A época de férias e de maior circulação de pessoas pode trazer consigo um visitante indesejado: o percevejo. Embora estes insetos não tenham propriamente uma época do ano em que apareçam exclusivamente, os meses de verão podem aumentar as oportunidades de contacto e, sobretudo, facilitar a sua deslocação entre hotéis, alojamentos, dormitórios, casas arrendadas e outros espaços partilhados.
Shannon Sked, entomologista e diretora técnica nacional da Orkin, explica que os percevejos não obedecem a uma época sazonal tradicional, como acontece com outros insetos. “Os percevejos não têm uma ‘época’ tradicional da mesma forma que pragas como os mosquitos. Infelizmente, podem ser um problema durante todo o ano, em qualquer lugar onde as pessoas vivam, durmam ou viajem”, afirmou. Ainda assim, acrescentou, o verão pode representar um período de maior risco porque “mais pessoas estão em movimento”.
É precisamente o aumento das deslocações que leva muitos profissionais de controlo de pragas a associar o final do verão e o início do outono a uma maior incidência de percevejos. Férias, estadias em hotéis, cruzeiros e outros tipos de viagem criam mais oportunidades para estes insetos passarem de um local para outro, sobretudo através dos pertences dos viajantes.
“Férias, estadias em hotéis, cruzeiros e outras formas de viagem dão aos percevejos mais oportunidades para apanhar boleia de um lugar para outro”, explicou Sked, acrescentando que outros períodos de maior mobilidade, como as viagens durante as épocas festivas, também podem ser acompanhados por um aumento dos casos.
O verão aumenta realmente a atividade dos percevejos?
A relação entre o verão e um eventual aumento da atividade dos percevejos não é, contudo, totalmente clara. Zach DeVries, professor assistente de entomologia urbana na Universidade do Kentucky, admite que pode existir uma relação entre as condições de verão e a atividade destes insetos, mas sublinha que a investigação disponível ainda é limitada.
Segundo DeVries, também se verifica um aumento das notificações durante períodos de maior circulação, como as férias da primavera e do verão e as viagens associadas a épocas festivas. No entanto, não é possível determinar com segurança se esse crescimento corresponde a um aumento real das infestações ou se resulta simplesmente de uma maior atenção por parte das pessoas e dos meios de comunicação.
“Também observamos aumentos nas notificações durante períodos de viagens — férias de primavera e verão, viagens durante as épocas festivas, etc. — mas não é claro se esses aumentos são reais ou se estão apenas associados a uma maior atenção das pessoas e dos meios de comunicação em geral”, afirmou DeVries.
O especialista explica ainda que a própria sensibilização para o problema pode contribuir para que mais casos sejam identificados. Durante os períodos de férias, são frequentemente divulgados conselhos sobre como evitar percevejos, o que faz com que os viajantes estejam mais atentos à sua possível presença.
Existe também alguma evidência anedótica de que, em determinadas regiões do norte, a baixa humidade durante esta época poderá reduzir o crescimento e a reprodução dos percevejos. Essa possibilidade apontaria para uma eventual ligação entre climas quentes e húmidos e as infestações, mas DeVries salienta que ainda não existem dados suficientes para sustentar de forma sólida essa teoria.
Shannon Sked coloca o foco noutro fator: o facto de os percevejos viverem sobretudo dentro de edifícios significa que as condições meteorológicas exteriores têm uma influência relativamente reduzida.
“Como os percevejos são encontrados quase exclusivamente no interior e vivemos em ambientes climatizados, o tempo no exterior não afeta realmente a sua atividade”, explicou. Para a especialista, o principal fator associado ao aumento das preocupações durante o verão é a atividade humana.
Os percevejos permanecem sobretudo em ambientes interiores e próximos dos seus hospedeiros, pelo que não ficam diretamente expostos às temperaturas exteriores da mesma forma que muitas outras pragas sazonais.
