Vinte e cinco anos depois dos atentados do 11 de Setembro terem colocado a Al-Qaeda e o terrorismo jihadista no centro das preocupações mundiais, o mapa da ameaça mudou profundamente. O novo epicentro já não está no Médio Oriente.
Está em África.
Mais de 59.700 pessoas morreram na última década às mãos de grupos islamistas armados na região do Sahel e, no último ano, mais de metade de todas as mortes relacionadas com terrorismo no mundo ocorreram nesta região, segundo dados citados pela ‘Newsweek’.
O Comando dos EUA para África (AFRICOM) vai ainda mais longe e considera atualmente África o “epicentro do terrorismo global”.
Grupos associados à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico estão a ganhar território, capacidade militar e influência no Sahel e na bacia do Lago Chade. E, segundo o AFRICOM, alguns têm não apenas capacidade crescente, mas também intenção de atingir interesses dos EUA e eventualmente o próprio território americano.
O alerta surge quando os Estados Unidos se preparam para assinalar os 25 anos dos atentados de 11 de Setembro.
Al-Qaeda está a ganhar terreno
Um dos grupos que mais preocupa os especialistas é o Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), organização afiliada da Al-Qaeda.
O grupo intensificou as operações no Burkina Faso, Mali e Níger e está a expandir a sua influência para outras áreas da África Ocidental.
Héni Nsaibia, analista sénior do Armed Conflict Location & Event Data (ACLED) para o Sahel, aponta à ‘Newsweek’ uma tendência particularmente preocupante: estes grupos estão a consolidar controlo territorial e já conseguem manter campanhas simultâneas em vários países contra forças governamentais, milícias e forças estrangeiras.
A capacidade para mobilizar combatentes em operações de grande dimensão também se tornou cada vez mais evidente.
O JNIM destaca-se ainda pela utilização de cercos e bloqueios económicos, procurando enfraquecer governos e comunidades enquanto aumenta a sua presença territorial.
Liam Karr, responsável pela equipa de África do Critical Threats Project, considera-o atualmente “a maior ameaça regional”, uma vez que já dispõe de redes de apoio nos países costeiros vizinhos do epicentro da insurgência no Sahel.
Estado Islâmico também está a crescer
Mas a Al-Qaeda não está sozinha.
Depois de ter perdido o território do autoproclamado “califado” que chegou a controlar vastas zonas do Iraque e da Síria, o Estado Islâmico reforçou a sua implantação em África.
No Sahel atua através da Província do Sahel do Estado Islâmico (ISSP), particularmente ativa no Níger e com redes que atravessam fronteiras.
Karr considera que o grupo representa atualmente uma ameaça externa ainda reduzida e embrionária para a Europa e os EUA, mas potencialmente superior à colocada pelo JNIM.
A preocupação está na possibilidade de essas redes serem utilizadas para operações fora de África.
Segundo o investigador, o Estado Islâmico já demonstrou intenção de utilizar o ISSP como plataforma para apoiar a passagem de combatentes estrangeiros provenientes da Europa e células destinadas a ataques no Norte de África e em territórios espanhóis.
A ameaça não é apenas teórica.
A ‘Newsweek’ recorda que redes africanas estiveram relacionadas com atentados reivindicados pelo Estado Islâmico na Europa, incluindo o ataque com um camião contra o mercado de Natal de Berlim, em 2016, e o atentado na Manchester Arena, em 2017.
Maior braço do Estado Islâmico está em África
Há outro dado particularmente significativo.
Segundo o AFRICOM, a Província da África Ocidental do Estado Islâmico (ISWAP), que nasceu de uma dissidência do Boko Haram, é atualmente a maior e mais operacionalmente ativa afiliada do Estado Islâmico no mundo.
Um dos seus objetivos será chegar à costa da África Ocidental.
O receio dos EUA é que o acesso ao litoral permita aos grupos aumentar recursos, influência e capacidade de projetar a ameaça para fora do continente.
Além do Sahel e da África Ocidental, o Estado Islâmico mantém afiliados ou células na África Central, República Democrática do Congo, Moçambique, Somália, Líbia, Tunísia e Península do Sinai.
Porque se tornou o Sahel terreno fértil?
A expansão não acontece por acaso.
Boubacar Ba, investigador do Center for Analysis on Governance and Security in the Sahel, descreve a região como uma espécie de “laboratório” onde grupos armados conseguem aplicar experiência adquirida noutros conflitos, incluindo Síria e Afeganistão.
A fragilidade dos Estados é uma parte fundamental da explicação.
Golpes de Estado sucessivos, pobreza, redes de tráfico de droga, fronteiras difíceis de controlar e divisões étnicas criaram condições aproveitadas pelos grupos jihadistas para recrutar entre populações descontentes.
Ba prevê que a situação continue a deteriorar-se porque os países da região não dispõem da capacidade necessária para travar a expansão.
As intervenções estrangeiras também não conseguiram inverter a tendência.
A França lançou a Operação Serval em 2013 e depois a Operação Barkhane, mas acabou por retirar forças do Mali, Burkina Faso, Níger e Chade entre 2022 e 2025.
A Rússia aumentou entretanto a sua presença, apoiando militarmente Burkina Faso, Mali e Níger através, entre outros meios, do Africa Corps, estrutura que sucedeu ao Grupo Wagner. Ainda assim, também não conseguiu inverter a expansão jihadista.
E Trump pode voltar-se para o Sahel
Washington está atento.
Segundo a ‘Newsweek’, surgiram em julho informações de que a Administração Trump estaria a estudar uma possível intervenção no Sahel.
Há, contudo, outro interesse dos EUA na região: matérias-primas críticas.
Boubacar Ba afirma que já ocorreram discussões no terreno e considera que Washington procura estabilidade que permita simultaneamente estabelecer parcerias relacionadas com os recursos minerais existentes na região.
O AFRICOM confirma, por sua vez, que vários países costeiros da África Ocidental estão preocupados com a progressão das ameaças provenientes do Sahel e interessados numa maior cooperação com os Estados Unidos.
Mas uma nova intervenção militar pode também agravar o problema.
William Assanvo, investigador do Institute for Security Studies, lembra que décadas de treino, assistência técnica, inteligência e operações antiterroristas não impediram que a ameaça se consolidasse e expandisse para além do Sahel.
Segundo o especialista, algumas respostas militares acabaram inclusivamente por contribuir para dispersar os grupos por novas áreas. Uma intervenção dos EUA que envolvesse tropas no terreno poderia internacionalizar ainda mais um conflito que permanece essencialmente regional e alimentar as próprias insurgências que Washington procuraria combater.
Vinte e cinco anos depois do 11 de Setembro, portanto, a ameaça jihadista não desapareceu.
Mudou de geografia.
Enquanto grande parte da atenção internacional continua concentrada no Médio Oriente e na Europa, Al-Qaeda e Estado Islâmico encontraram no Sahel Estados frágeis, fronteiras porosas, conflitos locais e enormes territórios onde podem crescer.
E é por isso que, para o comando militar dos EUA responsável por África, o novo “epicentro do terrorismo global” já tem um endereço diferente.














