O verão de calor extremo e seca está a deixar uma marca profunda numa das imagens de marca de França.
A produção francesa de vinho deverá cair este ano para cerca de 3,4 mil milhões de litros, naquele que poderá ser o nível mais baixo desde 1957. As estimativas foram divulgadas esta segunda-feira pelo Agreste, serviço de estatística do Ministério da Agricultura francês, e apontam para uma quebra de 6% face ao ano passado e de 17% relativamente à média registada entre 2021 e 2025.
A região de Champagne é uma das mais atingidas.
A produção deverá cair cerca de 49% em relação a 2025, depois de um verão marcado por temperaturas excecionalmente elevadas e falta de água.
Vindimas começaram mais cedo
As condições meteorológicas aceleraram fortemente o amadurecimento das uvas.
Em várias regiões francesas, as vindimas começaram ainda em agosto, muito mais cedo do que seria habitual, à medida que os produtores tentavam colher antes que o calor degradasse ainda mais os frutos.
Segundo o Agreste, a seca dos solos intensificou-se em todo o território francês durante o verão.
As sucessivas ondas de calor provocaram queimaduras solares nas uvas, queda de folhas e desidratação dos cachos, reduzindo a quantidade e a qualidade potencial da colheita.
Em Champagne, os produtores realizaram mesmo a vindima mais precoce de que há registo.
A necessidade de colher rapidamente esteve também relacionada com o aumento do teor de açúcar das uvas, que, se continuasse a subir, poderia elevar excessivamente o teor alcoólico potencial do vinho.
Champagne perde praticamente metade
O impacto nesta região será particularmente severo.
Além da redução de cerca de metade da produção face ao ano passado, o peso médio dos cachos caiu para o nível mais baixo dos últimos 20 anos.
A ‘Reuters’ refere que Champagne deverá registar uma quebra de 49% relativamente a 2025.
Outras regiões produtoras, entre elas Bourgogne-Beaujolais, Vale do Loire e Charentes, também deverão sofrer reduções significativas.
A situação não é, porém, igual em todo o país.
Sul consegue recuperar, mas continua abaixo da média
No Languedoc-Roussillon, no sul de França, a produção deverá aumentar cerca de 5% relativamente à fraca colheita do ano passado.
Mesmo assim, continuará aproximadamente 8% abaixo da média recente.
As perspetivas no início da campanha tinham sido mais otimistas, com bom desenvolvimento das uvas e pouca pressão de doenças.
O problema surgiu durante o verão.
O próprio Agreste reconhece que as condições quentes e secas degradaram significativamente o potencial que existia inicialmente.
Menor produção em quase 70 anos
Caso a estimativa atual se confirme, França produzirá cerca de 34 milhões de hectolitros de vinho em 2026.
Isso equivale aproximadamente a 3,4 mil milhões de litros.
A Reuters estima que esse volume corresponde a cerca de 4,5 mil milhões de garrafas.
O valor representa uma das piores colheitas das últimas décadas e, segundo os dados citados pelo ‘POLITICO’, poderá ser a menor desde 1957.
O setor já vinha de anos difíceis.
Em 2025, a produção tinha ficado limitada a cerca de 34,4 milhões de hectolitros, num contexto igualmente marcado por condições meteorológicas adversas e pela redução das áreas de vinha em produção.
Problema vai muito além do vinho
A quebra da produção vitivinícola é apenas uma parte dos danos provocados pelo verão extremo na agricultura europeia.
A organização agrícola Copa-Cogeca estima que as perdas na produção de milho possam atingir entre 50% e 70% na Eslovénia, cerca de 40% em França e entre 20% e 25% em Itália, chegando aos 70% em algumas zonas sem irrigação.
Na Croácia, a produção de fruta e uvas deverá cair cerca de 30%.
Em França, o Governo estima que o impacto económico global das ondas de calor deste verão possa situar-se entre 10 e 15 mil milhões de euros, o equivalente a até cerca de 0,5% do PIB.
Governo anuncia mais de mil milhões para agricultores
Paris anunciou entretanto um pacote de emergência superior a mil milhões de euros destinado a apoiar o setor agrícola.
As organizações de agricultores consideram, porém, que a dimensão das ajudas continua aquém dos prejuízos sofridos.
No caso do vinho, a queda da produção chega numa altura em que os produtores franceses já enfrentam outros problemas, entre eles a redução do consumo em alguns mercados, dificuldades nas exportações e pressão crescente sobre os preços.
Em 2026, porém, o maior adversário poderá ter sido o próprio clima.
Depois de um verão de seca, calor extremo e vindimas antecipadas, França prepara-se agora para fechar uma das colheitas de vinho mais pequenas de que há registo.














