Há mais de 30 anos que exploram uma gruta escondida numa instalação militar. Um cientista cai à água e encontra uma criatura digna de ‘Stranger Things’

Era fevereiro de 2025 e o biólogo da Universidade do Alabama em Huntsville participava numa das habituais inspeções à Bobcat Cave, uma extensa rede subterrânea de calcário no norte do Alabama, nos EUA. A gruta fica dentro de uma instalação militar de acesso restrito e está longe de ser um lugar confortável para trabalhar

Francisco Laranjeira

Matthew Niemiller não estava à procura de uma nova espécie. Na verdade, quando a encontrou, estava sobretudo a tentar não cair.

Escolha a Executive Digest como fonte preferida no Google Escolher ›

Era fevereiro de 2025 e o biólogo da Universidade do Alabama em Huntsville participava numa das habituais inspeções à Bobcat Cave, uma extensa rede subterrânea de calcário no norte do Alabama, nos EUA. A gruta fica dentro de uma instalação militar de acesso restrito e está longe de ser um lugar confortável para trabalhar.

Em determinadas zonas é preciso avançar curvado ou de gatas. Dependendo do nível da água, os investigadores podem ficar submersos até ao pescoço.

Foi nesse ambiente que Niemiller escorregou na característica lama vermelha do Alabama e caiu de cabeça numa zona profunda.

Quando recuperou do susto, estava frente a frente com algo que não reconhecia.

Continue a ler após a publicidade
Continue a ler após a publicidade

Um pequeno peixe de costas arqueadas, focinho ligeiramente semelhante ao bico de um pato e uma característica particularmente difícil de ignorar: não tinha olhos.

A pele era tão branca que, iluminada pelas lanternas dos investigadores, parecia azul.

Acidentalmente, Niemiller acabava de encontrar um animal desconhecido da ciência.

E havia uma razão para a descoberta ser particularmente embaraçosa.

A Bobcat Cave é explorada por equipas de monitorização praticamente todos os meses desde o início da década de 1990, sobretudo porque constitui um importante refúgio para o ameaçado camarão-das-grutas-do-Alabama.

Continue a ler após a publicidade

Durante mais de três décadas, cientistas passaram repetidamente pelos mesmos túneis, piscinas e câmaras.

E o peixe estava lá.

“É um choque e, de certa forma, até embaraçoso” que tenha conseguido passar despercebido durante tanto tempo, reconheceu Niemiller à Scientific American.

Dois peixes, a mesma escuridão e milhões de anos

A análise posterior trouxe uma surpresa ainda maior.

Continue a ler após a publicidade

Os investigadores já conheciam outro peixe cavernícola que vive na Bobcat Cave, o chamado Southern cavefish. Seria natural imaginar que o recém-descoberto animal fosse um parente próximo.

Não é.

As análises genéticas indicam que as duas espécies terão chegado ao mundo subterrâneo de forma independente e perderam a visão através de mutações diferentes.

É um exemplo particularmente curioso de evolução convergente: linhagens distintas confrontadas com as mesmas condições extremas acabam por desenvolver características semelhantes.

E não se limitam a ocupar a mesma rede subterrânea.

Os dois peixes foram encontrados nas mesmas piscinas e câmaras.

Continue a ler após a publicidade

A ‘Scientific American’ descreve a situação através de uma comparação bastante eficaz: outras espécies de peixes cavernícolas que coexistem podem ser vistas como vizinhos; estes dois são mais parecidos com companheiros de quarto.

Companheiros de quarto presos juntos há milhões de anos — e que, segundo os investigadores, poderão até alimentar-se ocasionalmente das crias uns dos outros.

Sem luz, a visão deixou de representar uma vantagem evolutiva. Ao longo de inúmeras gerações, os olhos desapareceram e outras características adaptadas à vida subterrânea ganharam importância.

Mas faltava uma coisa à nova espécie: um nome.

E os cientistas foram buscá-lo à televisão.

Niemiller e os colegas batizaram-na Demogorgonichthys arcanus.

Continue a ler após a publicidade

“Demogorgon” não aparece por acaso. É uma referência à criatura de ‘Stranger Things’, a série da Netflix em que experiências realizadas num laboratório secreto abrem uma passagem para uma dimensão paralela conhecida como Upside Down.

A localização ajudava à brincadeira: uma criatura estranha, praticamente fantasmagórica, descoberta numa gruta situada dentro de uma instalação federal de acesso restrito.

A descrição da nova espécie e do novo género foi publicada na revista científica Scientific Reports.

Suzanne McGaugh, ecóloga e especialista em peixes cavernícolas da Universidade do Minnesota, que não participou no trabalho, considera que a descoberta deixa sobretudo uma lição de humildade.

Porque a Bobcat Cave não era um lugar perdido onde ninguém entrava há décadas. Era precisamente o contrário.

Era uma das grutas mais acompanhadas da região.

E, depois de mais de 30 anos de visitas regulares, foi preciso um cientista escorregar e cair à água para perceber que havia ali uma espécie inteira que a ciência ainda não sabia que existia.+

Continue a ler após a publicidade
Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.