.
Nawaf Obaid, antigo conselheiro especial de dois embaixadores sauditas e consultor da Corte Real saudita, considera que uma “nova arquitetura de segurança regional já está a tomar forma” e que a Arábia Saudita está a tornar-se no seu “centro de gravidade”.
Segundo Obaid, o chamado Acordo de Meca pretende criar uma estrutura de segurança muito mais ampla do que a resposta ao conflito no Iémen: Paquistão forneceria massa estratégica, Turquia profundidade militar e marítima e a Arábia Saudita constituiria o centro político, económico e geográfico.
O objetivo seria também reduzir a dependência regional de um único garante externo de segurança.
Mas quanto mais central se torna Riade nessa nova arquitetura, maior é também o alvo colocado sobre o reino.
“Podemos fechar todo o Mar Vermelho”
Os Houthis já deixam claro aquilo que poderá acontecer caso o conflito se alargue.
Hussein Albukhaiti, jornalista baseado em Sanaa, afirmou à Newsweek que uma ofensiva conjunta da Arábia Saudita, EUA ou Paquistão contra o Iémen poderia levar o grupo a impedir a passagem de navios militares e comerciais desses países.
E foi ainda mais longe.
“Também poderiam bloquear todo o Mar Vermelho, exatamente como o Irão fez no Golfo Pérsico, porque o Mar Vermelho é uma das nossas principais armas”, afirmou.
Segundo Albukhaiti, uma escalada poderia ainda desencadear grandes ataques contra a Arábia Saudita, incluindo instalações da Saudi Aramco, aeroportos e portos, bem como possíveis operações terrestres nas regiões de Najran, Jizan e Asir.
O jornalista, cuja avaliação representa a perspetiva do lado Houthi e não uma capacidade militar independentemente confirmada, chegou a afirmar que o grupo poderia atacar toda a infraestrutura saudita de petróleo e gás “dentro de 24 horas”.
O petróleo está no centro de tudo
É aqui que uma guerra aparentemente concentrada no Iémen ganha consequências muito maiores.
A Arábia Saudita é o maior exportador mundial de crude, uma potência central da OPEP e o produtor com maior capacidade excedentária, sublinha Obaid.
E o reino já começa a sentir os efeitos da instabilidade regional.
Kristian Ulrichsen, investigador do Baker Institute e codiretor do Middle East Energy Roundtable, afirmou à Newsweek que a produção petrolífera saudita caiu para o nível mais baixo desde 1990 e as exportações para o valor mais reduzido em 13 anos.
Um bloqueio de Bab el-Mandeb e do acesso ao Mar Vermelho agravaria ainda mais essa pressão.
E deixaria o comércio mundial perante um cenário particularmente delicado: problemas simultâneos em duas das passagens marítimas mais importantes para a energia e o comércio internacional.
Hormuz de um lado. Bab el-Mandeb do outro. E a Arábia Saudita no meio.
Até a Vision 2030 está em risco
A ameaça não termina nas exportações de petróleo.
Mohammed bin Salman investiu grande parte do seu capital político na Vision 2030, o gigantesco plano destinado a reduzir a dependência saudita dos hidrocarbonetos e transformar o reino através de setores como turismo, entretenimento, desporto e investimento internacional.
Uma guerra prolongada junto à fronteira poderá começar a atingir precisamente essa estratégia.
Ulrichsen alerta que novos ataques dos Houthis contra infraestruturas e alvos civis sauditas ameaçam o desenvolvimento económico associado à Vision 2030, particularmente a aposta no turismo e no desporto.
Riade passou anos a tentar afastar-se da guerra do Iémen e a apresentar-se ao mundo como um centro de investimento, turismo e grandes eventos internacionais.
Agora, a guerra está novamente a bater à sua fronteira.
E desta vez há muito mais em jogo do que o controlo do Iémen.