DeVries admite, ainda assim, que o calor pode influenciar o desenvolvimento dos insetos. “Os percevejos crescem e reproduzem-se mais rapidamente quando está mais quente, pelo menos até determinada temperatura, mas o calor exterior é frequentemente compensado pelo ar condicionado no interior, onde esses efeitos são minimizados”, explicou.
Dependendo do local e da utilização de ar condicionado, acrescentou, o ambiente interior pode, em determinadas circunstâncias, favorecer a presença de mais percevejos à medida que as temperaturas aumentam.
O verdadeiro problema está nas viagens
Se existe um elemento particularmente importante para explicar o aumento dos encontros com percevejos durante o verão, é a quantidade de pessoas que viaja.
Jim Fredericks, entomologista e vice-presidente sénior de assuntos públicos da National Pest Management Association, descreve estes insetos como autênticos especialistas em deslocações clandestinas. “Os percevejos são especialistas em apanhar boleia e podem viajar em malas, mochilas, roupa de cama, mobiliário, o que for”, afirmou.
Depois de chegarem a um novo espaço, os insetos permanecem no interior, onde encontram temperaturas relativamente estáveis e uma fonte de alimento regular: as pessoas.
A maior circulação de viajantes cria, por isso, mais oportunidades para que os percevejos passem entre hotéis, dormitórios, alojamentos arrendados e outros espaços partilhados com elevada concentração de pessoas.
“Mais pessoas estão a circular em espaços partilhados, dando aos percevejos mais oportunidades para se esconderem entre os seus pertences”, explicou Fredericks.
O problema é que um viajante pode nem sequer perceber que esteve num espaço infestado. Basta que alguns insetos se escondam numa mala para que acabem por chegar a casa e iniciem uma nova infestação.
“Pode não notar um percevejo num hotel ou num alojamento arrendado, mas apenas alguns que tenham apanhado boleia na sua mala podem começar uma infestação em casa”, alertou Fredericks.
E não é obrigatório ter regressado recentemente de férias para encontrar percevejos em casa. Estes insetos conseguem sobreviver durante meses sem se alimentarem de sangue, o que significa que uma infestação pode permanecer escondida durante bastante tempo antes de ser detetada.
“Também é importante notar que os percevejos podem sobreviver durante meses sem uma refeição de sangue”, explicou Fredericks. Assim, mesmo que uma pessoa detete uma infestação sem ter viajado recentemente, é possível que os insetos já estivessem presentes há algum tempo sem serem identificados.
Uma infestação pode crescer rapidamente
A deteção precoce é especialmente importante porque, depois de introduzidos numa casa, os percevejos podem multiplicar-se rapidamente.
“Depois de os percevejos serem introduzidos numa casa, podem reproduzir-se rapidamente”, afirmou Sked. Uma fêmea saudável que tenha sido alimentada pode pôr entre dois e cinco ovos por dia e produzir cerca de 500 ovos ao longo da vida.
É precisamente esta capacidade de reprodução que torna importante identificar o problema o mais cedo possível. Quanto mais tempo uma infestação permanecer sem intervenção, maior poderá ser a dificuldade em controlá-la.
Como evitar levar percevejos das férias para casa
A prevenção começa ainda durante a viagem. Para Zach DeVries, o primeiro passo passa por manter a atenção sem transformar a possibilidade de encontrar percevejos numa razão para deixar de viajar.
“Esteja atento ao que o rodeia”, aconselhou o especialista. Os percevejos devem ser encarados como uma possibilidade independentemente do destino, mas isso não significa que seja necessário ter medo ou evitar viagens. A recomendação passa antes por viajar com consciência do problema e dos riscos que estes insetos podem representar.
A atenção redobrada pode fazer a diferença porque permite identificar sinais de uma infestação numa fase inicial, quando o problema tende a ser mais fácil de controlar.
Fredericks recomenda que os viajantes resistam à tentação de colocar imediatamente a mala em cima da cama depois de uma longa viagem.
