Há uma experiência que durante gerações fez parte da infância e que começa a tornar-se cada vez mais rara: não ter absolutamente nada para fazer.
Sem desenhos animados à escolha, vídeos infinitos, jogos, mensagens ou um telemóvel no bolso, restava ficar aborrecido. Para Bill Gates, talvez não fosse assim tão mau.
O fundador da Microsoft voltou a alertar para os efeitos de uma vida passada demasiado tempo diante dos ecrãs, sobretudo entre crianças e adolescentes, defendendo que a exposição permanente ao mundo digital pode estar a retirar espaço à concentração, à reflexão e até ao simples ato de pensar.
Segundo o ‘El Economista’, Gates abordou o tema inspirado pelo livro “A Geração Ansiosa”, do psicólogo social Jonathan Haidt, que tem alimentado o debate internacional sobre o impacto dos smartphones e das redes sociais nos mais jovens.
Quando até o tédio desaparece
Uma das preocupações de Gates está precisamente na ausência daqueles momentos em que nada acontece.
As crianças, argumenta, têm hoje muito menos oportunidades para ficar entediadas, pensar ou simplesmente deixar a mente vaguear. Sempre que surge um momento vazio, existe um ecrã capaz de o preencher imediatamente.
E é precisamente aí que reside o paradoxo: aquilo que parece ser apenas entretenimento pode acabar por eliminar momentos importantes para desenvolver concentração, criatividade e capacidade de reflexão.
A preocupação torna-se particularmente relevante numa altura em que o impacto da utilização intensiva de smartphones e redes sociais por menores continua a ser discutido por investigadores, famílias e governos.
Protegidos na rua, sozinhos na Internet
Gates aponta ainda outra contradição na forma como muitas crianças crescem atualmente.
“A ironia é que os pais hoje em dia são superprotetores no mundo físico e, estranhamente, não intervêm no mundo digital”, afirmou, citado pelo ‘El Economista’.
Ou seja, os filhos podem ter cada vez menos liberdade para explorar o mundo físico sozinhos, enquanto recebem acesso muito mais amplo a redes sociais, aplicações, vídeos e comunidades online.
É uma discussão que já ultrapassou as famílias. Em Espanha, por exemplo, têm surgido movimentos de pais que procuram adiar a entrega do primeiro smartphone aos filhos, com alguns grupos a defender que o acesso seja retardado até aos 16 anos.
Um aviso vindo de alguém improvável
Há uma ironia adicional no mensageiro.
Bill Gates tornou-se uma das figuras mais importantes da revolução informática que colocou computadores em milhões de casas e ajudou a construir o mundo digital que hoje nos acompanha praticamente a toda a hora.
Décadas depois, não está a defender o desaparecimento da tecnologia.
O aviso é outro: talvez nem todos os minutos da infância precisem de ser preenchidos.
Porque aquele velho “estou aborrecido” que tantos pais tentam resolver rapidamente pode, afinal, ser precisamente o momento em que uma criança começa a descobrir o que fazer com os próprios pensamentos.














