Donald Trump lançou esta sexta-feira uma nova ameaça capaz de voltar a abalar o comércio mundial: se a Reserva Federal dos EUA não baixar as taxas de juro, o presidente admite interromper as trocas comerciais com países perante os quais Washington regista um défice.
“BAIXEM OS JUROS OU DEIXO DE NEGOCIAR COM OS PAÍSES COM OS QUAIS TEMOS UM DÉFICE”, escreveu Trump na Truth Social, em maiúsculas.
A declaração, confirmada pela ‘Reuters’, surgiu poucas horas depois de serem conhecidos números do emprego muito superiores às expectativas nos EUA. E é precisamente aí que começa o paradoxo: Trump considera que os bons dados justificam juros mais baixos, enquanto os mercados chegaram à conclusão praticamente oposta.
Os EUA criaram 162 mil empregos em agosto, quase três vezes mais do que os cerca de 56 mil esperados pelos economistas. O desemprego manteve-se nos 4,1%.
O resultado levou os investidores a aumentar para cerca de 60% a probabilidade de a Reserva Federal subir os juros já na reunião deste mês.
Trump quer exatamente o contrário.
“Devíamos ter a taxa mais baixa do mundo”
O presidente dos EUA interpretou os números do emprego como uma demonstração do fortalecimento económico do país e, por isso, como argumento para que Washington consiga financiar-se a custos mais baixos.
“Um país forte significa uma taxa de juro mais baixa — é um crédito melhor. Muito simples!”, escreveu.
Trump foi ainda mais longe: “Devíamos ter a TAXA MAIS BAIXA de qualquer país do mundo, como nos ‘velhos tempos’.”
O raciocínio da Reserva Federal é diferente.
Um mercado de trabalho mais resistente dá ao banco central maior margem para manter uma política monetária restritiva ou mesmo voltar a subir os juros caso a inflação continue demasiado elevada. Com menos sinais de deterioração do emprego, aumenta a possibilidade de apertar a política monetária sem provocar uma crise imediata no mercado laboral.
Foi por isso que os 162 mil novos empregos, apesar de serem uma boa notícia para a economia, fizeram aumentar as expectativas de uma subida dos juros.
Trump não esconde a sua oposição.
A ameaça: deixar de negociar
Foi então que o presidente introduziu uma variável que não depende diretamente da Reserva Federal: o comércio internacional.
Trump argumenta que outros países conseguem acumular grandes excedentes comerciais com os EUA porque Washington lhes permite acesso ao enorme mercado americano.
“Sem os Estados Unidos concordarem em permitir-lhes os seus grandes excedentes — algo que poderíamos impedir imediatamente — deixariam de ser considerados uma elite financeira”, escreveu.
E lançou o ultimato à Fed.
Se os juros não descerem, ameaça impedir o comércio com países perante os quais os EUA têm défice.
“É MELHOR DO QUE TARIFAS!”, acrescentou.
A concretização de uma ameaça desta dimensão teria consequências profundas. Os EUA registam défices comerciais com alguns dos seus maiores parceiros económicos e interromper essas relações significaria atingir cadeias de abastecimento construídas ao longo de décadas.
Trump não explicou, porém, como aplicaria a medida, que países seriam atingidos ou em que circunstâncias transformaria a ameaça numa decisão efetiva.
Comércio e dívida são a mesma coisa? Não
A análise do ‘El Economista’ chama a atenção para um problema fundamental no argumento de Trump: défice comercial e défice orçamental são conceitos diferentes.
O défice orçamental surge quando o Estado gasta mais do que recebe em receitas. Esse desequilíbrio obriga o Tesouro a emitir dívida para financiar a diferença.
Já um défice comercial significa que um país importa mais bens e serviços do que exporta.
Trump tem insistido em apresentar os défices comerciais como uma perda para os EUA, mas vários economistas contestam essa leitura.
Desmond Lachman, do American Enterprise Institute, citado pelo ‘El Economista’, argumenta que a relação pode funcionar precisamente no sentido inverso ao apresentado pelo presidente.
“Para equilibrarmos o défice comercial, primeiro precisamos de reduzir o nosso enorme défice orçamental”, explicou. “Se continuarmos a gastar mais do que produzimos, teremos um défice comercial independentemente do tamanho das tarifas que impusermos às importações.”
Adam Crisafulli, fundador da Vital Knowledge e antigo analista do JPMorgan, classificou a possibilidade de interromper o comércio com grandes parceiros como uma ameaça “ilógica e vazia”.
Mas vê nela um risco: o regresso de uma nova vaga de tarifas e, consequentemente, de mais incerteza para a economia mundial.
Não é a primeira ameaça
Trump já tinha utilizado uma formulação semelhante esta semana contra o Canadá. “Se não comprarmos nada deles, deixamos de perder dinheiro com eles”, argumentou.
E também já ameaçou anteriormente cortar relações comerciais com Espanha, embora essa ameaça não tenha sido concretizada.
Desta vez, porém, Trump ligou explicitamente a possibilidade de interromper o comércio à política monetária da Reserva Federal.
O presidente invocou ainda a recente decisão do Supremo Tribunal dos EUA sobre os poderes presidenciais em matéria comercial, alegando que a sentença reconheceu a possibilidade de um presidente interromper as trocas com outro país ao abrigo dos poderes de emergência.
Foi precisamente esse acórdão que limitou a utilização por Trump da Lei dos Poderes Económicos de Emergência Internacional para impor as chamadas tarifas do “Dia da Libertação”. O presidente considera a decisão “ridícula e muito dispendiosa”, mas entende que o tribunal deixou aberta outra arma comercial: restringir diretamente as relações económicas com determinados países.
Casa Branca tenta baixar a temperatura
Dentro da própria Administração, o discurso é mais prudente em relação à Reserva Federal.
Kevin Hassett, diretor do Conselho Económico Nacional da Casa Branca, reiterou que a Administração respeita a independência do banco central e reconheceu que os mercados estão agora a considerar seriamente uma nova subida dos juros para conter a inflação.
A pressão de Trump surge numa altura particularmente sensível para a Fed.
Depois dos 162 mil empregos criados em agosto, a probabilidade implícita nos mercados de uma subida de 25 pontos base na reunião de 15 e 16 de setembro aproximou-se dos 60%, contra cerca de 50% antes da divulgação dos números.
Os próximos dados da inflação poderão ainda alterar essas expectativas.
Trump, porém, já deixou claro aquilo que espera do banco central — e acrescentou uma ameaça que leva a disputa muito para além da política monetária.
“Os juros elevados colocam os Estados Unidos numa desvantagem muito injusta”, escreveu. “E não vou permitir que isso aconteça.”

