“Eu sei que, depois de um longo dia de viagem, só queremos colocar a mala na cama ou no suporte para bagagem e começar a desfazer as malas, mas recomendo que todos os viajantes façam primeiro uma rápida inspeção visual”, afirmou.
O conselho aplica-se tanto a alojamentos simples como a espaços de luxo, uma vez que, segundo o especialista, os percevejos são oportunistas.
Shannon Sked recomenda que a inspeção seja feita antes mesmo de retirar os objetos da bagagem. O viajante deve dedicar alguns minutos a examinar o quarto, prestando especial atenção às costuras do colchão, às bases das camas, às cabeceiras e ao mobiliário situado junto à cama.
As malas devem permanecer elevadas e afastadas da cama e das paredes, em vez de serem colocadas diretamente no chão ou sobre a cama. A especialista aponta ainda a casa de banho como um local adequado para guardar temporariamente os pertences.
Fredericks aconselha igualmente a evitar superfícies como camas, sofás ou carpetes, onde os percevejos podem esconder-se. Uma superfície de azulejo, como a que existe normalmente na casa de banho, pode ser uma alternativa mais segura para colocar a bagagem enquanto se verifica o quarto.
A inspeção da cama deve incluir o levantamento dos lençóis e uma observação cuidadosa das costuras do colchão, recorrendo à luz do telemóvel. Os cantos merecem atenção especial.
Entre os sinais a procurar estão os próprios insetos, pequenas manchas escuras de fezes que podem parecer marcas de caneta, manchas avermelhadas, peles esbranquiçadas e translúcidas deixadas pelos insetos durante o crescimento e ovos minúsculos e translúcidos.
O mobiliário estofado também deve ser observado. Caso exista alguma suspeita de infestação, Fredericks recomenda pedir outro quarto que fique suficientemente afastado daquele espaço, evitando escolher uma divisão imediatamente ao lado, por cima ou por baixo.
O que fazer quando regressar a casa
Os cuidados não devem terminar no momento em que acaba a viagem. Quando regressar, Sked aconselha a inspecionar a bagagem, a roupa e os sapatos antes de levar todos os objetos para dentro de casa, sempre que isso seja possível.
A roupa que possa ser lavada deve ser submetida a um ciclo com água quente e, quando o tecido o permitir, colocada na máquina de secar a uma temperatura elevada. Segundo a especialista, o calor, quando utilizado no nível máximo, é letal para os percevejos.
Também é recomendável verificar regularmente os locais da casa onde estes insetos tendem a esconder-se. O mobiliário em segunda mão merece atenção especial antes de entrar em casa, uma vez que pode transportar percevejos sem que estes sejam imediatamente visíveis.
Sked recomenda ainda a instalação de interceptores, dispositivos que permitem monitorizar continuamente a eventual presença de pragas.
Fredericks aconselha a inspeção da bagagem, de preferência no exterior da habitação ou numa garagem, reduzindo assim o risco de introduzir eventuais insetos dentro de casa.
As peças de roupa que possam ser lavadas e secas devem passar por ciclos com temperaturas elevadas. O especialista recomenda também aspirar a mala para tentar remover eventuais ovos ou insetos que possam ter ficado no interior.
Depois da inspeção, a bagagem deve ser guardada longe do quarto, por exemplo numa cave ou garagem, de modo a evitar que eventuais sobreviventes consigam chegar às zonas onde as pessoas dormem.
Se existir uma suspeita concreta de que os percevejos foram transportados para casa, os especialistas recomendam procurar ajuda profissional. O atraso pode permitir que uma infestação se desenvolva e se torne mais difícil de controlar.
“Os percevejos são conhecidos por serem extremamente difíceis de eliminar, e atrasar o tratamento pode agravar uma infestação”, alertou Sked.
Como reconhecer uma infestação de percevejos em casa
Identificar os sinais rapidamente é uma das principais formas de limitar o problema. No entanto, nem sempre é fácil encontrar os próprios insetos, sobretudo numa fase inicial.
Sked explica que, muitas vezes, é mais provável encontrar indícios da presença de percevejos do que observar diretamente os insetos. Entre os primeiros sinais estão pequenas manchas pretas, peles deixadas pelos insetos em fendas e rachas, manchas de sangue ou de cor ferrugem nos lençóis e colchões, percevejos visíveis e ovos muito pequenos, de cor branca e com aspeto perolado.
Os locais que merecem maior atenção são as zonas próximas da cama, incluindo as costuras do colchão, a base da cama, a cabeceira, o mobiliário, os rodapés e outras fendas e espaços escuros junto às áreas onde se dorme.
Os percevejos alimentam-se rapidamente e são particularmente eficazes a esconder-se em locais escuros e estreitos, o que dificulta a sua deteção.
Encontrar um percevejo vivo é a forma mais evidente de confirmar a presença da praga, mas DeVries alerta que isso pode ser particularmente difícil quando a infestação ainda está no início e existem poucos insetos.
Outros sinais incluem manchas de fezes, normalmente pequenos pontos pretos semelhantes a manchas de bolor, e peles deixadas pelos percevejos durante o seu desenvolvimento, que apresentam uma tonalidade creme e o formato característico do inseto.
Estes vestígios podem ser mais fáceis de encontrar do que os próprios percevejos, mas não permitem, por si só, confirmar que existe uma infestação ativa. As manchas de fezes e as peles podem permanecer no local durante bastante tempo, mesmo depois de os insetos já não estarem presentes.
“É difícil saber se a infestação está ativa apenas através das manchas de fezes e das peles deixadas pelos insetos”, explicou DeVries.
As picadas não são uma prova segura
Um dos erros mais comuns é assumir que determinadas marcas na pele são suficientes para confirmar a presença de percevejos. Os três especialistas alertam, contudo, que as picadas não constituem um indicador fiável.
A reação às picadas varia significativamente de pessoa para pessoa. Algumas pessoas podem não apresentar qualquer reação, enquanto outras podem desenvolver grandes vergões.
“Embora muitas pessoas gostem de utilizar as marcas das picadas como indicador da presença de percevejos, este não é o teste mais fiável”, explicou Sked. Além das diferentes reações individuais, as marcas podem ser confundidas com picadas provocadas por outros insetos, como mosquitos ou mosquitos-pólvora.
Por isso, uma marca na pele, por si só, não permite determinar com segurança a origem do problema. A confirmação deve passar por uma inspeção cuidadosa dos locais onde os percevejos normalmente se escondem.
Quando procurar ajuda profissional
Os especialistas defendem que uma inspeção atenta é a melhor forma de procurar sinais de uma eventual infestação, sobretudo nas zonas onde as pessoas dormem. Se houver indícios suspeitos, a opção mais segura passa por contactar um profissional especializado.
“Os percevejos são minúsculos e estão classificados pelos profissionais de controlo de pragas como uma das pragas mais difíceis de controlar”, afirmou Fredericks.
Por esse motivo, quem suspeite da presença destes insetos deve procurar um profissional qualificado, capaz de identificar os percevejos, avaliar a dimensão da infestação e definir um plano de tratamento adequado.
O verão, por si só, não significa que uma casa esteja mais exposta aos percevejos. O principal fator de risco associado a esta época é a maior mobilidade das pessoas e dos seus pertences. Hotéis, alojamentos, dormitórios, cruzeiros e outros espaços partilhados oferecem mais oportunidades para que os insetos encontrem uma forma de viajar de um local para outro.
A melhor defesa passa, assim, por uma combinação de atenção durante a viagem, inspeção da bagagem e dos quartos, cuidados com a roupa no regresso e vigilância dos locais onde os percevejos se podem esconder. Uma precaução de poucos minutos pode ser suficiente para detetar sinais antes que alguns insetos transportados numa mala tenham oportunidade de transformar uma viagem de férias numa infestação doméstica.














